terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Francisco




Otília benze-se. Os dedos enluvados sobre o negro quase opaco da mantilha. Não verte lágrimas, nem treme, nem tem qualquer sentimento que não seja alívio.
É o funeral de Francisco, seu marido pelas leis da Igreja.


Francisco dissera, simplesmente, enquanto andava no jardim tratando as roseiras: “Eu e o Joaquim Maria vamos partir em viagem”. E rira-lhe um sorriso franco por baixo da aba larga do chapéu de palha.
Otília percebeu e nem foram necessárias mais palavras.
Partiriam no dia seguinte. Levou-os à estação.
Joaquim Maria debruçado no banco de trás, as pontas dos dedos tocando-lhe o pescoço: “Eu cuido bem dele”. Joaquim Maria, no Verão de há dois anos, bronzeado, sorridente, apaixonado. Ele e Francisco, cada um com a sua mala e ela dizendo: “Ele está muito doente, Joaquim Maria, tu não percebes?!”.
Otília viveu aquilo com um desconforto, que foi tomando contornos de angústia e tendia a prolongar-se. Mas houve um dia em que disse: "acabou-se" e partiu sem nem levar quase nada e sem trancar portas nem cerrar janelas.


Francisco nunca saberá que Joaquim Maria lhe trazia duas rosas colhidas ainda no orvalho da manhã. Não ouvirá o grito que é já quase mágoa entrando pela cozinha: “Porra, Francisco, que é isso?!!!”. Joaquim Maria que apanha do chão o objecto cortante, antes do desespero, antes de buscar-lhe a boca ainda não esfriada, antes que chegue o médico e diga, assim ou semelhante: “Sinto muito” estendendo a mão num cumprimento. Era preciso que fosse o médico a dizer: “Está morto”. Será preciso que chame o médico, que oficialize, que encerre uma esperança que baila como pétala em acrobacia num vento muito forte que é nem pulsar a veia no pescoço e nem os olhos dele terem viço.
Francisco, morto. Que venha, pois, o médico e faça o veredicto.
Só então Joaquim Maria subirá ao andar de cima e ficará a olhar o espelho num choro convulsivo, cada lágrima grossa por entre o sangue que lhe ficou na cara e lhe empapa o cabelo.
Ela estava enganada: ele chorará apenas aquelas lágrimas em frente do espelho. Um choro irrepetível que ele não há-de chorar outros, mesmo por detrás dos óculos muito escuros.
“Hás-de chorar muita lágrima” era o que Otília dizia, olhando-os, um e depois o outro, num desespero, os olhos marejados e o batom esborratado dos seus próprios choros. Era o que ela gritava balançando um dedo espetado em frente de Joaquim Maria e de Francisco naquele dia de eles irem no comboio, muito antes do dia, a semana passada, em que Francisco terá dito: “Ela é que sabia, Joaquim Maria” E terá acrescentado: “Regressamos hoje.” beijando-o num beijar estranho, que Joaquim Maria só agora entende.
Encontraram a porta da cozinha só no trinco.


Otília no cemitério, cerrada de preto, elegante na mantilha e nos sapatos de salto muito alto, tem os olhos cobertos por lentes muito escuras.
Como se fora coisa de terem feito ensaio, muito baixo, muito soluçante, ela e Joaquim Maria debruçam-se sobre a campa e murmuram: “Meu querido Francisco.” E é como se assim dissessem tudo sem dizerem demais, enquanto apertam, um do outro, as mãos enluvadas de negro.




5 comentários:

wind disse...

Escritora, gostei muito.
Beijos

Vasco Matos disse...

Escusado será falar-te nas "coisas" que este conto me invoca... Mas é assim mesmo, só depois se vê quem esteve quando era preciso e se os reconhecimentos passam para além das rejeições e das fachadas que se crê a sociedade esperar, mesmo que o sangue seja sangue do nosso sangue. Um grande beijo!

Bob disse...

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Bob disse...

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CNS disse...

Poucos tecem a aspereza da realidade com o toque macio das palavras certas. És uma dessas raras pessoas.

um beijo

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein