quinta-feira, 4 de novembro de 2004

re/Composição

Aproximou-se. Um nadica só. Correram na direcção certa os dois olhos. Fechou um. O outro deixou-o apontado. Atingia, assim, mesmo no ponto certo. Lá onde queria ver o que via.

O que a ela mesmo mesmo lhe apetecia era gritar. gritar que a deixassem só. mais só do que aquele só que era todo estar todo companhia. aquele só que tanto lhe pedia. Gritar que a deixassem. não um dia. dois. uma semana. Gritar que a deixassem sempre. Que não lhe precisassem. Ou. se o sim. lho não pedissem. Que deslembrassem assim como em desastre que se diz amnésico. ficarem todos despensados dela. Gritar que não estava. encerrara. não para obras balanço remodelação. Não. não estava simplesmente. deixara um bilhete ou nem tal e partira. melhor seria assim - eles desconheciam dela que existia. Nem partida. Nem bilhete. Desconhecimento. Um atrás de tempo .Gritar neste momento era tão só o que lhe apetecia. Mas gritar não resolvia. Fingia. Fingia que via. Olhava.Uma luz. Que nada! O que via era o que supunha ver. No ponto em que assestara o olho só estava uma casa e dentro dela sentada na janela uma menina. Vestia um bibe. Em cada ombro do bibe ela vestia um folho. Ou era asa?

Chegou-se mais. O muro de cal amparou-lhe o corpo. Sentiu-lhe o frio. Sentiu mais. Sentiu o limite ali da aproximação. O muro limitava. O muro empurrava. Encostava e de resposta levava um empurrão. Era assim como se o muro estivesse a dizer daqui para baixo não.

Era! ela estava assim. apertada entre um muro e o resto. Mais. Ela estava numa caixa. Não. Não era uma caixa grande. Muito menos era uma caixa fechada. Nem. Nem de madeira ou metal ou material duro resistente ao abrir. Resistente ao sair de dentro que quer que fosse que lá estivesse. Não. Não caixa onde estava... entalada... dobrada. Essa era simples. Mole. cartão. nem isso. papelão. Entalada. nela estava. Sentia assim como se...se estivesse. Sabia que não estava. Pensava até. Que tinha as peças desencaixadas. Que, a sair, teria que se reconstruir. Um braço aqui, ali um dedo. .É. Se não se cuidasse, a ser assim, inda ficava o médio na ponta onde devia o mindinho estar. Devia ser lindo! É. Via. Só. Plena de vontade de gritar. Isso. Inda assim sorria só de se assim pensar...um mindinho no meio e nas pontas um médio e um polegar.

O olho dela entretanto olhava. E via a menina que estava. Sentada no parapeito da janela. Muito lá longe. Tanto que só com a ver de um olho lhe alcançava. Por isso passou a mão em cima. Tapou o outro. Agora via. Via mesmo bem.

Curioso! destas coisas que a vida tem! depois de tanto olhar com aquele olho que só queria ver e não gritar... gritar era ela que queria.
Depois do olho e do muro e da menina e do bibe...
Curioso...passou-lhe aquele apetecer de ir. Aquele querer que lhe esquecessem.
Até arrepiou de horror um nadica. Um pouco só.
Afinal estava apenas a olhar ao longe.


Lá muito muito tanto de longe estava a menina.
Agora sorria. Olhava. Via. Sorria... em vez de gritar...
E...curiosa vida.
Um choro levezinho suave quase doce escorreu...
Teimoso do choro escorreu daquele e também do outro olho.
Limpou na saia a mão molhada e ficou olhando a paisagem. Com um e também com o outro olho. Olhou com os dois olhos. Depois...sentou no muro a perna. Uma só.
Mais não precisava. E ficou pensando.

Curioso! agora sabia que pensava.
Pois. Pensou que iria... e depois viria... e seria sempre bom ir e vir.
Sempre saber que voltava.


Lá muito longe a luz que vestia de bibe a menina na janela da casa...
sumira devagar.

Ela nem dera por nada.



14 comentários:

OrCa disse...

Inquietante, SeiLá. Vim de lá mais abaixo, daqueles torneados de corpo, apelativos e tudo, e caio aqui num espaço placentário, cheio de introspecção e a noite que já vai tão avançada...

Nã, tenho de vir amanhã, mais sossegado ler esta tua Re/Composição, nem que seja só com um olho.

Entretanto, deixo-te um beijo, que não trouxe rosas...

bertus disse...

LINDO!!!
Desculpa não comentar a preceito mas tenho de sair. Recebi primeira missiva (há mais alguma?) e respondi na volta do correio sem qualquer informação negativa.
A morada continua a ser a mesma: baconfrancis@netcabo.pt
Beijinhos e intés!
(se esta morada não entrar diz-me, tá?

lique disse...

Texto difícil este, amiga! Difícil porque peregrinação por estados de alma e fases da vida, difícil porque nos atinge e difícil porque teu. Também como o OrCa eu li ontem à noite e acabei por não comentar, pensando que hoje de manhã a minha cabeça estaria mais fresca para dizer algo com jeito. Mas não sei se estará... Este desejo de gritar, o desejo de ser dispensada das necessidades dos outros, entendo-o completamente! Tal como o medo que esse desejo desperta. Quanto a estar dentro da caixa que facilmente se pode destruir mas que não destruimos por um sem número de razões... também sei e como! Então já te disse tudo. Beijão, mulher.

Micas disse...

A tua personagem fez me lembrar eu em certas alturas. às vezes apetece gritar, outras vezes ficar ou voar. E eu grito, às vezes sem gritar, e vou, ficando e ficando às vezes vou! magnifico este texto, para não variar. Beijinho

M.C. disse...

E, ai, que me dá tantas vezes a vontade de gritar...mas depois olho para a menina para lá do muro e vou calando, e ficando...quando a vontade é ir...sem bilhete sequer...uma nova vida talvez...ai esta lágrima que ias fazendo cair...e eu que não sou de choro facil!Admiro a tua escrita! Sim é verdade! E gostei deste teu grito silêncioso transformado palavra. Tocou cá dentro..Gostei pronto! beijinho

pipetobacco disse...

{ ... o aroma das palavras não se encontra no que se escreve, mas sim no saborear de quem as bebe © biquinha ... }

wind disse...

Rei este texto 3 vezes e continuo sem saber o que escrever, é muito intimista, toca-nos. Que coisa, o passarmos por estas situações, às vezes...beijos:)*

MWoman disse...

As "viagens" que nós fazemos quando certos estados de alma nos tomam de assalto! Mas, escritos assim desta forma única que tu tão bem sabes, ainda lhe dão uma carga maior!Excelente, seilá! Beijos e votos de um bom fds.

Tim Bora disse...

Começa e termina com resignação. Pelo meio um tímido assomo de coragem e a falta da audácia(?) necessária. E o muro ficou tão longe da janela. Vidas. Quanto à forma faço minhas as minhas palavras (outras anteriores). bfs

Anónimo disse...

Um conto iniciático, pejado de simbolismos...Magnífico! Bom fim de semana :-)
Dora
www.atrasdaporta.blogs.sapo.pt

antonio disse...

É esta a riqueza da poesia. Cada um "adapta" a si o que disse o poeta. Repara bem na quantidade de companheiros que afirmou: " Parecia que estavas a falar de mim"; Eu digo igualmente o mesmo, estas sensações já cá estiveram bastas vezes amiga.

Um abração do
Zecatelhado

Seila disse...

Eu tentar, tento!mas nunca vos agradeço do que sinto o suficiente! Um obrigada a todos

MJM disse...
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MJM disse...

Estarreci! Emburreci!
É destes vácuos que falo, quando falo em vácuos. Que estão assim cheios, de se arregalarem os olhos, o um e o outro.
Ai! Gritar me apetecia a mim, quando assim empequeneço! Ai, o que eu gosto de me sentir assim!!!
Remedalho-te!
Kiss, kiss! A escorrer-me de mim para o de ti

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein