domingo, 14 de agosto de 2016

eu pecadora...



não tenho deuses a quem peça perdão por faltas que cometa
nem um Deus que tema no interior mais profundo de mim mesma
sou ímpia
mas sinto, e nem será virtude e sim pecado grave
sinto a benção dos céus a cada passo
blasfemo
será isso que faço
seria mulher de arder em fogueira
e nunca se sabe o que me espera
que eu, à luz do que para aí oiço e vejo, sou mesmo uma peste
o que eu não sou é mulher de duas caras
nem sou senhora de dar esmola à "pobrezinha" sem a sentar na minha mesa ou dar-lhe banho e lavar-lhe a roupa se o cheiro me incomoda, ir com ela ao juiz ou ao centro de emprego se não sabe dizer ou não percebe
mas tenho em mim um defeito monstro
por ele, estou em crer que perderei o paraíso, se ele existe
tenho pouca pachorra para a imbecilidade
para além de detestar os reaccionários e os fascistas
e mesmo apenas os que entendem natural que muitos trabalhem por salário
a fazer crescer em flecha a riqueza de poucos
e abomino os meninos armados em finos
e todos os que querem parecer o que não são
mas, mais ainda, abomino certas mulheres
senhoras é como elas gostam
tias é como muitos as chamam
mas eu nem sei se são apenas essas do estereotipo que me incomodam
são mulheres nem sempre assim tão estúpidas
as mesmo estúpidas, essas, va de retro
que olham do seu reino de virtudes
nem sempre escassas, aceito, e dá-me pena
olham uns e outros como se fossem os seres inferiores que elas aprenderam a afugentar tanto ou mais do que os ratos e baratas que abundam pelas casas herdadas de gerações de avós que, muitos deles, moiraram e elas dizem condes e marqueses ou ricos industriais
ou as outras, sem heranças nem louros, e que têm atitude semelhante
mulheres
eles são outro modo
detesto e pronto
que eu fui criada por mãe que viu muita miséria
mulher de virtudes
alma boa
e do pai nem digo a história
gente que me deu o que não tinha e
mais que tudo
deu-me um quadro onde está escrita a moral que sigo
e deu-me o respeito imenso pelo invisível seja ele 
o espectro electromagnético
as almas penadas
ou os deuses


(ah! esqueci-me de dizer que não gosto de gente que se presume isto e mais aquilo e escreve 
“à horas que estou à espera” ou “ gostei de lhe ver” )

domingo, 7 de agosto de 2016

tristezas





se as tristezas da gente tivessem 100 paptitas como tem aquele bicho
se por cada patita a tristeza fugisse
mas as tristezas terão patas, sim, mas das que agarram
patitas como as da carraça
ou terão ventosas
terminais imensos recobertos

como eu gostaria de as retirar daqui onde
de vez em quando
fazem gala em visitar-me

nunca vem apenas uma
ou sim...
vem uma e instala-se
remexe-se, barafunda-me, recorda-me
depois...
corna
mula
tristezas são sempre umas filhas da puta
depois...
chama outras
desenterra mistérios
coisas muito antigas

tristezas mansas vêm vindo
quase elegantes
e ficam, assim, às quatro e às cinco

tem vezes que se entretêm
se embaralham
grasnam, vociferam
mas há aquele momento em que se calam
duas, três ou quatro tristezas em silêncio
digo-vos que é obra
um silêncio que é só olhos
apenas imagens sem palavras
é aí, quando elas nem se ouvem
porra, porrra
é aí que eu adorava que tivessem patas e se fossem

domingo, 31 de julho de 2016

saudade

as saudades que doem
estão inscritas no que não vivemos
dolorosas
imensas são também as outras
o capinzal ardendo
as águas a caírem do alto da fraga
a terra que nem é vermelha mas semelha sangue
essa terra seca
tão seca que era a terra antes das chuvas
as saudades doem
o telhado de zinco em noites de lua
o ruído da água
nunca mais ouvirás um ruído de chuva como ouviste nessas noites d' África
as saudades ardem
"Ficarás marcado pelo fogo da terra"
dizia-me assim o preto velho sem dentes na fala
o fogo da terra embebido no sangue da gente
marca do gado das imensas manadas
a saudade é sabre entre pele e carne
vinagre escorrido em unha de bitacaia
uma doença
um mal de peste
esta saudade que fica
não te livras dela
nunca te sai da pele
do sangue
da alma


quarta-feira, 25 de maio de 2016

doze anos


há doze anos nisto
e nem me arrependo
(muito pelo contrário)
doze anos de frutos colhidos



estou de parabéns, hoje,
eu e o meu Repensando

 floriam as minhas orquídeas em 2004


florescem mais orquídeas, hoje, no meu quintal

que mais desejaria eu, se mais nem houvesse
e felizmente existe...
?


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Colunista Acidental


estou na página dezoito da revista como Colunista Acidental
ora cliquem e leiam e vejam o resto deste nº dois da revista editada pela Maria Alfacinha a minha querida Helena de tantos e tão felizes reencontros 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

poeiras

As vozes dizem que é um limbo entre a alma lhe deixar o corpo e ser ainda gente.
E que Deus a resguarda neste estar terreno.
Que Deus sabe, propalam.
E eu pergunto: que quer, assim, um Deus Todo Poderoso de um seu acólito.
Que os mecanismos da engrenagem se tenham avariado e que, disso, tenha resultado esse desconcerto, isso, eu percebo e, embora me custe que tenha ficado, assim, sem jeito de poder revelar-se como gente, de todo o modo, aceito.
Que o meu pasmo é ante aqueles que vêem Deus agindo, o Espírito actuando e a Alma buscando o seu domínio, ali, onde eu vejo apenas células que definham, células que nenhum sangue irriga e circuitos eléctricos que, por curto-circuito ou de outro modo, deixam de transmitir mensagens ou que, se as transmitem, é sem nexo.
Cabe Deus nisto, interrogo.
E a alma está enfiada onde?
Espírito, ainda balbucio, e fica-me um imenso espanto, que eu vejo interacções complexas, coisa digna, sim, de deuses, mas não é neles que encontro resposta, e espírito, não, não vejo, não sinto. E mesmo a emoção, mesmo essa, eu a reporto a condições de energia, de forças: campos de umas e outras resolvendo-se num ter pena, ou dor, ou num chorar a gente de cara lavada. E assim, tal e qual, com os afectos, e pena e tristeza e alegria e as falas que aprendemos, e mesmo a criatividade numa tela ou numa página de escrita matemática.
E se digo “estados de alma”, “estados de espírito” é apenas por retórica, pura literatura, modo que terá ficado dos ancestrais que nem sequer imaginavam que éramos fígado e rins, sequer vagina e útero e esperma de onde vínhamos, quanto mais que éramos um cérebro que comanda e recria.
E se interrogo: mecanismo que somos, ainda assim, tão perfeito, quem o terá criado,  respondo-me alijando disso um Criador primeiro, antes dizendo deste modo: que condições, de energia e outras, terão acontecido no universo para que surgisse, paulatino, vagaroso, nem sempre tão inteligente, nem sempre tão perfeito, nem sempre tão capaz de inovação, este homem que hoje somos?
O sopro de um Deus em estátua de pedra soa bem e faz poesia, calha bem na imagem que gostamos de ter do homem protegido por um Deus, ou deuses que seja, desta contingência de nos pensarmos gregários, amantes e amados, e até criadores de outros, e sermos afinal tão solitários.
Que a solidão, sim, essa domina. Solidão é o mais que acontece nestes momentos de interrogação e espera. A solidão jogada sobre a gente com a poeira cósmica.

Solidão, e a certeza que é na obra que nos transmitimos. Nos riscos, nos telhados erguidos, nas árvores plantadas, nos poemas lavrados. É na obra que somos. No mais, perecemos, mesmo se gravados no coração dos outros como afirmam as vozes.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

esperança

hoje que o Pedro faz dois aninhos
hoje eu vi o mundo assim e tive também nele um vislumbre



quando o mal escorre pelo mundo
(esventra-o, apodrece-o)
quando tudo parece cor de sangue 
(e negro que é a cor de cor nenhuma)
quando nem Deus 
(e nem os deuses) 
parece compadecer-se
quando nos é quase certo que 
apenas o sol  para iluminar e aquecer
quando tanto, tanto, tanto...
surge por aí uma renda
um desenho
uma canção
um riso
um gesto simples de menina
e a gente acredita que é tudo pesadelo 
que acordamos num mundo de homens bons e justos 
um mundo onde nem os deuses nem Deus serão mais precisos







quarta-feira, 21 de outubro de 2015

só mais um abraço III

no dia 17 foi na capital



foi na livraria Ler Devagar 
no espaço quase mítico da LX Factory


e em torno do livro choveram afectos

reencontros  











esperas

recordações

diz que foi um bom momento...

obrigada a todos e à editora 

e podem ver o que  escreveu o Luís Bento
e a Maria Helena que transcreveu o texto que leu na apresentação e fez uma linda reportagem

o texto que o Joaquim leu

Olá, boa tarde a todos; parabéns, Maria da Fátima!

Tenho contactos literários com a Fátima desde o longínquo maio de 2008, quando eu tinha aderido a uma oficina de escrita na internet e queria o conforto de mais portugueses, numa oficina que era frequentada por uma enorme maioria de brasileiros.
Convidei-a porque a paisagem dos blogues de então era semelhante às páginas de facebook atuais, em que a maioria escreve apenas pensamentos ou desabafos, enquanto que o blogue dela apresentava textos que contavam histórias com enredo, com personagens. E ela aceitou. 

Nem sempre o convívio foi pacífico, porque as nossa escritas são muito diferentes e as nossas conceções de narrativa chocaram algumas vezes. Creio mesmo que se escrevêssemos sobre o mesmo facto específico, talvez não fosse fácil assegurar que escrevíamos sobre o mesmo assunto.

O tratamento que ela dá à história é muito especial, singular. O facto está lá, mas é narrado através do sentir das personagens, através dos pequenos gestos delas, em narrativas muito sentidas. Muitas vezes tive ocasião de lhe dizer que este ou aquele texto dela me tinha criado um nó na garganta. E muitas vezes vi classificar a escrita dela como prosa poética.

Outra característica da escrita dela é o uso das formas verbais. É muito frequente o uso de um futuro imperfeito, revelando, no tempo da peripécia em questão, factos futuros, que a personagem ainda não sabe. («E no abraço que hão-de dar-se, saberás que não são choros que te lavam o rosto, mas tão-somente a chuva que cairá intensa nesse inverno na capital do que já fora um vasto Império.»)

Mas, curiosamente, o narrador nem sempre é omnisciente; muitas vezes revela que também não sabe bem o que vai acontecer ou se a personagem sabe factos passados ou não. Ela usa magistralmente o futuro perfeito composto, que exprime incerteza ou suposições sobre factos passados. («Num dia, Inacinha terá deixado o nó lasso, e o lenço escorregou. E ela a deixar que as tranças se soltassem, ter-se-á sorrido. Terá até desfeito o entrelaçado do cabelo, e terá ficado vestida apenas dele.»)

Este bascular entre tempos, este vai-vem entre acontecimentos a decorrer e memórias da personagem, podem causar alguma dificuldade ao leitor. Mas a Fátima não conta a história para lhe facilitar a vida. As narrativas dela exigem do leitor atenção e empenho, para acompanhar o quê e o como lhe é contado. Mas valem a pena, porque nos meandros da filigrana, com que ela envolve as histórias, há pedras preciosas.

Percebe-se porque é que o narrador nem sempre sabe o que aconteceu ou vai acontecer: porque a autora é ferozmente adversa de qualquer planeamento. Sentiria isso como uma inverdade, antes de mais para consigo própria. Como terá dito alguém, depois de saber a história já não vale a pena escrevê-la. A história nascerá assim de algum estímulo que só ela sabe e depois vais crescendo por um sentir, todo feito de atenção aos sussurros do seu íntimo, que faz lembrar o sopro da musa dos Antigos. Acho que já a vi dizer que as personagens tomaram conta da história. E, pelo que tenho lido, têm tomado boa conta das histórias dela.

Um abraço, Fátima! Como todos sabemos, este é mais um livro de muitos que continuarão a nascer. Assim haja leitores.

Boa tarde a todos.



as fotos, umas são da wind e outras do meu irmão

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

escolhas

Só quem não percebe nada
quem entende que é seu o bem estar em que vive
Só quem acha que pobre é o que bate à porta
uma esmolinha, minha senhora...
e que nada perturbe, que nada incomode
Só quem tem muito medo
medo dos olhos deles
medo do confronto
medo de si mesmo
Sei lá eu quem são os que receiam
tanto que nem olham
ou se olham não vêem...
Agora imaginem um chefe de família sem ter dólares
sem um chavo para dar de barato ao traficante
e os olhos dos filhos a pedirem: e a casa, pai? e o meu quarto de brinquedos?
Imaginem os milhares que não saem por não terem nada
ou os que saem assim mesmo
(e nem falo no avô que olha o neto ali ao sabor das ondas do Mar Mediterrâneo)
Com ou sem dólares, morrem uns e outros
hordes assustadoras
desconfortáveis
e nem de mão estendida como deve
uma esmolinha, senhores, pelos deuses
Eles exigem
eles querem
eles sabem e escolhem
Querem a Europa e, se for apenas por mais uns quilómetros, preferem a do norte
Querem Londres, Paris, Berlim em vez do sol de Lisboa ou de Barcelona
que afinal saber é normal nesta era do google
Arriscaram tudo e sabem onde, depois de nada de nada, lhes seria o paraíso desejado
Vêm por aí fora e invadem o confortozinho dos meninos deste canto do mundo
ai  deuses que lá vêm estes hereges obrigar os nossos netos a andar de burka
Lá vêm a mostrar-nos, sim, que o nosso paraíso e o inferno deles é tudo o mesmo: resultados díspares dos senhores dos deuses e do petróleo
e senhores do dinheiro
que às vezes faz muito jeito que existam uns cobres
nunca se sabe, n'é?!,  se um dia destes seremos nós esses
ricos a ousar escolher um canto da Terra onde nos acolhermos
nunca se sabe...

sábado, 15 de agosto de 2015

só mais um abraço II

o livro vai tomando o seu caminho




este nas mãos do filhote do Henry Bugalho brasileiro a viver em Manchester

um outro por Lisboa exposto na Ler Devagar

 

e a saga da 6ª Mostra teve uma segunda semana mais tranquila
mas no dia treze esteve lá a Cristina Taquelim contando
e que bem ela contava
 e o livro lá foi na sua parafernália



e, no entretanto, o Francisco Castelo pretendeu receitas para cozinhar gaivotas, e eu escrevi uma quase ode aos pássaros que, destituídos das iguarias que lhes davam os barcos na faina de ir vir no encalço da sardinha, poluem os telhados e as ruas num desespero de raça ameaçada.

Reza assim:
Não a tomes demasiado nova
a melhor será a de Setembro
tem certeza se é nascida nesse ano

se tem ainda algumas penas de castanho

se o grasnar é, ainda, pouco altivo e pouco atrevido

Ficarás observando pelas noites de finais de Agosto

verás as mães vigias em seus poisos
e saberás que, esses, são animais velhos
tios e pais dos que apenas de dia andam voando 
Aguardarás pelos dias de Setembro
quase Outubro chegando 
e tomarás um sabre
terás que munir-te da faca dos antepassados
um sabre de gume afiado 
uma lâmina num redondo que iguale a lua em crescente
com ela virada ao luar de uma lua a imitar luar de Agosto
encandearás o bicho
tomarás seu distraimento em tuas mãos e
de um só golpe
com um rodar firme, lhe cortarás o pescoço 
e deixarás que sangre
deixarás que pingue o sangue sobre o sumo de limões apanhados por uma lua azul
apenas limões desses farão reverter o coalho
e enquanto aguardas que o corpo da ave fique seco dos humores da vida
que oiças por outras tantas noites o grito desespero
o grasnar estridente de seus ancestrais
o bater de asas
os voos rasantes que te farão e de que deves escudar-te
os bandos ruidosos a tornarem branco o céu da noite
Só depois farás o que é costume
Escaldarás em água o que foi ser livre
e deitarás em cova de areia 
uma cova funda na areia da praia
as penas que tiraste do seu corpo morto
uma a uma
farás desse modo ou terás em teu porvir
em cada dia e noite 
em todo o sítio onde te encontrares
o grito imenso da gaivota que mataste
e ainda que te cuides em cada um deste gestos que aqui aconselho
coisas que me dizem os deuses e meus avós deixaram de uns aos outros
ainda assim,
que seja cabidela ou canja
ou que faças sua carne como se fosse arroz de pato
terás em cada noite de qualquer Agosto
o ruido cavo que são as suas patas poisando 
antes de teres desferido o golpe.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

só mais um abraço


o convite da Biblioteca da UALG e o logotipo da Editora



instantâneos da apresentação  em Faro

e a crítica da DrªAdriana Nogueira Professora da Univ. do Algarve publicada no suplemento Postal do Algarve


a capa do António Brigas e o cartaz feito na União de Freguesias



um aspecto da sala onde decorreu a 6ª mostra de autores de Lagos



 um instantâneo da apresentação em Lagos

segunda-feira, 25 de maio de 2015

onze anos!!!


Tanto tempo!
Alguns desaparecemos no mistério de um nick-name nunca desvendado.
Terá sido um tempo de morrermos...
Um tempo de vivermos outras vidas.
Terá sido, decerto, o tempo necessário.
Alguns ainda por aqui andamos.
De cor (ação)  relembro uns quantos  neste dia de aniversário do Repensando  
wind (Isabel Mar Cruz) ​, Inconformada (Maria Alfacinha)​, TCA (Amadeu Brigas​), OrCA (Jorge Castro​), Perplexo, Alice Duarte (do Vida de Vidro ), Bertus (Alberto Oliveira)​, Lobices (Joaquim Nogueira)​, José Alex Gandum​ (d´O meu sofá amarelo), Ze Almaro (do Aguarelas escritas )​, Luis Maia (do comblogs de ver) Jorge Pinheiro (do Expresso da linha)​, Eduardo Penteado Lunardelli​ (do Varal de ideias ), Luis Bento (do bento vai para dentro)​, Henry Alfred Bugalho​ (do Samizdat), João Menéres​ (do Grifo planante) , Isabela Figueiredo​ (do Novo Mundo )

terça-feira, 19 de maio de 2015

delet

Importante não é eliminar nomes e outras burocracias como os cartões do banco ou a certidão de nascimento. Tudo registos anódinos, mesmo os filmes, mesmo as fotografias.
Importante seria eliminar aquilo que nos é como sangue.
Importante seria desfazer pronomes, adjectivos e tempos verbais, palavras com que compusemos personagens, seres que, algum dia, tenham respirado o ar da serra ou o ar empestado duma cidade grande.
Importante seria apagá-las. Rasgar todos os papéis, fazer delete em cada arquivo. Que nunca ninguém pudesse espantar-se ou cogitar hipóteses, saber sequer que nada fizemos que fosse para explicar-lhes e muito menos para que soubessem de onde e como, e de que modo, lhes sobreveio aquele jeito de ranger os dentes, aquele não saber conter um choro ou parar a inusitada gargalhada.
Importante seria queimar tudo e ir apreciando a lassidão do fogo, descalços e nus, que mesmo o cabelo que um dia foi farto, entrançado ou rodando em cachos, mesmo esse, importante seria desbarata-lo em sucessivas tesouradas.
Não deixar nem panos, nem lençóis ou fronhas, fatos, cuecas ou casacos. Queimá-los em cova apropriada que, recebendo as cinzas, fosse terra onde nunca medrassem favas ou tomates, fruta ou legume que, crescendo, conteria vestígios nossos oriundos daquela saia, do colarinho da camisa de ramagens, dos punhos da blusa que vestimos por um baptismo.
Ficarmos despojados.
O nome riscado de capas de livros, e até os tachos e malgas em que cozinhamos serem retorcidos por pancada forte e fendidos em cacos os de vidro ou de loiça ou de barro.
E nem por descuido grave, deixar uma só frase a pespontar assim, ou semelhando: hoje aconteceu-me perceber que o mundo pode ser diferente e que é em mim que começa tudo.
Que nenhuma ideia sobeje.
Que não fique registo escrito ou desenhado, e nem raízes quadradas ou polinómios traindo o ser que fomos.
Importante para não nos imputarem um depois, seria destruir cada vestígio.
Para que nada reste a seguir ao dia em que, dum modo ou de outro, se quebre o fio ténue, indefinido e frágil, com que aqui andamos a sorrir ou com menos bons sentimentos de uns para os outros.
Para que nada mais sejamos, ou nos pretendam, quando for silenciada a orquestra, perdido o ritmo com que flui o sangue.
Para não haver depois, quando tudo falhe por falta de maestro, quando, por inércia, nos terminem as cadências do corpo: aurículas e ventrículos, cúspides e aorta, e o compasso dos pulmões arfando.
Para que não fique nada que nos perdure.
Para que, definitivamente, não sejamos.

E em jeito de epílogo deixarmos um desejo e algumas perguntas num modo pueril de encararmos, assim como dizer: gostaria de envolver o corpo nu num pano tinto com cores fortes, tons africanos, amarelos e azuis e verdes e vermelhos que o fogo consumisse.
E constatarmos, pesarosos: gostaria, mas não tenho voz que peça, ou voz que mande.
Assim, ou perguntando num receio todo ele cérebro: as carnes ficam moles e a pele franzida, o sangue ainda corre quando chega o cangalheiro?
E acrescermos num lamento: pergunto, mas ninguém responde.
Ou inquirir num temor contido repleto de ironia: nas veias, o sangue, parando, terá deixado troços ocos, ouvir-se-ão estampidos como no fogo-de-artifício em feira de Agosto?
E não soltarmos sequer o murmúrio que lamentasse: pergunto, mas, ainda que respondam, já não oiço.




quarta-feira, 8 de abril de 2015

o dom




Um dia, um amigo que a tinha, disse-me: a Fé é um dom de Deus!
Ensinou-me, em palavras simples, que era preciso buscar,
percorrer caminhos,
mas que sem o dom não iria longe...
(como ser artista no desenho ou nas letras, pensei eu...)
e ainda hoje não tenho o dom com que, imagino, uns e outros, acreditam nos céus,
eu que nem creio numa alma que me acalente o corpo,
nem "remissão dos pecados" me diz mais do que literatura,
nem "vida eterna" é mais que expressão bela, idiossincrática.
E, assim, sem Fé, tenho vivido.
Sem o dom que não recebo, por graça de Deus, nem na pia do baptismo,
eu que não busquei
ou que, buscando, confundi sinais.
E, assim, blasfemo,
e tanto que dou por mim a orar, não a Ele, mas aos anjos,
esses seres brincalhões que me escondem tudo
me mudam, até, a posição das almofadas
e deixam que julgue ter perdido, por longos tempos,
um guarda-chuva ou documentos importantes;
e acendem as luzes que eu juro ter apagado,
e abrem-me os olhos e os outros sentidos ou eu, por um tris, batia com o carro.
Tenho os meus anjos, sim!
Um batalhão que me atazina e me protege.
Com eles cá me amanho
e que Deus nunca se zangue...
.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein