domingo, 6 de outubro de 2019

dia de votos

eu tenho este quê que nem sei bem de onde me veio
gosto do dia de ir a votos
gosto do ritual
de dizerem-me o nome em tom alto
como se eu fosse ser agraciada
ou fosse ré num tribunal
ou fosse subir, por bruxaria, à chama da fogueira, 
ao cadafalso...
gosto de sentir os passos que dou, antes e depois, do voto
do silêncio que reina
 (assim eu oiço! )
no local onde faço,
sempre a recear um lapso,
aquela cruzinha no quadrado...
sinto no meu âmago a importância daquele gesto,
o que ele acrescerá ao computo final,
e desenho a cruz como se ela fosse a minha obra de arte...
e é com desvelo, quase saudade,
que me desfaço do papel que dobrei, cuidadosa, em quatro
coloco-o na ranhura e fico,
por um mísero instante,
quase orando,
a crer, ferverosa, num mundo melhor,
em futuros risonhos...

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

farol da ponta da piedade

filme meu de 2012 que o facebook trouxe hoje à memória e eu nem tinha guardado
https://www.facebook.com/fatima.santos.378/videos/10215307523934264/?t=4

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

coisas que vou escrevendo...

 ..e ficam naquele caos que é o facebook
copio-as para aqui na esperança que, assim, nem se percam, tanto

estarei adoentada?
ter-me-ei constipado?!
nem é que espirre ou tenha o nariz pingando
mas apetecem-me sapatos em lugar destes chinelos
meto-os nos pés e é todo o santo verão
sinto necessidade dum casaquinho
outro abafo que me cubra os ombros
um xalinho
sinto, sim, frio
aqui sentada, desconsolo
vou-me agasalhar e já volto
mas ainda pergunto
ter-me-ei constipado ou isto é mesmo o fim anunciado?
tão rápido que passou o danado
veio tarde e depressa se cansou
nem me deixa saborear outro banho quentinho
far-me-ia bem se fosse mal do peito
ou nariz entupido
mas parece que é mesmo o fim
este frio que sinto
este desejo de abafo fazem pressentir que parte
pode ser que lá para o ano ressuscite
podia ter, ao menos, avisado
onde raio meti o xalinho?!
e o casaco onde terei colocado?!






sei lá se é daqui a nada
ainda em dois mil e dezanove
antes do Natal
se na década de vinte que se segue
se mais tarde...

a gente a viver como se nada fosse
a gente à espera de outro inverno
outra primavera
a gente a fazer planos
a arrumar as fotos de papel...

tem sempre como certo
e vai trauteando no banho
e compra bilhetes de avião
e vai ver dançar aquele bailarino...

a gente a tentar que não seja como tirar personagem do enredo
simplesmente apagar-lhe o nome...



não é suficiente
penitência por pecado de perjura
é pena dura
não chega bater a mão no peito em jeito de remissão
é preciso mais
que eu disse deste Verão enormidades
mentiras
falsidades
fui intempestiva com o pobre coitado
que Verão não é só Agosto
e nem necessita que se apresente desde os Santos
Setembro é mês que baste para um Verão aprimorado
e o de 2019 quis apenas mostrá-lo
do que disse me arrependo e imploro perdão
se é pouco o que aqui escrevo, deixo, em sinal de expiação
ter sido obrigada a vir nadando que se viesse fora de água arrefecia e dentro dela estava como se fosse um caldo
Verão abençoado
que os deuses dos ventos e dos mares me perdoem
que eu não torno
outro Verão que me seja dado e aguardarei, serena,
que ele venha nem que seja em Dezembro...

sábado, 31 de agosto de 2019

porque hoje é sábado, como dizia o poeta


a gente tinha medo até da sombra
é lugar comum, mas tão a dizer a verdade

a gente atravessava a fronteira e receava pelo livro que trazia lá de fora
- esconde-o na roupa que trouxeres vestida - aconselhavam

a gente para tomar um emprego, para matricular-se num curso, jurava que era a favor da "situação" e que não professava ideologias desfavoráveis, e assinava pela sua honra
a gente nem beijar-se podia no jardim da Estrela ou outro espaço publico deste pais onde as criaditas trazidas, tenrinhas, da aldeia eram "comidas" pelos homens da casa como se fosse natural...
e era...
e se não eram tratadas desse modo, eram, sempre, semi escravas 
(e o semi é apenas redundância)
escravas dum lar onde faziam de tudo menos ter um dia de descanso e um quarto que fosse apenas seu
e...um ordenado...
dizem, eternecidas, as que ainda vivem, que os "meninos" e "meninas" de quem tomaram conta, ainda quase da mesma idade, as tratam com dedicação e as amam
pudera!! era só o que mais faltava, depois de tudo...
criadas eram o despojo deste país onde as senhoras as discutiam como coisa de que necessitavam
como se discutissem um detergente ou um electrodoméstico, que ao tempo era só vassoura, ou vasculho para os cantos mais inacessíveis, e sabão macaco ou sabão azul e branco e, claro, os braços da mais novita de um rancho de mais de oito a penarem numa serra das Beiras ou em outra deste país de muitos filhos e muitos pobres, umas sopas de cavalo cansado a acalentarem fomes, e os senhores da cidade, por uma imensa caridade que na missa o senhor padre enaltecia, iam buscá-las para servirem, que era como as mães agradeciam: "a minha Júlia, felizmente, foi servir para Lisboa"
mas podia ser no Porto ou em Tavira...
eram outros tempos, sim senhora!
mas é bom que ponderemos que isto de ter Liberdade não é coisa que não possa ser perdida e, sem ela, porra! sem ela nada do que existe é como se nos apresenta e muitos de quem cá anda julgam que é eterna e de direito e nem sabendo como é não a tendo...
dizer que a gente tinha medo da sombra é metáfora do dizer que tinhamos medo de pensar ainda que nem fosse alto
e nem todo o teatro
e nem todo o livro
se nem a obra total do nosso Camões!!
façamos a fineza de perceber que era diferente, sim, no tempo da outra senhora em que Salazar, por ele mesmo ou interpostas pessoas a ler a mesma cartilha, geria este país que, por isso mesmo, nem tinha as cores que tem agora nos fatos e nas casas e sobretudo nos olhos das pessoas...
fazer um museu só se fosse para contar destas e de muitas, mas muitas outras coisas... contar a vida real que decorria por estar no poder um Salazar, rapaz douto e beato e casto que
Santa Comba Dão viu nascer e que, com a sua camarilha, trouxe este país à beira da penúria (pobre, tão pobre que era o nosso povo!!) mas arrecadou barras de ouro
tanto ouro que, dizem, havia no "regime"!!
abençoados os que o derreteram na fogueira do desvario de um país finalmente a perceber que podia viver sem criaditas e sem essa gente aperaltada
infelizmente a coisa é mais complicada
essa gente aperaltada resiste como se fosse o diabo
e a pobreza permanece apenas disfarçada nas lojas dos chinesses e nas zaras e num ou outro bairro camarário periférico onde as meninas que já não vêm das aldeias andarão a fazer horas em casa de senhoras e serão caixas numa grande superfície nem sequer pelo ordenado mínimo
e muitas farão broches em carros topo de gama ou nem por isso, no Parque ou por aí em qualquer hotel ou boite deste país a parecer tratar a Liberdade como se fosse um tapete de sala: espezinhado e batido...
mas ouro de Salazar é que não há
e nem medo de pensar alto
sei lá
sei lá...

domingo, 23 de junho de 2019

o meu mais sentido e sincero apelo

que saudades do verão
o banho diário, gelado, a tirar-nos o sal
a tirar-nos o odor fedendo à sardinha na grelha...

"tanto calor, raio"
diremos nem sabendo, já, o que dói esta espera
diremos, ingratos
a não saber aproveitar, a não saber tirar partido...

que saudades
das sestas de janela aberta
as cortinas abanando dum ventinho fresco, auspicioso
e as noites...
quase madrugada e ainda a parecer lusco-fusco

que saudade do verão que começou apenas no calendário
apenas neste solstício que parece baralhado
inseguro
tímido de se abrir em calores
receoso de deixar que a gente transpire
que a gente sue em bica e assim se exorcise
de males de peito e muitos outros
ódios, paixões
crises de gota e crises de dinheiro
ou crises na política
mortes, desgostos...
a gente limpa-se disso tudo a cada gota de suor
a cada regurgitar da pele ao imenso calor

que venha o verão e a gente, assim, ressuscite
que venha, antes que termine agosto

quinta-feira, 20 de junho de 2019

in memória

dizem-me: morreu
e eu fico atenta ao passo que, em mim, será o derradeiro
cresce-me no quintal rama de rabanetes
e as alfaces estão cheias de viço
de mim
hão-de restar, indiferenciados, moléculas e átomos
mais do que isso, não sei, não acredito
nada que tenha o meu registo
nada que diga: esta fui eu
partículas, essas, sim,
hão-de recombinar-se em tomate, coentros, rama de nabo
talvez madeira de alguma árvore que alguém queime para aquecer-se
talvez uma gaivota leve nela algum dos meus despojos a ser-lhe ajuda com que,
lá do alto, desça a pique e colha uma sardinha ou outro peixe
mas este eu que eu sou desaparece por completo
desexiste
dizem-me: morreu e eu receio
apenas porque...pronto
porque gosto disto
e gostava de comer os rabanetes






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a vida tem destes mistérios e eu soube, após publicar este texto, que o José Rosa Sampaio partiu de entre os vivos
que exista um canto neste espaço infinito onde possa descansar e rir esse sorriso 
que seja assim a derimir a minha pouca crença
obrigada pelos seus ensinamentos querido amigo



quinta-feira, 13 de junho de 2019

dia de santo antónio


Quem me dera a mim saber
Mas não fui disso dotada
As quadras que quero fazer
Saem-se  sempre maradas

Ainda assim, dou um jeito
Peço ao santo por socorro
Que me faça rimar certo
Eu dou-lhe beijos e gozo.

Nos arraiais o que gosto
O que mais me arrelampeja
São os cheiros e os fumos
Muito mais do que a cerveja

Gosto também dos balões
Pendurados, redondinhos
Fazem-me “alembrar” melões
Fazem-me estalar os beicinhos

No arraial chupo os dedos
Como do pão bem pingado
Mais comeria se houvesse
Sardinha e “chórice” assado

Pronto, já fiz umas quantas
Já versejei, já fiz rimas
Agradeço ao Santo António
Estas minhas obras-primas

Obrigada ao meu Santinho
Hoje muito lha agradeço
Bebi água em vez de vinho
Estou fresca que nem um pêssego

Eu te estou agradecida
Disso como do resto
Prometes-me marido
E cá vou com o que me deste.

sábado, 25 de maio de 2019

porque ontem foi dia dos teus setenta


a minha oração mal engendrada


temos a sorte de
eu acho que temos mesmo a sorte de
aletaório como é este jogo da vida e da morte
imaginando que a vida é o maior dom
(imaginando, apenas, que eu lá sei)
temos a sorte, sim
fomos bafejados com o desígnio maior de sermos quase eternos
agradeceremos, se formos crentes
aos deuses
a um apenas
nós
os que atingimos o patamar de sermos já idosos
tão jovens que nos encontramos
a cabeça cheia de planos
nós
a queremos seguir para lá do muro
a sorte que temos de podermos olhar e ver o filme
os pormenores
saber como será se tentarmos
e ainda assim arriscando
temos a sorte, sim
fomos bafejados
poder acordar em mais uma manhã
e ver o sol
e sentir o odor do café que nem já bebemos
o odor das flores
o chilreio dos pássaros
as andorinhas que criam mais uma dose de filhos e nos cagam chão e paredes
e o mar
e a serra que fica azul apenas para se fazer mais desejada
temos a sorte, sim de os termos conhecido
tantos que ainda vamos encontrando


se eu rezasse a um deus que fosse
se eu acreditasse
tivesse eu uma fé qualquer na divindade
orava dia a dia, de manhã cedinho e também à noite
agradeceria esta dádiva que é estar vivo e poder disfrutar


obrigada a quem de direito
deus, ou anjo
ou que sejam as almas dos que amamos e se foram


domingo, 5 de maio de 2019

saudade



Sinto o cheiro a que cheirava após o banho
e é ela que ainda me ouve, se leio em voz alta o texto que não sai.
Ela que me segreda: “ não devias, filha”
e me sorri, solidária, quando me irritam pequeninas coisas.

É como se me tivesse ficado, aqui, num qualquer recanto.
Como se, nascida eu do seu ventre, ela a mim tenha retornado.
Ou será porque é eterna e eu,
sem que o saiba, creio na eternidade.

Eu que sempre lhe disse: “nunca irei por flores”
nem sabia o quanto era verdade.
Quando, inopinada,
rodo passos e entro, rua abaixo, no cemitério,
não são flores, não, o que lhe levo.
O que eu levo são os meus carregos, 
as minhas dúvidas, 
as minhas insidiosas certezas.
E eu que nem rezo ali fico, olhando
nem sei bem para onde, nem sei bem o quê,
enquanto, lá de fora, o vento traz a vida 
no rumor dos carros
num pássaro que por ali poisa.

Eu  carregada dessa falta dela que não me larga.
Essa saudade.
Essa vontade de a ter por perto cada vez mais intensa.

Que ela me ouvisse aquele pedaço,
imploro eu a céus que desconheço.
Não o pedaço de texto que escrevo e não sai, lesto,
mas o pedaço de mim que mais ninguém ouve.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

reminiscências

fiz o deseho apenas para relaxar, fazer um intervalo noutras actividades, ficar mais um pedaço de noite a ouvir a abençoada chuva
e, de repente, os riscos terminados sugeriam-me um escrito bem antigo que o Alian Morioz tão bem disse, mas a gravação não abre, infelizmente
aqui fica o texto a abrir na Samizdat, basta clicar no título a palhinha  
e o desenho

quarta-feira, 20 de março de 2019

cardamomo ou nem por isso


Não sei se o cardamomo alivia dores de alma, se as bagas mínimas que ejecta das suas duas meias conchas fariam um chá que acalmasse este meu desassossego. Talvez apenas alivie quem grite num desespero: "porra que me doem as cruzes" . Talvez.
Para o saber, teria que consultar os livros. 
Certo que poderia fazer uma busca na internet, mas isso é coisa para que raramente tendo, que eu prefiro tirar da prateleira a pasta mais farfalhuda que lá tenha, aquela onde sei ter deixado registo acerca de plantas e suas virtudes; tudo manuscrito, tudo naquela letrinha arredondada que eu então tinha, que até a letra se me tornou diferente com o passar dos anos; talvez encontre o recorte de um jornal que num sábado do século passado, informasse serventias dessa planta oriunda das índias, essa, e agora me recordo, que é um poderoso afrodisíaco.
Com ou sem cardamomo, terei que centrar-me, inteira, num cardume de objectos, tão unidos a mim como a carta  aos selos que a lacram, o meu corpo disposto a sentir o que nunca aprendeu a ter em conta: o peso e arredondo dum pisa papéis de vidro com ou sem a torre Eifel lá dentro, o áspero na madeira dum pião e o frio bicudo do pedacinho que irá rodopiar, primeiro em cima da carpete e depois, com jeito, na palma tremente da minha mão, haja, ou não, a ajuda de um chá de ervas, uma tisana, ou que eu mastigue cardamomo, o que me porá, ao menos, um hálito de anjo.
Eu a sentir o cocegar redondo do bico de um pião que nem existe senão na minha imaginação. Eu a tremelicar ao ritmo do seu rodar na palma da minha mão, eu que, como todos, presumo, não fui atenta, uma dia a seguir a todos os dias desta minha vida, aos pequenos gestos, aos pequenos objectos, ou que sejam eles imensos; desatenta do seu toque, do seu manusear; eles a encostarem-se-me, a executarem perante mim os seus trejeitos e eu alheia, ainda que a observá-los, ainda que a tocá-los; cada objecto a interagir como este meu corpo que estremece, o coração sobretudo, se o objecto ronca ou faz apito ou simplesmente é, como o pisa papéis, fresquinho e redondo e liso: tão lisos e suaves que são alguns objectos!
Tão suaves ao caírem no chão, e não é o caso, claro, do pisa papéis de vidro, nem do pião ao caírem num soalho, mas será, de qualquer um deles se embaterem no fofo de um édredon de penas; como será suave, ainda que jogado, o cair  dum lenço de seda seja onde seja que caia.
…e se o lenço de seda cair no fogo?!
E é para resposta a perguntas como esta, que eu duvido que haja cardamomo ou planta outra que me valha.
Mas vou conseguir, doa o que doa, que eu hei-de rememorar todos os sentires que tenho tido dos objectos mais díspares, e farei tão bem como se os tivesse em presença embora nem tendo deles mais do que a memória de como os tenho interagido.
Serei capaz de dizer, apenas com a fala do meu corpo: isto que tenho aqui na mão é uma agulha, uma tesoura, um prato, um alicate; e dizer de como é fofa a cama em que nem me deito; ou de como é alto o local do céu onde sobe o meu papagaio. 
Olhem, olhem que colorido!! exclamarei eu, apenas com os dizeres do corpo.
Olhem este redondo onde enrolo a guita que pego na mão esquerda, direi a fazer o gesto certo;  olhem como jogo o objecto pelo chão e o apanho, os dois dedos, o anelar e o do meio, afastados um do outro para que ele pule sobre a minha mão; olhem como rodopia, e como eu tenho cócegas e pisco os olhos dessa pura impressão!
Viram o meu pião?! serei eu de olhos esbugalhados, o pião a rodar apenas no meu imaginário, apenas no meu gesto que é, muito cá do fundo da minha alma, o grito que calo: viram este objecto que manuseio?!
Não viram coisíssima nenhuma e é esse o meu drama, o que me faz, até, num desespero, talvez numa esperança, apelar às propriedades milagrosas das plantas, lembrar-me, até, inopinada, do cardamomo.



sexta-feira, 15 de março de 2019

a tina


Diziam sempre como se fosse pedido ou reza; superstição que tivessem; e, se calhava dizerem-no num duo certeiro, riam silenciosas como tinham sido quase silenciosas as suas palavras. Aconteceu, hoje, elas dizendo, em uníssono: lá chegaremos, sem esforços de maior.
Duas mulheres descalças, como ela lhes pedira.
Duas mulheres que preparam cada uma seu jarro esguio e esmaltado.
Limpam-nos por fora e por dentro e irão, depois, enche-los de água.
Um ritual fatídico a cada segunda quinta-feira.
Enchem-nos com água tépida, até que transbordem.
Duas mulheres que sabem que ela já está na sala e tem a cobri-la um vestidinho de algodão, o corpo magro a ver-se-lhe no decote, nas cavas largas, na saia que lhe escorrega para o nível das virilhas, mal ela erguer um pé e a seguir o outro num vagar de rito.
Irá fazê-lo ao entrar na tina.
O mesmo vagar com que, depois, se irá ajoelhar, o vestidinho a desnudar-lhe o corpo muito mais do que a resguardá-lo.
As duas mulheres sabem e apressam-se a encher os jarros; e espreitam-na, a ela que fica uns instantes ajoelhada, o cabelo solto a ser sombra para o início das costas e pescoço, as mãos fincadas no rebordo da tina redonda.
As duas mulheres mal respiram a vê-la ir-se inclinando, a cabeça a descair-lhe sobre as omoplatas, o pescoço a dobrar-se-lhe num redondo tal como o resto do corpo.
Olham-lhe o corpo dobrado numa meia-lua a deixar salientes as cartilagens da laringe sob a pele tisnada e finíssima; a deixar apenas apercebidos os seios pequeninos na transparência da camisa.
As duas mulheres, que tinham criado o hábito de ficar a olhá-la, vinham, a cada segunda quinta-feira, num tão metódico cumprimento como era a ida que faziam à missa de domingo ou a confissão que não falhavam, quando chegava a Páscoa.
Entravam na sala apenas no momento exacto.
Uma sala enorme vazia de móveis e tapetes e espelhos; nada, a não ser o cortinado espesso que cobria a porta envidraçada que dava para marquise.
Entravam pouco depois de ela retirar, vagarosa, o roupão de flanela com que se cobria em dias de mais frio ou o outro de um tecido sedoso, se fazia canícula.
As duas mulheres sabem que ela chegou pela madrugada, e já acendeu, uma a uma, a miríade de velas que quase cobre o chão de ladrilhos; sabem que ela já foi buscar a tina de folha de Flandres e a colocou no meio da sala.
Uma tina onde o corpo dela cabe, perfeito, da ponta do dedo grande dos seus pés tamanho trinta e sete, ao finalzinho do osso redondo dos joelhos: o seu corpo magro ajoelhado no frio daquela lata, se é em estação de sol inclinado no firmamento, ou no fervente do metal aquecido de ficar exposto à luz que entra pela janela da marquise onde permanece pendurada de uma a outra segunda quinta-feira.
As duas mulheres sabem e aguardam.
Espreitam-na.
Vêem-na ajoelhada, as duas mãos agarrando a borda arredondada da tina num gesto intenso ainda que lasso, tal qual o seu corpo dobrado em meia-lua, os seios pequeninos a parecerem novelos que ela tivesse colocado sob a camisa apenas como enfeite, como brinquedo.
- Como desassossego - disse, um dia, uma das mulheres, e a outra assentiu sorrindo.
Ela dobrada na tina e era só então que as duas mulheres entravam, uma vinda da varanda e outra vinda da cozinha para que viessem, como ela dissera: entra cada uma de seu canto da sala.
E nenhuma das duas mulheres fazia um caminho linear, iam sim em zig-zagues curtinhos saltitando pelos intervalos das velas multicores.
Velas acesas rente aos ladrilhos, a cera que lhes escorria em lágrimas a lambuzar aquele chão já de si matizado de muitos tons de vermelho.
Algumas ateavam, por descuido, a ponta das túnicas singelas e longas, único aparato que cobria os corpos das duas mulheres.
Outras iam-se apagando dos salpicos de água, mas isso era só depois que as duas mulheres erguiam os jarros a deixar cair em jacto as águas tépidas com que os tinham enchido.
A água a cair sobre o corpo dela que se ia desdobrando, até que o líquido lhe caísse sobre o dorso esquálido, os jarros erguidos nas mãos das duas mulheres, e os cabelos dela a sombrearem-lhe o pescoço até que, com mãos rápidas, os afastasse; até que, com gestos languidos, mas precisos, os sacudisse, os dependurasse sobre o rosto, e a água, que sobejava em cada recipiente, escorresse num jacto estreito, quase doce, sobre o arco ossudo do pescoço e ela se fosse erguendo, erguendo, até ficar inteira, quase nua, encharcada no meio da tina, no meio da sala, e as duas mulheres saíssem, tão discretas como tinham entrado.




terça-feira, 12 de março de 2019

domingo, 10 de março de 2019

passos de palco


a gente pode enlouquecer de excesso
perder a razão por não saber o que fazer do que sobra
                                                                          e é tanto

do que fica por dizer depois de já ter dito
do que sobeja, aqui, e ali está faltando
do que escorre a pingar nas entrelinhas

séculos e mais séculos
gerações e outras gerações

tanta gente
tantos humores
tantos credos
tantas manhãs enevoadas e noites de lua cheia
tantos filhos e criados e namoros
e vestidos franzidos
e saias de riscas e casacos de quadrados
e cadelas cobertas por cães vadios
e gatas parindo
e a gente a gritar por socorro em caves escuras

tantos pesadelos mantidos em segredo
poços e guerras e camiões caídos
e gado
tanto gado morto
e vento
e tanto mar bramindo

a gente a seguir a linha do tempo
a gente a perceber esse ir passando de um a outro até ao mister de sermos, hoje, como nos vemos
apegados às coisas ou descuidados
tão loiros ou tão tisnados…
ou tão detestando alface…

podemos, sim, ensandecer de excesso
a qualquer instante,
em qualquer idade

como se a gente estivesse sempre a pisar um palco e cada tábua rangesse, muito baixo, a dardejar do que somos e é muito mais do que o passo que damos a querermos que seja elegante e leve…


sexta-feira, 1 de março de 2019

narcisos e outras flores


Chegamos hoje ao terceiro mês do ano.
Aí está a Primavera a anunciar-se em narcisos e outras flores e, ao menos por aqui, tem sido um inverno xoxo.
Não é de falta de frio que me queixo, mas uma chuva a sério tinha calhado.
Uma chuva que se visse. 
Um dia e outro e mais outro, as valetas escorrendo, as goteiras a pingarem que nem lágrimas de viúva e, nas vidraças das janelas, correrias de linhas de água a fazerem os sonhos das crianças: cobras transparentes, colares de alguma princesa...
- Rios de áfrica! - pensarias tu que lá estiveste
Uma chuva que caísse dias seguidos, mas que, no ent(ret)anto, lá pelo final de tarde, desse lugar a um sol doirando nuvens que fizessem tréguas, sossegadas da função de se abrirem em água.
Tardes de ter escampado. 
Haveríamos de aplicar o termo nesses dias de chuvada como era antigamente e, nas ruas, os guarda-chuva encalhariam uns nos outros: pedaços de pagodes chineses multicores deambulando, e os corpos agradecidos por não ficarem molhados até aos ossos.
Coisas que só acontecem em dias de invernos como deve.
Coisas que esquecemos com invernos defeituosos como está sendo este.
É que, não fosse o friozinho que se deu, e nem apreciaríamos a Primavera a rebentar em narcisos e mais flores...
E, ainda assim, foi um frio que se aconteceu quase só pelas noites que, pela hora do meio-dia, o sol fervia-nos no corpo, mesmo nos dias curtos, mesmo nos dias de raios de luz tão rasos que se diriam projectar-se na horizontal.
Já é hoje dia um de Março, o Carnaval por todo o lado, e nem um lamaçal. 
Nenhum pedaço de terreno onde enlamear umas botas ou onde as rodas do carro fizessem patinado.
Como hão-de crescer estas crianças sem saber o que é chegar a casa coberto de lama?!
O que é um inverno sem poder  dizer, o guarda-chuva na mão, dobrado, sem qualquer préstimo: acabei de apanhar uma casaca de água.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein