na janela assomavam dois olhos a olhar de cima
- como está hoje dona cremilde? - diria eu se tivesse dito
ela podia ser isaura, natércia ou assunção, maria simplesmente
podia ter-me respondido
- não se mace, eu vou indo, estou bem obrigada
nunca ofereci
- trago-lhe uma fruta
nem sequer
- bom dia, boa tarde, como vai?
- está passando bem dona eduarda?
nada
nunca fizemos dois dedos de conversa e nem lhe soube o nome
nunca ousei perguntar
- quer que lhe traga alguma coisa?
que eu não proporia
- eu subo, abre?
cheiraria a mijo
- e o banho, quem lho dá?
não diria eu que não me competia
- coma coma: um dia destes vai morrer de fome
- e os sobrinhos?
não lhe fiz promessas nem lhe limpei choros
nem nunca mais tinha visto os olhos dela lá em cima
nem reparara que faltava a velha senhora na janela
hoje lembrei-me do sorriso que me sorriu como sorriria aos meninos dela
tinha sido um dia
uma vez apenas
só agora lembro