Domingo, 12 de Julho de 2009

o verbo

Confrange-me.
Aperta-se-me uma zona de mim que nem localizo.
Diria, se não fosse corriqueiro, e eu soubesse dela, que me dói a alma.
Mas retiro.
Digo antes que me dói um local de mim que se indefine.
Nem é zona do corpo, mas se sente como se eu fosse nadando em profundidade – o meu peso aliviado por via da impulsão e a pressão martirizando as partes finas como o tímpano e o hímen se ainda existisse.
O que me provoca este incómodo é um ror de coisas como dou de exemplo as que escrevo abaixo.
Mas agora terei que ir tratar do peixe: tirá-lo do gelo, colocá-lo em caixa onde fique com um aspergir de flor de sal, até que venha a hora do almoço.
Eu volto. Virei para descrever este meu sentimento, pois que é disso que se trata quando digo:
Confrange-me.
Um sentimento que nem é estranheza e nem medo, que me inunda se vejo no jornal corpos pejados de metais e recobertos de desenhos, tal qual o corpo fosse uma tela de expor. Uma coisa de tirar e colocar de novo, a pele da gente.
E dá-me esse sentimento se oiço a mãe, a própria, burguesa ou não, que interessa se ela é ou não da classe média: uma mãe sentada no restaurante ou no poial de vão de escada, conversando, lastimando da vida ou constatando apenas:
- O meu filho, depila o corpo todo. Dezoito anos de pelos negros, que as namoradas e amigas dizem: metes nojo com tanto pelo espalhado pelo corpo.
É confranger, sim, o verbo certo.
Mas eu boquiaberto e esbugalho os olhos por muito pouco. Dizem isso de mim. Todos.
É ao abrir o jornal, mais do que a televisão, que aí nem tenho tempo para ter sentimento, que é tudo rápido e, se me descuido, estou imiscuída nas cenas como se fosse um deles. A Televisão é o maior castrante da mente. Invenção do demo que o homem utiliza como se fosse ele: o mafarrico matando o poder maior que nos foi dado: o pensamento. Dela eu me confranjo, e muito.
Abro pois o jornal, quase um metro entre um braço e outro, e estico ainda mais para que veja bem cada cabeçalho e mais as caixas de letras muito miúdas.
Eu a ler e a crescer-me o sentimento de estar a mais por este mundo.
Peça solta da engrenagem.
Parafuso perdido.
Molinha que nem entra mais no sítio.
Eu a tentar respirar num mar profundo e este peso imenso sobre o peito. Eu sem ar que me valha, eu dizendo:
É confrangedor que haja disto, assim, pelo meu mundo.
E fecho os olhos para não sentir o sal que adensa no mar aonde me escorrego, aprisionada por laterais, traseira e frente, eu a tentar não ouvir as vozes anunciando mais um ror de marcas, e aquele gel para o cabelo e o novíssimo telemóvel com outras, mais, funções. E muitos DVD's. E no hipermercado, num dos muitos que há em cada pequenina cidade, entra mais uma encomenda de frango: frangos fresquinhos, acabadinhos de vir do aviário onde se criam como se fossem acessórios para máquina. Frangos e perus e coelhos: também perdizes e patinhos. Animais criados em série para alimentar o mundo. E tomates e tudo o mais para sopas e saladas, que nem é já esperada a chuva que regue, ou que venha seca: crescem envidraçados com a temperatura que simule a época.
E a minha traqueia e os mais pequenos alvéolos rebentarão se continuo a pensar deste modo de cada vez que leio o cabeçalho, se deixo que ele me diga mais do que simplesmente está escrito: a notícia do que aconteceu, sem análises que não sejam as bastantes. Assalto, atentado homicida, estupro, assassínio, desastre, guerra, guerra, apoio a mutilados, conferência contra a fome, conferência pela paz. Refugiados. Campos deles. Mais um comissário a visitar o terreno. Cultivo de papoilas em larga escala. Passador de droga preso numa rua de Lisboa. Uma fila de desempregados aguardando que os chamem. Para obra, para trolha, para caregar uns sacos:
- Tu e tu e tu.
Ficam os outros aguardando, o coração aos pulos e a barriga a encolher-se. Um deles tem uma pistola.
No jornal da tarde posso ser eu a vítima do assalto.
E as fotos. Os jornais são profusos. Ângulos dignos de uma exposição:
Um matadouro de reses. Na página seguinte, a foto ensanguentada de um homem estuporado por torturadores. Sangue igual de um lado e do outro.
Amanhã ouvir-me-ás pedir, no talho:
- Pese-me dois quilos de rosbife, Senhor Sousa
Sousa que, descobrirei um destes dias, é dealer, que o negócio da carne não sustenta a estadia dos filhos na universidade e é absolutamente necessário que os filhos estudem para doutores, dizem também as páginas dos jornais que o Fernandinho cortou os pulsos por não ter a nota para entrar. E eu a pensar que aquela criatura com um dois vírgula oito a matemática dava um excelente bailarino.
Confrange-me.
Não sei se será o verbo mais correcto.
Estou em crer que é fraco.
Talvez se eu disser apenas:
- Dói-me a alma.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

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Domingo, 5 de Julho de 2009

rosa-malva


Marta Menezes entra na loja e pede:
- Por favor, gostava de ver cuecas cor-de-rosa.
A empregada esboça um aceno de cabeça e mira de soslaio a mulher que acaba de entrar.
Que número vestirá este cu? É a questão que soa na cabeça da rapariga, a medir os transversais da cliente e a buscar nas prateleiras os tamanhos grandes na referência de cor solicitada. Meia dúzia de caixinhas com papel de seda resmalhando em cima do balcão de acrílico, que semelha como se fora assente nas perninhas cambadas, cobertas de sardas, que são as pernas da empregada: vinte anos completos e uma carinha de anjo muito insonsa. Marta Menezes nem a olha, distraída na intenção da compra.
A empregada perfilada, direita, nem uma borda de roupa encostada ao balcão, do lado onde estão as prateleiras e um espelho.
A empregada, a pensar, porventura, se choverá ao fim da tarde. Ou mais pensará ela no rabo de Marta Menezes: ela a dizer das referências de cada peça, a gabar-lhes o material, a dimensão e a forma, e a pensar em colocar-lhe uma mão, mexer naquele rabo de mulher trintona: Ou terá mais? Talvez ande pelos quarenta, mas está bem conservada. E que rabo, raio!
E Marta Menezes remirando as calcinhas em tecidos acetinados ou algodões, não menos vaporosos e transparentes. Estica-as segundo a transversal. Coloca-as em frente da barriga. Encosta-as ao blusão de cabedal avermelhado vestido, displicente, sobre calças de ganga.
Marta Menezes sorri de imaginar-se a tirá-las, mais logo, sob a cara espantada do Ministro. Não que lhe dissesse muito: apenas decidira que lhe faria uma surpresa em final de mandato. Marta Menezes sorri-se, olhando uma calcinha bordada apenas no traseiro.
Sorri-se também a empregada, despercebida, no entanto, de razões. Corta-se o peso, mas não o silêncio que reina no espaço de venda de roupa interior feminina. Marta Menezes remira e volta, sem que a empregada veja nela decisão de usar o vestiário, ir para detrás do cortinado. A empregada bem que aventou, de início:
- Pode experimentar no gabinete …
Mas o tom delicado e o preceito empregue, não mereceu mais que um olhar indiferente caído na cara magricela da caixeira, que disse, muito baixo:
-…só queria ajudar…
E calou-se.
Marta Menezes não experimenta roupa de se fixar no pelo: conhece por demais o que lhe serve. Pede que embrulhe dois pares, ambos acetinados, ambos de tom rosa malva e bordados. Num deles, há um coração em tom mais escuro, mesmo sobre o pequeno triângulo que cobrirá o traseiro. A outra calcinha está salpicada de florinhas amarelas. Qualquer das peças é um trabalho digno de ser apreciado. Coisa de design.
- Peças únicas.
A empregada a fazer o embrulho e a acrescentar:
- Vai muito bem servida, que é bordado feito à mão.
A dizer assim e a olhar Marta Menezes com olhos de carneiro mal morto. A fazer o troco e a sorrir, muito profissional:
- Volte sempre, minha senhora. Espero voltar a vê-la.
Uma vozinha melada, que faz Marta Menezes repará-la.
Um desaforo se não estivesse habituada, se não fosse peça do seu jogo. Mas hoje, não seria qualquer lambisgóia a.entreter-lhe a noite. Hoje, Marta Menezes guardara-se para a surpresa que faria ao Senhor Ministro, dolente e morno, assim que acabasse o expediente.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Maria Luisa

Dobrei-me sobre o muro baixo e mirei o regato transparente que corria a par do caminho que passava ao lado da casa.
Debrucei-me a ver se era verdade que se me via o rosto rubro depois que ficava a olhar a janela do outro lado: uma janela com portadas de ripinhas horizontais, pintadas num tom quase encarnado. E digo quase pois para mim, a esse tempo, encarnado era o sangue que jorrava de cada um dos meus joelhos quando tropeçava e caía, quase sempre correndo ou a roçar as pedras de um valado onde buscava um qualquer tesouro. Vermelho seria mais a cor que Laura me dizia que eu tinha o rosto, e o pescoço e as orelhas, quando uma das janelas se abria de em par, ou que fosse uma nesga. Assim que se iniciava o movimento da portada, eu ficava quedo e subia-me ao rosto todo o sangue do corpo. Era como, rindo muito, me descrevia Laura.
- Ficas tão vermelho quando ela aparece...
Laura dizia isso e acrescentava numa sinceridade sem cerimónias: aquela parva.
Nesse dia nem fora porque Laura estivesse comigo sentada no banco caiado que havia ao lado do poço. Nem seria preciso, que eu bem senti invadir-me aquele sufoco na garganta, aquele aperto na barriga e no peito, e o rubor, esse dito vermelho que eu buscava ver na água transparente que corria àquela hora na valeta, ao ladinho do muro, água que vinha do regar das hortaliças.
O que eu vi espelhado, dois palmos abaixo da cara que dependurei no muro, mal preso pelas duas mãos no rebordo arredondado, o que eu vi, foram dois olhos a olhar-me espantados e uma melena muito loira que sombreava todo o rosto: nem vermelho e nem sequer um ar que traduzisse aquele sentir o sangue a latejar nas fontes e uns piquinhos remexendo-se como se eu tivesse uma miríade de duendes a saltitar das pernas para o pescoço e deste para as zonas mais ignotas e esquecidas do meu corpo. Saltei daquela posição de desconforto e fiquei olhando a casa onde ela espreitara, como se fora aparição sagrada, que eu ouvia a criada Emília dizer que se são mortas ainda anjinhos, aparecem a pedir que não as chorem, que as deixem descansar na paz do outro mundo.
Eu olhava a casa de janelas vermelhas e corava, pois nem era ela morta, pequenina, nem aparecia por outra razão que não fosse provocar-me. E Laura, minha mana do meio, que dos cinco eu era o mais novito e único menino, Laura gostava de brincar com aquele sentimento gorduroso que era eu estar apaixonado pela menina da casa da frente e nem lhe saber o nome e corar tanto que alastrava pelo pescoço, mal ela mostrava a ponta do cabelo ou o folho bordado de um bibe.
Eu tinha seis anos, ou seria sete, e era fim de um Verão em casa dos avós.

Daqui a pouco, oiço que será dentro de meia hora, será rezada missa de corpo presente.
Chamava-se Maria Luísa e morreu ontem, de velhice, solteira, aos noventa e dois anos.
- Nem deu trabalho – diz o pessoal que trabalha na casa.
E eu, que tive um ror de filhos e várias mulheres e andei pelo quatro cantos, estranho que nem dobrem a finados, que se mantenha mudo o sino da Igreja e fico a olhar as janelas ainda pintadas de vermelho e lembro o regato que já nem corre, o fio de água transparente onde tentei ver o corar que era suposto cobrir a minha pele.

Sábado, 20 de Junho de 2009

cacho de uvas

Desce a rua e leva na mão um cacho de uvas. Um cacho de uvas de bagos redondos, num saquinho transparente de papel celofane: esse papel que soa quando lhe mexemos. Um papel que chora ou ri. Um papel que não fica indiferente quando embrulhamos nele o que quer que seja. Daniel leva o cachinho rua abaixo, nesta manhã de Outubro, e segura-o com muito jeito, para que não se esmague. Quem o olhe, há-de ver-lhe um sorriso pendurado no canto dos lábios e uma tristeza doce nos olhos azuis.
Daniel a subir os vinte e tal degraus que dão acesso à porta de entrada do Hospital Distrital. Leva o passo de quem já fez aquela subida muitas vezes, mas nem por isso o seu subir é descuidado. Tem o ar de quem aguarda, de quem espera que lhe digam alguma novidade. Sobe, nem muito devagar nem depressa demais: um degrau de cada vez. Deposita cada pé na largura inteira do granito e descansa o corpo antes que erga o pé seguinte: um degrau acima, cada vez mais perto dela, deitada há um ror de dias na cama lisa, esticada, que sempre lhe parece um caixão forrado onde a verá um dia, mas não recorda, nem sabe que já foi. Olha-a: ela nem sequer recostada, enrolada em ligaduras, muda, os dois olhos, que assim ainda parecem maiores, espreitando, sorrindo ao que ele lhe leva cada dia: ontem foram morangos e hoje leva-lhe um cachinho de uvas moscatel de que ela gosta tanto. Embrulhadas no papel celofano que resmalha de cada vez que move o braço: como se chorasse, como ele vai chorando a subir cada degrau, a passar os dois batentes envidraçados, a subir mais a meia dúzia de degraus até à enfermaria. Outra vez. Já lá vão dois meses. Em cada dia alguém dizendo: Senhor Antunes, que é esse o nome dele, não volte que ela hoje não o recebe. E ele sorri com uns olhos muito tristes, a balançar de leve o cabelo que lhe cai na testa, como se num cumprimento. E sobe mais um degrau até à porta onde está escrito: unidade de queimados, serviço de urgência. Hoje traz-lhe uvas. Coloca o embrulhinho ao lado da cama número dois. Nem diz uma palavra. E sai. Quem o olhar, como faz a enfermeira que já o conhece, pode ver que ele chora uma lágrima grossa e mais outra: um cacho de lágrimas que hoje lhe saem em soluço.
Daniel Antunes, trinta e quatro anos, a visitar a namorada queimada no desastre que tiveram de carro. Daniel que não ouviu quando lhe disseram: lamentamos muito. Nunca ouviu dizerem-lhe. Vem vê-la cada dia. Ver-lhe os olhos que sorriem por baixo de tantas ligaduras e trazer-lhe um presente de fruta.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

reuniões de avaliação

Era obrigada a estar inteira. Observavam-na. Solicitavam que dissesse. Esperavam que pensasse sobre o caso, que depois opinasse. Exigiam que escrevesse entre margens, que assinalasse naquele preciso canto antes do picotado. Pediam-lhe que não risse ou ao menos que o fizesse pouco e baixo. Ela pela metade ou nem isso. Ela a sentar-se e quanto mais o tempo escorria, mais ficava dela uma ínfima parcela: um terço, um quinto, apenas uma nesga dela que ouvisse dizer o importante: que terminara a coisa que a levara a estar ali sentada. Uma hora. Hora e meia. Papéis e desenhos. Ela discorria sobre o mundo: pensava no canário que piara de noite, na tartaruga. Pensava nos meninos sem pão e sem peúgas, sem colchão e sem manta. Pensava na fome que nunca lhe dava, mas que havia. E eles a dizerem: a tua nota para esta aluna… A dizerem sem pensarem em mais nada que na consecução da Irene a cada disciplina. Oito, dizias tu com a alma chorando e prometias que assim que pudesses mudavas este estado de coisas ou saías disto. E explicavas que ela fizera muitos progressos, que se esforçara muito, que era uma menina muito sensata e inteligente, mas… E deixavas de ouvir-te como não ouvias quase nada nessas reuniões. E nem nenhum deles ouvia o que quer que fosse a não ser que se derramasse tinta sobre um daqueles lençóis onde se podiam ler uma correnteza de números à frente de cada um dos nomes: Sílvia Maria Azevedo Dutra 12, 14, 14, 13, 12, 7, 14,18. Um perfil em que destoava o sete a matemática. Uma menina riscada do universo dos muito inteligentes. Ou a Irene Carreiro, apenas este o nome, que ela não sabia ao certo quem seria o pai, se aquele com quem a mãe vivia há coisa de um ano, se o que era progenitor do irmão mais velho, aquele irmão que morrera num acidente. A seguir ao seu nome, estava escrito o perfil de notas de que se salientava o doze por ser o único com dois algarismos. Doze a educação física, a única disciplina que ela adora, como dizia, roufenha e babosa, a directora de turma: apesar de ser gorda… ela gosta muito desta disciplina… E deixava no ar um perfume a creme dental de marca estranha: o meu marido é estomatologista doutorado em Roma. Palavras dela na sala de professores. Repetidas.
Tu não ouvias.
Não ouvias nem uns e nem os outros, ou ouvias todos de muito longe, como se estivesses num outro planeta em edição on-line.
Reuniões. E ela muito quieta, muito com ar de atenta, muito a nunca saber bem se seria aquela a nota…

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

eu sinto-me em casa




Eu sinto-me como se fosse em casa
nos cheiros de lenha espraiando-se pelas noites
e nos cheiros de menina que eram cheiros de borracha e tinta
No deslizar sonâmbulo de um comboio
e eu a derramar olhares na paisagem

No poial de casa em tardes mornas de estio
o queixo apoiado nas mãos e os cotovelos a furar joelhos
Na sombra de uma árvore com o sol a pino
e eu num sonho lindo de um dormir pasmado


Eu sinto-me em casa quando me afagam o cabelo
ou naquele abraço a derrubar o muro da distância
Eu estou em casa na amena cavaqueira com a amiga
horas e mais horas derramadas de vida



Eu estou quase sempre a sentir-me em casa

Mas onde eu estou como se estivesse
e nem é semelhante, nem durável
ah! mas como me sinto em casa nesses momentos
nesses espaçados instantes em que abraço vida e morte
nesse planar-me eu em alma e corpo para a casa onde moro
Eu nadando num calmo mar transparente
ou apanhando a onda na espuma soluçante de um sueste

E eu estou como se fosse o local mais certo
o local de eu dizer este é o meu lar
quando me banho na água de um rio
as flores multicores do loendro nas margens, acenando


(Há um local que será a casa que eu não tive
a casa que me ficou espraiada em tanto caminho saltitado.
Há um local onde eu sei que me sentirei em casa.
O sítio que construo dia a dia, pedra a pedra,
terá varandas e portas e janelas
a desaguar cada uma sobre o nada,
algures no Universo.

Mas é ainda incerto
Por isso é que não conto desse sítio)



Sábado, 13 de Junho de 2009

Morte

A morte, todas as mortes,
é como a vida, todas as vidas,
obra da criação.
Morrer é, em todas as circunstâncias,
como a vida,
despida de circunstâncias,
um acto belo de amor.
Na roda eterna da vida
quando alguém
atravessa a ponte
para a outra margem,
é vida que a outro
nesta se dá.
A quantos milhões de seres
devo minha vida...
A quantos a minha
vida dará...
Chorar a morte
é chorar a vida
que em si
não se deixou viver.
Morrer por amar
é abraçar a beleza da vida.
Pode partir o ser,
que eterno será sempre
o amor.

poema que ela escreveu um dia, ainda a vida lhe era e ela já sabia que este dia chegaria
obrigada

Sábado, 6 de Junho de 2009

Doutora Piedade

A Doutora Piedade tinha umas pernas enormes e firmes e calçava sandálias de tirinhas nuns pés com unhas encarnadas. As pernas dela viam-se na transparência dos tecidos leves que eram os seus vestidos; ou quando as cruzava e descruzava nas saias muito justas que ela usava mais de um palmo acima dos joelhos.
A Doutora Piedade tinha decotes, que nunca eram decotes em redondo, mas faziam um bico, o que dava um ar solto ao seio, duas mamas enormes aconchegadas em sedas e algodões ou um fio de linha em tricotado fino. Lembro-me em especial do vestido azul. Ela usava-o com uma camélia branca que tapava e destapava o rego das maminhas onde brilhava sempre um suado, um leve brilho de água escorrendo nas tardes sufocantes. Um fiozinho que se evaporaria na barriga que ela tinha um nadinha redonda entre os ossos da bacia mal cobertos de carnes. Era o que eu pensava e nunca disse, nem ao Júlio, o meu melhor amigo. Um fio de água que se evaporaria como a chuva ao cair no empedrado do pátio do recreio.
Éramos muitos na turma A do quarto ano de um liceu perdido nos confins de um país enorme. Muitos rapazes a disputarem o melhor ângulo de observação nas tardes de quarta em que havia desenho. Mas, ao que sei, só eu e o meu amigo Júlio usavamos ardis e malabarismos de primoroso engenho para sentir, que fosse apenas no rebordo da mão, o anafado que era o rabo da nossa professora. O mesmo rabo que versejámos num soneto. Um ror de versos de métrica estudada, que vimos rasgar, letra atrás de letra, e só não nos deu outros castigos por via do sorriso malandro que o padre, nosso professor de português, deixou escapar ao passar os olhos míopes pela ode que lhe apresentamos no trabalho de casa.
Que bem merecia que o cantassem, o rabo da Doutora Piedade.
Um pedaço de carne onde um deus, quiçá manobra de um afago, fizera um traço bem a meio, tal qual faz o padeiro em massa de pão que vá a levedar. Um toque leve, arredondado, a separar em dois, a dar aquele efeito de não existente, um vazio discreto quando ela se movia a apagar o quadro. Um rabo levemente empinado, saliente o quanto baste para que se movesse, compassado, quando ela nos ensinava a inscrever num círculo a forma geométrica de um polígono. Ela a andar de lá para cá sobre o estrado e o rabo num vaivém, que eu bem recordo o ondular do azul sedoso do vestido.
A Doutora Piedade, nossa professora de desenho, numa cidade que fugiu do mapa ou se terá perdido por ser num país tão grande e tão distante.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

20 anos depois de...50 depois de... porquê? para quê?







Domingo, 31 de Maio de 2009

confissão

- Senhor padre…
Emília persignou-se e prosseguiu:
- eu pequei…
E fez um silêncio como se fora para dar intensidade ao que dirá depois. Não que assim pensasse, que Emília nem sabia o que e como diria o seu pecado. E ia tossicando. E deslocava o apoio do corpo de um joelho a outro. Chegavam-lhe cheiros pesados a tabaco e a estômago que estivesse a digerir o almoço. Emília prosseguiu, hesitante:
- Eu nem o conhecia, senhor padre…
E engoliu saliva demasiada como se estivesse travando a palavra, dando tempo.
Do interior do receptáculo, um som cavo. Era a voz do padre:
- Continue, minha filha, continue…
E Emília, embasbacada daquele tom de pressa que diminuía o valor do seu pecado enorme, puxou mais, para que lhe tapasse a testa, o véu enrameado e branco. O véu que convinha a uma virgem. Prenda da madrinha pela comunhão solene de Emília, que nem sabia o que contasse, o que dissesse a Deus que vira tudo: se os pormenores que até a ela, agora, lhe pareciam escabrosos, se confessar por alto, dizer apenas, como disse:
- Foi na feira. Ele pegou-me no braço e meteu-me na tenda.
Disse a medo. E dizia muito, que nem precisava dizer o lugar aonde. Mas não dizia quase nada. Emília pressentia-o, ela que pecara em palavras, pensamentos e actos, a querer aliviar-se desse peso, a querer confessá-lo.
Desde que se erguera a feira, dera em perceber que o rapaz a olhava, lhe jogava sorrisos, lhe oferecia senhas para os carros. E ela a fugir do caminho que levava da escola para casa, ela a convidar as amigas para mais uma ida a ver de carrosséis e carrinhos de choque, a comprar uma enfiada de bolotas, umas castanhas assadas. Ela a dizer à mãe que estava em casa daquela amiga e mais da outra: até mais tarde.
A voz do padre que a traz ao real, que é ela estar ajoelhada a confessar-se:
- Continue, minha filha, prossiga…
Emília balbucia, que sabe senhor padre eu nem me fiz rogada: sorri-lhe de igual ao sorriso dele.
- Gostou dele?
Era a voz do padre, suave. E Emília respondeu: Sim, senhor padre. Eu apaixonei-me. E sorriu, nervosa, envergonhada. Emília a dizer: passei até mais vezes na zona onde ele regateava preços. A dizer que não, senhor padre, que não fora levada. Dirá assim se o padre perguntar. Mas ele não pergunta isso. Ouve-a. Muito atento, arrotando azedos e ela dizendo que o rapaz a beijou na porta da tenda onde guardavam os barros. Sim, sim, já a beijara antes, por detrás dos fritos. Fora o padre a perguntar: só dessa vez? Que ele há-de perguntar mais, depois que Emília arranje coragem de dizer aquilo: que se engalfinharam em cima de púcaros e alguidares.
Emília nem precisa saber que pormenores confessar. O padre irá perguntar: fizeste isto? E há-de descrever como se lá estivesse estado. E ele fez-te assim depois? e mais um desfiar de pormenores que Emília perceberá que o padre tem a lista inteirinha, esmiuçada, dos pecados dela. Nem precisa esforçar-se em escolher o que dizer.
Foi porque o padre perguntou, que Emília disse que fizeram gritos e risos e outros ruídos desalmados. Ela não disse que desejou que ficassem perdidos no barulho das carrosséis e carrinhos de choque e almariações de gentes a chupar açúcar em rama e torrão de Alicante. Que os ruídos tivessem sido engolidos. Desejou depois, acordada pelas noites, rememorando o gozo e culpando-se do pecado que agora confessava. O pecado da carne que ela nem sabia muito bem onde começava e onde terminava. Ajudava-a o padre. A indagar cada pormenor, que nem Emília sabia se acontecera sequer o que ele indagava:
- Ele lambeu?
- Ele chupou?
- E tu que lhe fizeste?
E Emília a confessar, ponto por ponto, o seu pecado enorme. E o padre a perguntar, depois de Emília muito confessar:
- Foi só dessa vez?
E Emília a responder:
- Sim senhor padre!
Emília a não confessar a pena, o desgosto, de ter que dizer isso: foi só dessa vez, sim, senhor padre. Uma única vez. Um só pecado. Emília a afugentar a dor, que tenha sido uma única vez, Emília a pecar também disso, e o padre a dizer, assim, sem mais nem menos, sem que ela pudesse confessar-lho:
- Vai em Paz, que o Senhor te acompanhe…
Nem uma salve rainha, nem um terço, uma novena, que ela pecara para mais do que isso.
Emíla limpa o ranho e desdobra-se, do de joelhos, com a suavidade do espanto.
O padre deixa o confessionário em passo lesto, persignando-se enquanto fecha os batentes em ripinhas pretas.
Emília fica sentada na igreja a chorar, pensa ela que seja, pela remissão do seu pecado.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

a mala

Todos andámos na terceira classe. Um dia. Todos tivemos um bibe mais ou menos branco ou de quadradinhos ou uma saia de pregas em azul-escuro e um casaco com botões amarelos.
Mas nem todos tivemos uma mala de cartão debruado a metal fininho.
Nada sequer de especial: placas de cartão prensado a formarem uma caixa. Uma mala normal. Diferia apenas que a mala de uma menina da terceira classe tinha, ao menos a minha sei que tinha, um mistério. Um mistério enorme para além dos cadernos de linhas e da lousa e do livro de leitura com uma capa colorida onde os meninos corriam a sorrir e a segurar bandeiras.
A minha mala era castanha com uma asa arredondada e exalava um cheiro inebriante. Um odor intenso.
Eles a chamarem: anda jogar ao prego, ao manecas, anda saltar á corda. Eles a chamarem-me que brincasse e eu de volta do abrir e fechar da mala. Eu a deliciar-me.
Durou uns dias e passou-me.
No Natal já eu abria e fechava a mala a retirar a caneta de aparo e o mata-borrão rosado e nada de pensar em cheiros.
Joguei muitos jogos, esfolei os joelhos, rasguei bibes e o cós das saias. Brinquei. Nem me lembro bem como, nem com quem, mas o cheiro da mala nunca o esqueci.
Hoje veio-me às narinas esse odor tão raro.
Um cheiro que seria apenas resultante do paninho de apagar a lousa misturado com restos de borracha soltos. Ou seria o cheiro da cola de que era feita a mala. Ou seria disso tudo e mais do sabão azul e branco com que era lavado o guardanapo que me levava o lanche.
No entanto, era um cheiro mágico, garanto.
Um cheiro que nem terá, assim, uma explicação. Que nem seria um cheiro com origem em moléculas mais ou menos esquisitas.
Estou plenamente convencida. Era um cheiro especial.
Um odor sentido apenas por cada menina que andasse na terceira classe e tivesse uma mala de cartão prensado.
Naquele tempo, claro.

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Terá sido...


Encontraram-na caída na tijoleira.
Estendida na cerâmica baça pelo uso, escolha feita quando eram jovens e amantes. Agora, ninguém que a visse, a mão esquerda no bordo da banheira e a direita enclavinhada na toalha cor-de-rosa com riscas em tom mais escuro.
Terá ido urinar e tropeçou no tapete. Ou terá ido ver-se no espelho. Talvez tenha ido buscar água para regar a begónia, ou em demanda de alívio de uma dor conhecida feita mais aguda. Terá querido dizer socorro. Terá querido alguém que a acudisse. Ou nem percebeu que fosse senão um acidente igual a tantos outros.
Mas ficaram-lhe os lábios apertados, indício de que terá sentido dor ou medo. E ficou-lhe a mão direita a torcer as riscas da toalha, numa tensão de tendões e nervos.
Ela que dizia: eu não creio, terá orado: Senhor, nas tuas mãos me entrego. E, só então, os olhos se lhe enevoaram e sentiu quebrantar-se o corpo.
Terá, num arrependimento por se ter desistido, apertado o turco rosa como se ainda pudesse inverter o rumo.



Não sabemos como terá sido.
E nem podemos dizer que não ouviu o veredicto de quem lhe calcou, sob dois dedos, aquela artéria no pescoço.



publicado na revista Minguante no seu FIM

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

dez anos numa ilha

Se eu fosse obrigada a isso:
A ir assim para uma ilha
Esse tanto tempo,
Eu primeiro refilava, mordia
Dizia de meus direitos
Que não ia
Que me explicassem a causa
Que não queria
Eu a viver sem electricidade e sem satélite?!!
E sem carro?!!!
E sem máquina alguma?!!
Eu refilaria, e muito!!!!

Mas …
A gente não o sabe
Não é dito aqui no desafio:
Podia a ida ser por boa causa
Como seja fugir da gripe!!

Indo, por razão nenhuma
Ou por muitas,
Levaria sem duvida o marido!
Outro em sua falta
Mas, a tê-lo, era ele que iria comigo
Que esse era garantido que fizesse
Casa e cama
E o mais que fosse necessário
Até mesmo roupa
E seria certo que inventasse modo
De fazer uma piroga
Uma coisa para boiar na água
Que fizesse fogo, além do que incendeia a alma
O marido, levava-o comigo
Não hesito!
(até mesmo para seu castigo:
Para que ficasse dez anos mais a sós comigo)

Os filhos, esses meus amores…
Apertada que eu estivesse de saudades,
Levaria cada um, apenas se a causa fosse
Para salvar-se a gente de uma epidemia
ou parecido
Noutro caso… que ficassem
Que fossem felizes no mundo civilizado.

De resto, levaria
um serrote,
uma enxada e
uma caixinha com sementes
(de salsa, abóbora e melancia, hortelã e fruta variada)
Por razões que me parecem óbvias…



Levar um livro pareceu-me que seria sensaboria
Mesmo que fosse a Sagrada Bíblia…
(e como eu iria ter saudades de uma boa leitura!)
O tempo de repouso seria melhor empregue
a olhar o firmamento
A refazer o céu em outra latitude
A descobrir finalmente a minha queda para a Astronomia
A testar os meus parcos conhecimentos nessa área
Esses, e os demais…
Que me restaria tempo para pen
sar
O porquê de cada coisa
Rever leis
Redescobrir o sentido da ciência Física
Uma bússola?
Ainda pensei nela,
Mas numa ilha deserta
Numa ilha rodeada de firmamento…
Os astros me dariam sempre a direcção e o sentido
Pensei levar lápis,
Mas gastava-se…
Para escrever, um carvão
Serviria …
Ou uma pedra…
Ou o dedo na areia…
Papel?
A chuva o molharia
Comida e remédios?
Estragavam-se
Consumiam-se num ápice
Passariam o prazo de validade
Fotografias?
Aumentariam a saudade
Melhor seriam as imagens que levasse na alma
Roupa para o corpo?
Sendo pouca, mais valia nenhuma
A que tivesse vestida
Por via da vergonha, na partida
Outra, inventaria modo, lá na ilha:
Umas folhas, umas pétalas de flores
Quem sabe, o marido matasse um bicho…
A pele daria um casaco,
(sem preconceitos civilizados
e que aceito)
Seria manta para as noites…

Depois destas hesitações,
Optei pois por levar …
Um canivete suíço!
Dizem, pois nunca uso,
Dá para quase tudo
Inclusive,
Coisa que me perturba em situações
Como a que verso neste desafio,
Cortar as unhas
De pés e mãos
Não as deixar compridas a encalhar em tudo
(também para barba e cabelo…
mas esses, seriam, ao que penso, charme)



Parti do princípio que a ilha teria água potável
Imagino-a até um local idílico
Com palmeiras e coqueiros
E mangueirais inchados
E uma cascata a cair num lago
E um rio atravessando a ilha de um a outro lado
E outras maravilhas, que mereceriam o esforço de dez anos
(e aqui, que ninguém nos ouve, maravilhas que
mereceriam o sacrifício de levar o marido e não um outro
…)

Dez anos…
Tanto tempo!
Mas com boa vontade ainda viveria para escrever um livro
Para mostrar ao mundo como podemos ser felizes

Sem cadeias de supermercados, nem açúcar refinado
Nem gelados de chocolate, frigoríficos
Nem tabaco!
E sem luz que não seja a luz da lua
e luz do sol que nos queimaria
e a gente sem o protector devido
A gente sem água engarrafada
que o mais que semelhasse seria
a que caísse em cada chuvada…

Bem …
Por aqui me fico,
Que parece
(e não é verdade!)
Que me candidato a fazer a experiência:
dez anos sem mais que cinco coisas, ou pessoas
numa ilha do Pacífico!
Eu?!
Que jeito?!
Sem o PC e a Net ?!
Sem o Varal de Ideias
e sem o resto?!
Não me apanham nessa!


Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Um tempo dos diabos




O sol encandeia apesar das nuvens, ou nem disso, que nem há fiapos, nem rolos, nem castelos a enfeitar o ceu deste Maio.
Um céu que nem é de chuva mas de demência: Um tempo de malucos. Assim diria a minha avó materna se olhasse este ceu de hoje com os olhos que ela tinha pardos: um cinzento mesclado de azul claro, olhos de cataratas e choros e cansaços, olhos quase cegos de ver tanto, olhos em tudo semelhantes ao ceu que nos cobre desde o solstício.
Um céu descido sobre a Terra, tão baixinho, que a gente cuida chegar lá se espetar um dedo.
Um céu ligado ao chão que está molhado do chichi dos anjos pela noite, que não se vê que caiam bagos.
Um céu coberto por uma ténue pasta parda que cai, de lá cima cá abaixo, e nos encobre os sonhos, se dormimos, e nos entontece ideias e entorta dizeres, se andamos.
Um ceu como se fora véu de noiva morta na véspera das bodas, feitas exéquias, com o padre a enganar-se na leitura e os convidados a darem os meus parabéns à mãe da noiva.
Um ceu como maçã podre, deslizando fedores, este ceu que cobre o mês de Maio e está Nossa Senhora para se mostrar e nem o sol redondo, inchado, prenhe de fogos e de medos, a mostrar-se bailando, se preciso, aos olhos peregrinos, fálicos de segredos e terços e pecados e promessas e caminhos percorridos sangrando, que nem o sol a aquecer asfaltos, pedrinhas, terras, a tornar mais apetecido o sacrifício, mais suculento o pé a quem o trata com desvelos de águas quase bentas.
Um horror, estes dias cinzentos com o sol apertado entre vapores, calores filtrados, sufocantes, a doerem as frontes das gentes, dos mais sensíveis, das virgens e mulheres entradas, dos seres em espera de algo, que somos quase todos. Testas alagadas de águas gélidas, que são assim os suores de tristezas, de doenças e de medos.
Nem rodam um pouquinho os cata-ventos: firmes na direcção do mesmo ponto, vai para meses, que se apontassem como deve, nestes dias, seria a um siroco, mas nem é essa a latitude.

Pastosas as angústias neste mês de tolos.
E nas mãos húmidas escorrem suores tão mal cheirosos como os que empapam os sovacos escanhoados das madames que aprovam vestidos novos para o Verão, leves, decotados, de sedas finas e algodões de cores garridas, embrulhadas em capas e cobertas por sombrinhas.