quarta-feira, 17 de junho de 2009

reuniões de avaliação

Era obrigada a estar inteira. Observavam-na. Solicitavam que dissesse. Esperavam que pensasse sobre o caso, que depois opinasse. Exigiam que escrevesse entre margens, que assinalasse naquele preciso canto antes do picotado. Pediam-lhe que não risse ou ao menos que o fizesse pouco e baixo. Ela pela metade ou nem isso. Ela a sentar-se e quanto mais o tempo escorria, mais ficava dela uma ínfima parcela: um terço, um quinto, apenas uma nesga dela que ouvisse dizer o importante: que terminara a coisa que a levara a estar ali sentada. Uma hora. Hora e meia. Papéis e desenhos. Ela discorria sobre o mundo: pensava no canário que piara de noite, na tartaruga. Pensava nos meninos sem pão e sem peúgas, sem colchão e sem manta. Pensava na fome que nunca lhe dava, mas que havia. E eles a dizerem: a tua nota para esta aluna… A dizerem sem pensarem em mais nada que na consecução da Irene a cada disciplina. Oito, dizias tu com a alma chorando e prometias que assim que pudesses mudavas este estado de coisas ou saías disto. E explicavas que ela fizera muitos progressos, que se esforçara muito, que era uma menina muito sensata e inteligente, mas… E deixavas de ouvir-te como não ouvias quase nada nessas reuniões. E nem nenhum deles ouvia o que quer que fosse a não ser que se derramasse tinta sobre um daqueles lençóis onde se podiam ler uma correnteza de números à frente de cada um dos nomes: Sílvia Maria Azevedo Dutra 12, 14, 14, 13, 12, 7, 14,18. Um perfil em que destoava o sete a matemática. Uma menina riscada do universo dos muito inteligentes. Ou a Irene Carreiro, apenas este o nome, que ela não sabia ao certo quem seria o pai, se aquele com quem a mãe vivia há coisa de um ano, se o que era progenitor do irmão mais velho, aquele irmão que morrera num acidente. A seguir ao seu nome, estava escrito o perfil de notas de que se salientava o doze por ser o único com dois algarismos. Doze a educação física, a única disciplina que ela adora, como dizia, roufenha e babosa, a directora de turma: apesar de ser gorda… ela gosta muito desta disciplina… E deixava no ar um perfume a creme dental de marca estranha: o meu marido é estomatologista doutorado em Roma. Palavras dela na sala de professores. Repetidas.
Tu não ouvias.
Não ouvias nem uns e nem os outros, ou ouvias todos de muito longe, como se estivesses num outro planeta em edição on-line.
Reuniões. E ela muito quieta, muito com ar de atenta, muito a nunca saber bem se seria aquela a nota…

4 comentários:

entremares disse...

E então, quando chegou a sua vez, ela exclamou, alto e bom som:
- 21!
Escândalo. O que era aquilo? A colega estava a dormir ou quê ?
- Como assim, colega ? Não percebi…
- 21. - repetiu ela, com energia redobrada
- Mas colega… está a brincar… e estamos todos cheios de pressa… qual é nota que tem para a Liliana ?
- Para a Liliana ? Ah… 7, dou-lhe sete.
- 7… muito bem… continuemos…

- Patrícia de Jesus, Matemática…
- 21 !
- Sinceramente, colega… veja se acorda… estamos aqui a tentar despachar isto e a colega não está a ajudar nada…
- Sim… ah, claro, claro… e de quem estamos nós a falar ?
- Da Patrícia…
- A Patrícia…. sim, já me lembro… a Patrícia… 7, dou-lhe sete.

- Nuno Ribeiro dos Santos… Matemática…
-21!
- Colega… ESTOU FARTO ! FARTO, FARTÍSSIMO. Pare de gozar connosco. Só porque lhe chamámos a atenção para não falar muito nas reuniões … não quer dizer que agora esteja aqui só a querer gozar connosco…
- Mas… está equivocado, senhor presidente…
- Equivocado ? Então porque está sempre para aí a berrar 21, de cada vez que chega a sua vez de dar uma nota ?
- Essa agora… então não sabe, senhor presidente ? Então estes alunos não são daquela turma do curso profissional ?
- São, sim… e o que tem isso a ver? Eu só lhe pedi a sua nota…
- Mas é claro, senhor presidente… mas é claro… e foi isso que eu lhe tenho estado a dar… Em matemática, a minha disciplina… eles fizeram o módulo 21… pode confirmar…

wind disse...

Caramba Escritora, está demais real!
Conheço muita gente assim:)
Muito bom!:)
Beijos

Paula Raposo disse...

Fantástico! Beijos.

Vasco Gamito disse...

Do que te livraste... ;)

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein