sexta-feira, 19 de setembro de 2008

féretro

Canastreiro de profissão e muito gosto. Fazia-os redondos e grandes, castanhos, de vime ou palma, com tampa e sem tampa e de muitos tamanhos. Fialho Bomdia de seu nome, sentava-se pelas tardes em frente à porta de casa, e desfiava pelos dedos entrançados que dariam ofertas em dia de anos ou um cesto de vindimar bem precisado.
Naquela tarde, a rua estava sem vida. Nem um menino jogando pião à espera de uma companhia, nem mãe catando lêndea em menina; nem sequer o cão Manhoso do Pimenta do forno. Vivalma. Fialho estranhou a calma dessa tarde. E não se enganara: eram apenas quase cinco.
Foi quando viu, deslizando lento como lagarta mole em muro a seguir a chuva: passava um funeral na transversal, quatro casas acima do poial onde ele entretecia palma.
Quem morreria que ninguém disse ao canastreiro?
Nem desandou dois passos para que percebesse quem ía a ser enterrado.
Mal vislumbrou o porte altivo da Cacilda envolta em negro: morrera o Angelino Torpes que a deixava viúva.
Morrera o seu colega de carteira que lhe roubara a mulher que teria sido da sua vida. Fialho Bomdia torceu a palha com esticão certo dos seus oitenta e muitos e encomendou o homem:
- Que cada torrão te pese, grande sacana.
E benzeu-se.


desenrolou mais palma para uma cestinha

3 comentários:

CNS disse...

Sente-se a rua sem vida. E o vime na mão.

Um beijo

mfc disse...

A gente não esquece!

wind disse...

Escritora a vingança serve-se fria:)
Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein