terça-feira, 7 de abril de 2020

…mesmo que eu jurasse sobre o livro dos livros…




O sol entrava pela janela, e tu estavas naquele canto de penumbra.
Percebi-te as mãos unidas sob o rosto.
Sempre assim dormiste, pensei, a debruçar-me sobre o teu corpo.
– Maria – chamei sem que te tocasse.
O médico tinha dito: todo o cuidado é pouco, e tinham-me vestido como se eu fosse em nave espacial voltear pelo espaço.
O silvo intermitente sibilava ao ritmo do que seria o teu respirar.
– Maria – chamei de novo.
Disse, mas tu não reagiste.
Nem uma sobrancelha arqueada, nem um torcer de boca, nem o pestanejar do único olho que me era visível.
Eu a olhar-te, assim, de perto, depois de dias e meses contigo tão longe, ao cimo da rua onde sempre morámos.
Não tivesse sido aquela mensagem, o que lá escreveste, e estaríamos, ainda, assim, longe, e tão perto.
Mas tu tinhas escrito: teste positivo, e tinhas enviado.
Eu a olhar para ti e a querer dizer: completam-se hoje duas semanas, vais curar-te; mas calei-me e disse, apenas: deixaram-me visitar-te.
Eu com medo que pensasses que tinha vindo sem que tivessem sabido.
Eu que, ao ler a mensagem, tinha sossegado, que tu eras demasiado jovem, demasiado saudável, e seria eu a querer alimentar uma certeza, eu que aprendia, nesse preciso instante, que uma certeza, ainda que pequena, é muito mais apaziguadora do que uma imensa esperança.
Eu que ainda não sabia que nesta vida nunca nada é em demasia.
Eu, agora, a olhar-te sem outro sentimento além do prazer do teu corpo tão pertinho do meu.
Eu a matar tanta saudade.
Que bela és, e tão menina, terei tido vontade de dizer-te, extasiada por tornar a olhar para ti sem que fosse do cimo da sacada e tu lá tão acima a acenar-me, ou dentro do carro em que passaste a caminho do que era agora estarmos aqui, e eu tão encantada como se fosse de chá e bolos este reencontro.
Voltei a chamar: Maria, atenta ao silvo que se apagava, lentamente.
– Maria – disse num grito, e debrucei-me tanto, que teria ficado a beijar-te, não fosse a farpela com que me tinham ataviado.
Maria, repeti, e tu olhaste, elegante, a caminhar para aquela luz que nem vinha da janela onde o sol teimava em brilhar, descarado de tanta Primavera.
Tu a olhar-me, e era como se voasses, e eram sons angelicais os que eu ouvia, trombetas e clarins, e tu a semelhar a perfeição dos seres celestes, tal e qual me tinham ensinado na catequese, nesse tempo em que em tudo acreditamos.

nunca iria contar
ninguém me iria crer, mesmo que eu jurasse sobre o livro dos livros

3 comentários:

Eng José A M Correia disse...

Boa, deste gostei! (Y) :)

Maria de Fátima disse...

Fixe.ainda bem.fico contente.

wind disse...

Dói e é belo ao mesmo tempo!
Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein