domingo, 16 de outubro de 2016

inóspitos


entre o Castelejo e a Cordoama a esquecer as luzes dos bares e as luzes dos carros e mais o que sabemos

Acabado o sol de derramar-se mar adentro em estertores de laranjas e roxos, nem mais um foco onde se determine: aqui é caminho, ali é precipício.
O inóspito avolumando-se: montes e céu como se fora nos primórdios.
Paisagem de vultos gordos como ventres prenhes ou coxas de mulher. Redondos recortados em azuis muito escuros e em negros e, mal adivinhados, uns verdes rasos e opacos.
E o silêncio: nada que não seja o coração da gente e o ar que nos sustenta a ir e vir, dentro e fora, fora e dentro.
Luz, apenas a luz da lua, que hoje foi noite dela ser quase uma lua grande, redonda como sol em céu de Outubro.
A lua inteira e não apenas um recorte.
Que em noites em que ela não se vislumbre, por ser o céu, um céu de tempestade, será só o alumiar de um relâmpago que varrerá a escuridão dos montes e da rocha e das dunas e do mar.
O mar, sempre.
O mar presente no odor intenso a algas e a peixe e a iodo, e a cheiros de quando fomos seres dentro dele, um cheiro de útero que trouxemos de termos sido medusas e girinos: termos sido feto.
E aqui e ali um branco que é o mar sempre revolto, sempre despedaçando-se no alcantilado da falésia e a derramar humores alvos na areia lá em baixo, lá muito onde nem adivinhamos.


Inóspitos com a gente dentro, imaginando.

2 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Sempre um texto muito criativo.

wind disse...

Muito bonito!:)
Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein