domingo, 23 de junho de 2019

o meu mais sentido e sincero apelo

que saudades do verão
o banho diário, gelado, a tirar-nos o sal
a tirar-nos o odor fedendo à sardinha na grelha...

"tanto calor, raio"
diremos nem sabendo, já, o que dói esta espera
diremos, ingratos
a não saber aproveitar, a não saber tirar partido...

que saudades
das sestas de janela aberta
as cortinas abanando dum ventinho fresco, auspicioso
e as noites...
quase madrugada e ainda a parecer lusco-fusco

que saudade do verão que começou apenas no calendário
apenas neste solstício que parece baralhado
inseguro
tímido de se abrir em calores
receoso de deixar que a gente transpire
que a gente sue em bica e assim se exorcise
de males de peito e muitos outros
ódios, paixões
crises de gota e crises de dinheiro
ou crises na política
mortes, desgostos...
a gente limpa-se disso tudo a cada gota de suor
a cada regurgitar da pele ao imenso calor

que venha o verão e a gente, assim, ressuscite
que venha, antes que termine agosto

quinta-feira, 20 de junho de 2019

in memória

dizem-me: morreu
e eu fico atenta ao passo que, em mim, será o derradeiro
cresce-me no quintal rama de rabanetes
e as alfaces estão cheias de viço
de mim
hão-de restar, indiferenciados, moléculas e átomos
mais do que isso, não sei, não acredito
nada que tenha o meu registo
nada que diga: esta fui eu
partículas, essas, sim,
hão-de recombinar-se em tomate, coentros, rama de nabo
talvez madeira de alguma árvore que alguém queime para aquecer-se
talvez uma gaivota leve nela algum dos meus despojos a ser-lhe ajuda com que,
lá do alto, desça a pique e colha uma sardinha ou outro peixe
mas este eu que eu sou desaparece por completo
desexiste
dizem-me: morreu e eu receio
apenas porque...pronto
porque gosto disto
e gostava de comer os rabanetes






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a vida tem destes mistérios e eu soube, após publicar este texto, que o José Rosa Sampaio partiu de entre os vivos
que exista um canto neste espaço infinito onde possa descansar e rir esse sorriso 
que seja assim a derimir a minha pouca crença
obrigada pelos seus ensinamentos querido amigo



quinta-feira, 13 de junho de 2019

dia de santo antónio


Quem me dera a mim saber
Mas não fui disso dotada
As quadras que quero fazer
Saem-se  sempre maradas

Ainda assim, dou um jeito
Peço ao santo por socorro
Que me faça rimar certo
Eu dou-lhe beijos e gozo.

Nos arraiais o que gosto
O que mais me arrelampeja
São os cheiros e os fumos
Muito mais do que a cerveja

Gosto também dos balões
Pendurados, redondinhos
Fazem-me “alembrar” melões
Fazem-me estalar os beicinhos

No arraial chupo os dedos
Como do pão bem pingado
Mais comeria se houvesse
Sardinha e “chórice” assado

Pronto, já fiz umas quantas
Já versejei, já fiz rimas
Agradeço ao Santo António
Estas minhas obras-primas

Obrigada ao meu Santinho
Hoje muito lha agradeço
Bebi água em vez de vinho
Estou fresca que nem um pêssego

Eu te estou agradecida
Disso como do resto
Prometes-me marido
E cá vou com o que me deste.

sábado, 25 de maio de 2019

porque ontem foi dia dos teus setenta


a minha oração mal engendrada


temos a sorte de
eu acho que temos mesmo a sorte de
aletaório como é este jogo da vida e da morte
imaginando que a vida é o maior dom
(imaginando, apenas, que eu lá sei)
temos a sorte, sim
fomos bafejados com o desígnio maior de sermos quase eternos
agradeceremos, se formos crentes
aos deuses
a um apenas
nós
os que atingimos o patamar de sermos já idosos
tão jovens que nos encontramos
a cabeça cheia de planos
nós
a queremos seguir para lá do muro
a sorte que temos de podermos olhar e ver o filme
os pormenores
saber como será se tentarmos
e ainda assim arriscando
temos a sorte, sim
fomos bafejados
poder acordar em mais uma manhã
e ver o sol
e sentir o odor do café que nem já bebemos
o odor das flores
o chilreio dos pássaros
as andorinhas que criam mais uma dose de filhos e nos cagam chão e paredes
e o mar
e a serra que fica azul apenas para se fazer mais desejada
temos a sorte, sim de os termos conhecido
tantos que ainda vamos encontrando


se eu rezasse a um deus que fosse
se eu acreditasse
tivesse eu uma fé qualquer na divindade
orava dia a dia, de manhã cedinho e também à noite
agradeceria esta dádiva que é estar vivo e poder disfrutar


obrigada a quem de direito
deus, ou anjo
ou que sejam as almas dos que amamos e se foram


domingo, 5 de maio de 2019

saudade



Sinto o cheiro a que cheirava após o banho
e é ela que ainda me ouve, se leio em voz alta o texto que não sai.
Ela que me segreda: “ não devias, filha”
e me sorri, solidária, quando me irritam pequeninas coisas.

É como se me tivesse ficado, aqui, num qualquer recanto.
Como se, nascida eu do seu ventre, ela a mim tenha retornado.
Ou será porque é eterna e eu,
sem que o saiba, creio na eternidade.

Eu que sempre lhe disse: “nunca irei por flores”
nem sabia o quanto era verdade.
Quando, inopinada,
rodo passos e entro, rua abaixo, no cemitério,
não são flores, não, o que lhe levo.
O que eu levo são os meus carregos, 
as minhas dúvidas, 
as minhas insidiosas certezas.
E eu que nem rezo ali fico, olhando
nem sei bem para onde, nem sei bem o quê,
enquanto, lá de fora, o vento traz a vida 
no rumor dos carros
num pássaro que por ali poisa.

Eu  carregada dessa falta dela que não me larga.
Essa saudade.
Essa vontade de a ter por perto cada vez mais intensa.

Que ela me ouvisse aquele pedaço,
imploro eu a céus que desconheço.
Não o pedaço de texto que escrevo e não sai, lesto,
mas o pedaço de mim que mais ninguém ouve.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

reminiscências

fiz o deseho apenas para relaxar, fazer um intervalo noutras actividades, ficar mais um pedaço de noite a ouvir a abençoada chuva
e, de repente, os riscos terminados sugeriam-me um escrito bem antigo que o Alian Morioz tão bem disse, mas a gravação não abre, infelizmente
aqui fica o texto a abrir na Samizdat, basta clicar no título a palhinha  
e o desenho

quarta-feira, 20 de março de 2019

cardamomo ou nem por isso


Não sei se o cardamomo alivia dores de alma, se as bagas mínimas que ejecta das suas duas meias conchas fariam um chá que acalmasse este meu desassossego. Talvez apenas alivie quem grite num desespero: "porra que me doem as cruzes" . Talvez.
Para o saber, teria que consultar os livros. 
Certo que poderia fazer uma busca na internet, mas isso é coisa para que raramente tendo, que eu prefiro tirar da prateleira a pasta mais farfalhuda que lá tenha, aquela onde sei ter deixado registo acerca de plantas e suas virtudes; tudo manuscrito, tudo naquela letrinha arredondada que eu então tinha, que até a letra se me tornou diferente com o passar dos anos; talvez encontre o recorte de um jornal que num sábado do século passado, informasse serventias dessa planta oriunda das índias, essa, e agora me recordo, que é um poderoso afrodisíaco.
Com ou sem cardamomo, terei que centrar-me, inteira, num cardume de objectos, tão unidos a mim como a carta  aos selos que a lacram, o meu corpo disposto a sentir o que nunca aprendeu a ter em conta: o peso e arredondo dum pisa papéis de vidro com ou sem a torre Eifel lá dentro, o áspero na madeira dum pião e o frio bicudo do pedacinho que irá rodopiar, primeiro em cima da carpete e depois, com jeito, na palma tremente da minha mão, haja, ou não, a ajuda de um chá de ervas, uma tisana, ou que eu mastigue cardamomo, o que me porá, ao menos, um hálito de anjo.
Eu a sentir o cocegar redondo do bico de um pião que nem existe senão na minha imaginação. Eu a tremelicar ao ritmo do seu rodar na palma da minha mão, eu que, como todos, presumo, não fui atenta, uma dia a seguir a todos os dias desta minha vida, aos pequenos gestos, aos pequenos objectos, ou que sejam eles imensos; desatenta do seu toque, do seu manusear; eles a encostarem-se-me, a executarem perante mim os seus trejeitos e eu alheia, ainda que a observá-los, ainda que a tocá-los; cada objecto a interagir como este meu corpo que estremece, o coração sobretudo, se o objecto ronca ou faz apito ou simplesmente é, como o pisa papéis, fresquinho e redondo e liso: tão lisos e suaves que são alguns objectos!
Tão suaves ao caírem no chão, e não é o caso, claro, do pisa papéis de vidro, nem do pião ao caírem num soalho, mas será, de qualquer um deles se embaterem no fofo de um édredon de penas; como será suave, ainda que jogado, o cair  dum lenço de seda seja onde seja que caia.
…e se o lenço de seda cair no fogo?!
E é para resposta a perguntas como esta, que eu duvido que haja cardamomo ou planta outra que me valha.
Mas vou conseguir, doa o que doa, que eu hei-de rememorar todos os sentires que tenho tido dos objectos mais díspares, e farei tão bem como se os tivesse em presença embora nem tendo deles mais do que a memória de como os tenho interagido.
Serei capaz de dizer, apenas com a fala do meu corpo: isto que tenho aqui na mão é uma agulha, uma tesoura, um prato, um alicate; e dizer de como é fofa a cama em que nem me deito; ou de como é alto o local do céu onde sobe o meu papagaio. 
Olhem, olhem que colorido!! exclamarei eu, apenas com os dizeres do corpo.
Olhem este redondo onde enrolo a guita que pego na mão esquerda, direi a fazer o gesto certo;  olhem como jogo o objecto pelo chão e o apanho, os dois dedos, o anelar e o do meio, afastados um do outro para que ele pule sobre a minha mão; olhem como rodopia, e como eu tenho cócegas e pisco os olhos dessa pura impressão!
Viram o meu pião?! serei eu de olhos esbugalhados, o pião a rodar apenas no meu imaginário, apenas no meu gesto que é, muito cá do fundo da minha alma, o grito que calo: viram este objecto que manuseio?!
Não viram coisíssima nenhuma e é esse o meu drama, o que me faz, até, num desespero, talvez numa esperança, apelar às propriedades milagrosas das plantas, lembrar-me, até, inopinada, do cardamomo.



sexta-feira, 15 de março de 2019

a tina


Diziam sempre como se fosse pedido ou reza; superstição que tivessem; e, se calhava dizerem-no num duo certeiro, riam silenciosas como tinham sido quase silenciosas as suas palavras. Aconteceu, hoje, elas dizendo, em uníssono: lá chegaremos, sem esforços de maior.
Duas mulheres descalças, como ela lhes pedira.
Duas mulheres que preparam cada uma seu jarro esguio e esmaltado.
Limpam-nos por fora e por dentro e irão, depois, enche-los de água.
Um ritual fatídico a cada segunda quinta-feira.
Enchem-nos com água tépida, até que transbordem.
Duas mulheres que sabem que ela já está na sala e tem a cobri-la um vestidinho de algodão, o corpo magro a ver-se-lhe no decote, nas cavas largas, na saia que lhe escorrega para o nível das virilhas, mal ela erguer um pé e a seguir o outro num vagar de rito.
Irá fazê-lo ao entrar na tina.
O mesmo vagar com que, depois, se irá ajoelhar, o vestidinho a desnudar-lhe o corpo muito mais do que a resguardá-lo.
As duas mulheres sabem e apressam-se a encher os jarros; e espreitam-na, a ela que fica uns instantes ajoelhada, o cabelo solto a ser sombra para o início das costas e pescoço, as mãos fincadas no rebordo da tina redonda.
As duas mulheres mal respiram a vê-la ir-se inclinando, a cabeça a descair-lhe sobre as omoplatas, o pescoço a dobrar-se-lhe num redondo tal como o resto do corpo.
Olham-lhe o corpo dobrado numa meia-lua a deixar salientes as cartilagens da laringe sob a pele tisnada e finíssima; a deixar apenas apercebidos os seios pequeninos na transparência da camisa.
As duas mulheres, que tinham criado o hábito de ficar a olhá-la, vinham, a cada segunda quinta-feira, num tão metódico cumprimento como era a ida que faziam à missa de domingo ou a confissão que não falhavam, quando chegava a Páscoa.
Entravam na sala apenas no momento exacto.
Uma sala enorme vazia de móveis e tapetes e espelhos; nada, a não ser o cortinado espesso que cobria a porta envidraçada que dava para marquise.
Entravam pouco depois de ela retirar, vagarosa, o roupão de flanela com que se cobria em dias de mais frio ou o outro de um tecido sedoso, se fazia canícula.
As duas mulheres sabem que ela chegou pela madrugada, e já acendeu, uma a uma, a miríade de velas que quase cobre o chão de ladrilhos; sabem que ela já foi buscar a tina de folha de Flandres e a colocou no meio da sala.
Uma tina onde o corpo dela cabe, perfeito, da ponta do dedo grande dos seus pés tamanho trinta e sete, ao finalzinho do osso redondo dos joelhos: o seu corpo magro ajoelhado no frio daquela lata, se é em estação de sol inclinado no firmamento, ou no fervente do metal aquecido de ficar exposto à luz que entra pela janela da marquise onde permanece pendurada de uma a outra segunda quinta-feira.
As duas mulheres sabem e aguardam.
Espreitam-na.
Vêem-na ajoelhada, as duas mãos agarrando a borda arredondada da tina num gesto intenso ainda que lasso, tal qual o seu corpo dobrado em meia-lua, os seios pequeninos a parecerem novelos que ela tivesse colocado sob a camisa apenas como enfeite, como brinquedo.
- Como desassossego - disse, um dia, uma das mulheres, e a outra assentiu sorrindo.
Ela dobrada na tina e era só então que as duas mulheres entravam, uma vinda da varanda e outra vinda da cozinha para que viessem, como ela dissera: entra cada uma de seu canto da sala.
E nenhuma das duas mulheres fazia um caminho linear, iam sim em zig-zagues curtinhos saltitando pelos intervalos das velas multicores.
Velas acesas rente aos ladrilhos, a cera que lhes escorria em lágrimas a lambuzar aquele chão já de si matizado de muitos tons de vermelho.
Algumas ateavam, por descuido, a ponta das túnicas singelas e longas, único aparato que cobria os corpos das duas mulheres.
Outras iam-se apagando dos salpicos de água, mas isso era só depois que as duas mulheres erguiam os jarros a deixar cair em jacto as águas tépidas com que os tinham enchido.
A água a cair sobre o corpo dela que se ia desdobrando, até que o líquido lhe caísse sobre o dorso esquálido, os jarros erguidos nas mãos das duas mulheres, e os cabelos dela a sombrearem-lhe o pescoço até que, com mãos rápidas, os afastasse; até que, com gestos languidos, mas precisos, os sacudisse, os dependurasse sobre o rosto, e a água, que sobejava em cada recipiente, escorresse num jacto estreito, quase doce, sobre o arco ossudo do pescoço e ela se fosse erguendo, erguendo, até ficar inteira, quase nua, encharcada no meio da tina, no meio da sala, e as duas mulheres saíssem, tão discretas como tinham entrado.




terça-feira, 12 de março de 2019

domingo, 10 de março de 2019

passos de palco


a gente pode enlouquecer de excesso
perder a razão por não saber o que fazer do que sobra
                                                                          e é tanto

do que fica por dizer depois de já ter dito
do que sobeja, aqui, e ali está faltando
do que escorre a pingar nas entrelinhas

séculos e mais séculos
gerações e outras gerações

tanta gente
tantos humores
tantos credos
tantas manhãs enevoadas e noites de lua cheia
tantos filhos e criados e namoros
e vestidos franzidos
e saias de riscas e casacos de quadrados
e cadelas cobertas por cães vadios
e gatas parindo
e a gente a gritar por socorro em caves escuras

tantos pesadelos mantidos em segredo
poços e guerras e camiões caídos
e gado
tanto gado morto
e vento
e tanto mar bramindo

a gente a seguir a linha do tempo
a gente a perceber esse ir passando de um a outro até ao mister de sermos, hoje, como nos vemos
apegados às coisas ou descuidados
tão loiros ou tão tisnados…
ou tão detestando alface…

podemos, sim, ensandecer de excesso
a qualquer instante,
em qualquer idade

como se a gente estivesse sempre a pisar um palco e cada tábua rangesse, muito baixo, a dardejar do que somos e é muito mais do que o passo que damos a querermos que seja elegante e leve…


sexta-feira, 1 de março de 2019

narcisos e outras flores


Chegamos hoje ao terceiro mês do ano.
Aí está a Primavera a anunciar-se em narcisos e outras flores e, ao menos por aqui, tem sido um inverno xoxo.
Não é de falta de frio que me queixo, mas uma chuva a sério tinha calhado.
Uma chuva que se visse. 
Um dia e outro e mais outro, as valetas escorrendo, as goteiras a pingarem que nem lágrimas de viúva e, nas vidraças das janelas, correrias de linhas de água a fazerem os sonhos das crianças: cobras transparentes, colares de alguma princesa...
- Rios de áfrica! - pensarias tu que lá estiveste
Uma chuva que caísse dias seguidos, mas que, no ent(ret)anto, lá pelo final de tarde, desse lugar a um sol doirando nuvens que fizessem tréguas, sossegadas da função de se abrirem em água.
Tardes de ter escampado. 
Haveríamos de aplicar o termo nesses dias de chuvada como era antigamente e, nas ruas, os guarda-chuva encalhariam uns nos outros: pedaços de pagodes chineses multicores deambulando, e os corpos agradecidos por não ficarem molhados até aos ossos.
Coisas que só acontecem em dias de invernos como deve.
Coisas que esquecemos com invernos defeituosos como está sendo este.
É que, não fosse o friozinho que se deu, e nem apreciaríamos a Primavera a rebentar em narcisos e mais flores...
E, ainda assim, foi um frio que se aconteceu quase só pelas noites que, pela hora do meio-dia, o sol fervia-nos no corpo, mesmo nos dias curtos, mesmo nos dias de raios de luz tão rasos que se diriam projectar-se na horizontal.
Já é hoje dia um de Março, o Carnaval por todo o lado, e nem um lamaçal. 
Nenhum pedaço de terreno onde enlamear umas botas ou onde as rodas do carro fizessem patinado.
Como hão-de crescer estas crianças sem saber o que é chegar a casa coberto de lama?!
O que é um inverno sem poder  dizer, o guarda-chuva na mão, dobrado, sem qualquer préstimo: acabei de apanhar uma casaca de água.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

a casa


A pobreza é como doença que trazemos no sangue, nunca sara.
Assim pensa e assim o diz, se julga oportuno, ela que nasceu naquela casa de tijolo em cima de tijolo e nem mais do que argamassa a juntá-los: bocados endurecidos a escorrerem no avermelhado, a mostrarem-se como se fosse arte; um desconjuntado sem reboco e, menos ainda, sem pintura.
A casa tinha uma janelinha que deitava sobre os dois pés de couve que havia no quadradinho ganho ao socalco e a que ela chamava, orgulhosa: o meu quintal.
Lá do alto, assomavam, indiscretas e altivas, as marquises dos números ímpares dos prédios que ladeavam a rua que tinham traçado os engenheiros da Câmara, depois de mandarem derrubar a casa da Matilde e a casa da Aldegundes e umas tantas outras que desciam, como a dela, pela ravina a semelhar que se estatelavam lá em baixo onde corria o rio.
Perigosamente, disseram as senhoras da Segurança Social numa das conversas a convencê-la a mudar-se, e ela que nem pensar sair dali.
Estava já só com a menina, os pais mortos, um e outro; e, sem deixar que sequer a adivinhassem, que isto nunca se sabe, dizia, de si para consigo, a olhar os prédios que subiam, desmesurados, céu adentro: nem morta, eu deixo o meu quintal para ir morar numa daqueles gaiolas.
Ela que nascera paupérrima naquela mesma casa onde a única janela mal alumiava a sala de fora.
Uma salinha de fora e o quartinho da menina - dizia a descrever a moradia como ufana lhe chamava.
E explicava, com um sorriso de dentes a precisarem de conserto, mas os da Caixa nunca mais se resolviam: eu durmo onde calha que marido nunca tive.
Nessa janelinha, pendurara uma cortina.
Um tecido fininho e liso num branco encardido que lavava muito de vez em quando; porque a água é uma carestia - dizia; e trazia da cisterna baldes a entornarem, a última chuva a dar para os gastos das casas que ainda resistiam ao realojamento, ribanceira abaixo, e o rio a deslizar sereno, até ao dia em que a chuva foi demais e foram de roldão as casas de tijolo em cima de tijolo e nem caiadas, e foram por ali abaixo os dois pés de couve e, disseram nos noticiários, foi uma sorte que tivessem ficado incólumes, escorados no muro de suporte, os prédios da rua de cima - as gaiolas, como ela lhes chamava.
O morro deslizou como papa em direcção ao rio, era o cabeçalho dum jornal que leu na mão de alguém, e ela mesma apareceu na televisão a explicar como se tinha salvo.
Contou-lhes que tinha decidido não esperar mais, e que, embora já chovesse a cântaros e fosse tão longe, tinha ido, a menina a seu lado num banco e outro de três autocarros. Tinha ido ver se lhe arranjavam os dentes como lhe tinham prometido na consulta da Caixa.
E, ainda com a câmara dirigida para ela e a repórter a sorrir-lhe, foi dizendo, com mais altivez do que lamento, o morro lamacento a servir-lhe de cenário: a pobreza é como doença que trazemos no sangue, nunca sara, sabe? mas na transmissão cortaram esse pedaço, viu ela, à noite, no Centro onde a alojaram, a ela e à menina: até lhe darem uma casa - tinham-lhe dito.
Uns meses passados, meses demasiados, foi a cerimónia de entrega da chave de uma casa num local onde se enovelam autovias, e nem quintal nem o rio rumorejando. Nem sequer uma marquise.
Apareceu sorrindo nos ecrãs do país inteiro, enquanto metia a chave na fechadura da sua casa nova. Sorrindo e a afirmar com a firmeza humilde que é, tinha já percebido, o tom dos que nada têm: a pobreza é como doença que trazemos no sangue, nunca sara. 



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

vermelhos de matisse


Sentava-se de cócoras.
Sentava-se e sentia o corpo todo. 
O corpo dela apoiado sobre o baixo-ventre: quente. Tão quente que era o seu corpo quando se sentava de cócoras a ver desfazer o bicho.
Lembra-se disso e lembra-se do cheiro que, esse, nunca o esqueceu. Que ela, a bem dizer, nem sequer o lembra, antes esse odor lhe está entranhado como coisa que lhe existe, coisa sua, como lhe é o nariz adunco e o cabelo muito liso da cor das barbas do milho.
Um odor estranho. 
Um cheiro que lhe surge, intenso e apenas seu.
- Sentes o cheiro? - deixou de perguntar aos que a rodeiam.
Aprendeu que só ela sente esse odor que lhe surge associado ao tom de vermelho, seja vestido, echarpe, sapato ou brincos, como aqueles que o pai lhe ofereceu no dia em que fez o exame.
Um odor intenso, nauseabundo e encharcante que lhe enche as narinas sempre que olha o sol a poisar no horizonte e a fez vomitar quando se picou na agulha na aula de lavoures.
Hoje, ainda almareia frente a uma obra de arte.
Um quadro com vermelhos, e vem-lhe aquele odor, misto de recordação carinhosa de uma infância dolente e o asco que sempre disfarçou a ver desfazer cabras de mato e coelhos e porcos. O sol vermelho de Miró nem tanto, mas agoniam-na alguns raros rubros de Vincent van Gogh e muito em particular as tonalidades que lhe confere Matisse na sua harmonia em vermelho.






segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

volta ao berço

está decidido
o FB não me serve
as redes sociais dão-me em stress
não tenho jeito (e nem pachorra) para ver, ouvir e ser delicada
engulo muita merda desnecessária
chega!!
vou lincar para lá o que me apetecer, mas faço daqui para lá e não o inverso
agora vão aqui ficar alguns dos textos que escrevi ultimamente e depois volto ao directo do blog



era o tempo em que o coração nos chegava aos lábios
e um espirro
uma tosse
um ah! de espanto
um pequeno grito 
e lá se nos ia o coração, voando
ficava-nos no peito o eco do seu palpitar
dia e noite esse tum tum tum sem jeito
e o coração da gente sabe-se lá por onde
era um tempo de desassossegos, esse
um tempo de paixões

Foi no dia 24 de há dez anos e eu dizia no post do convite colocado no meu Blog: um sonho dela feito nosso:T.C.Alves nas ilustrações, M. Correia nos textos; prefaciado pelo Jorge Castro
Ficam fotos do evento e a saudade
Abraços AmadeuMaria Helena e Jorge
Abraço ao Cristiano Cerol (mostras-lhe Ana? obrigada)



faz tempos, escrevi sobre a problemática dos meninos abandonados na Roda
sobre essas mulheres que lá os deixavam pela calada da noite, mães, amas, vizinhas...tantas...

outros tempos, outras misérias, outras ignorâncias

hoje que temos a pílula
anticoncepcionais vários
mulheres escolarizadas
segurança social
centros de saude com valências para mulheres grávidas
temos até uma lei de aborto...
hoje
os mesmos meninos indefesos
as mesmas mulheres...
que traves mestras falham ?
que ignorâncias?
que medos?
que desleixos?
que país é este onde aquelas irmãs esfaquearam à morte o ainda quase feto, onde acontece uma violência adentro portas que já matou quase uma dezena de mulheres neste primeiro mês de 2019 e pelo menos uma criança...
que perguntas deveria eu fazer e desconheço?!
que mulheres e que homens nos crescem lado a lado e não os vemos?
em que bancos de escola?
em que bairros?
em que consultórios (não) os ouvimos, (não) lhes falamos?
para que raio, então, evoluimos?
para que raio, então, fazemos abris e igrejas redentoras?
é pouco acreditar no Homem Novo...
olhei em volta e dei por mim a pensar que nunca irei gastar estes lápis de cor e nem os de grafite...
irão cá ficar depois de mim...
irão durar nas mãos, quiçá, de alguma bisneta que se chame Lurdes...
alguém lhe irá dizer, num incentivo: "a tua bisavó paterna desenhava"
que eu irei ter uma bisneta que seja menina, os deuses ir-me-ão bafejar com essa dávida e será loirinha e de olhos verdes... 
hão-de dizer-lhe: "até no feitio és tal e qual a tua bisavó, caramba!" e acrescentarão, espero, para que a menina não se entristeça: "mas lá no fundo, no fundo, era boa criatura"...
uma menina que será, quem o sabe, Mariana, e terá olhos castanhos e cabelos de azeviche...
também fará desenhos...
desenharão, uma e outra, com estes lápis que se multiplicam aqui de onde os olho...
verdes uns, outros laranja e variados em tons de azul
também os há castanhos
alguns rombos...
terão pertencido aos meus filhos, no tempo, ainda, em que era uso oferecerem-nos, pelo Natal ou pelos anos: meia dúzia de lápis de cor numa caixinha vistosa, e que contentes ficavam as crianças
depois, vieram as cassetes e os aipódes...
hoje, quem se lembra, quem se atreve, a ofertar lápis de cor...
com estes que dão o mote a semelhante relambório, escreverão, assim o desejo, uma Lurdes e uma Mariana..
talvez um Daniel que venha, depois, e seja primo delas...
será que era tudo muito mais simples se o planeta fosse plano
e vogasse, balouçando como berço, enquando o sol rodava em torno dele?!
é que, eu que fui educada segundo as leis copernicianas, temo que o sol um dia destes almareie e ande saltitando de uma excentricidade a outra...
é tal o meu desespero que me dou ao luxo de imaginar tudo
que eu não me habituo com este estar já a mais de meio do segundo mês do ano, e não ter ainda digerido, em condições, o bolo rei
posso-me lá habituar a este concomitar das festividades?!
é que ainda tenho o sabor na boca da fruta cristalizada, e já apanho, dia e noite, com propostas para o dia dos namorados, o Carnaval e as almejadas férias da Páscoa...
andará o nosso planetra a girar mais depressa do que é costume em torno do astro-rei?!
a girar loucamente sobre o seu eixo?!
ou será que esta sensação do tempo a correr que nem um danado é uma característica do envelhecimento a que terei que me ir habituando?!
terei eu que aceitar que isto de trinta dias, doze meses, uma década, foi chão que já deu uvas e que, de agora em diante, é tudo ao molhe: horas, meses, dias, anos...um minuto ou o famigerado cagagésimo, tudo de roldão sem grande preceito, sem nada a ver com os intervalos de tempo que eram o meu desespero: duravam e duravam e nunca mais chegava o verão ou o fim de semana...menos ainda as férias...
ou será que o raio do planeta entrou em concorrência com a restante populaça do universo que, dizem os entendidos, há muito anda numa corrida desenfreada para o vermelho?!
o meu receio, e nisso imploro a protecção dos deuses, é que eu um dia destes, na ânsia de me regular com este andar do tempo, me ponha a jeito e seja disparada na primeira tangente

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein