quinta-feira, 19 de junho de 2008

a cor dos livros


Tenho saudades dos livros que lia quando nem sabia que havia idades
Quando os livros, e era isso que eu sabia, tinham cor
Era uma cor que se sentia
As folhas e o de dentro, as letras, as frases
os mistérios, que eu nem ainda lia, saltavam coloridos

Como eu gostava de abrir cada um dos livros

E olhar os segredos das pessoas grandes
As marcas entre duas páginas, diziam:
espera-me que ainda vou descobrir o que tens guardado
Era o que eu julgava
Seria?

Sei que sentia um respeito grande por aquele pedaço
resto de um maço de tabaco
ou folha de árvore
ou um retrato entalado entre duas
páginas,
reservava apenas a uma pessoa o direito de descobrir o que vinha adiante
Quando retirada do espalmado em que ficara da manhã para a tarde
da tarde para noite, poucas horas, nunca vinte e quatro,
era o mundo saltando das páginas do livro
A pessoa crescida mergulhava na história e eu admirava, encantada
sentada no chão, quieta, muito calada, olhava quem assim lia
Mirava-lhe o mover da cabeça, o piscar ritmado de um olho,
o ir e vir dos dois de um canto ao outro
e o erguer ou baixar dos extremos da boca
Um sorriso, um descair de choro
O que seria preocupação, eu o pensava, que fazia acentuarem-se,
espessas, quase numa única, as duas sobrancelhas
Uma magia de que sinto saudades

Saudades das tardes em que eu ficava,
subida na cadeira da sala, espreitando os livros da estante
Pequenos uns, de lombadas grossas e tão grandes, outros
Precisava muito esforço para os retirar e colocar no tapete
Ficar a folheá-los

E a saudade que eu sinto do responder convicto
quando a mãe chamava para o almoço:
estou a ler, já vou.

Os livros tinham cor, sim
Uma cor vistosa que os cobria a todos
e foi essa cor que eu esqueci

11 comentários:

Mena G disse...

Não esqueceste, não.
A cor dos livros está toda aqui , na cor deste texto!

Anónimo disse...

Mais um texto onde não deixas de falar da tua mãe (que eu tão bem conheço e tanto admiro e que há muito não vejo - culpa minha)mesmo que seja só uma mínima referência.
Lindo como sempre!
Uma VELHA AMIGA.

Arion disse...

Lembro-me de gostar de estar constipado por 3 motivos: não ia à escola, tomava xaropes e pedia à minha mãe que me comprasse livros... Beijo!

wind disse...

Escritora uma descritiva e emocionante prosa.
Quem escreve assim, não esquece a cor dos livros:)
Beijos

Vieira Calado disse...

... "descobrir o que (há) tens guardado" dentro dos livros.
Assim as pessoas o fizessem!
Bjs

M. disse...

Belíssimo!

José António disse...

.

Olá,

Caí aqui por acaso e não me arrependo.
Estou com pouco tempo agora. Prometo voltar.

Estou no INSTANTES

[]

Z.

Paco disse...

os livros tinham cores? que ridículo. que falam, isso sim que eu bem os ouvia a falar uns com os outros nas estantes, agora cores???

Paradoxos disse...

Nem por lapso esquecerias amiga! Gostei deste e do com o qual participaste no Eremitério :-)

Humor Negro disse...

Vejo que o teu problema de daltonismo se agrava. Volto a lembrar-te que as páginas sempres foram brancas. As substâncias alucinógenas é que te faziam ver cores, ok?

Vieira Calado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein