Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

A camélia



Maria Emília a entrar numa loja da Avenida.
A saia pregueada quase lhe tapa a perna bem torneada.
Arredondara, ela que fora esguia e magra. Ela aumentada de carnes na montra que a multiplica ao infinito. Dezenas de si multiplicadas por dezenas.
Não é a si que olha. Maria Emília olha as camélias prateadas. Flores de decorar vestidos.
Uma flor de enfeitar decotes.

Um adereço caricato se o tivesse ela naquela tarde em que saia do liceu com o caderno azul debaixo do braço. Estava fresco, e colocara por cima do vestido um casaquinho de malha vermelho, abotoado até junto do pescoço com uma fiada de botões pequeninos. Nenhuma camélia rematando nesse dia em que fez o exame. Distinção, estava escrito na pauta. E ela andando sem saber para onde: o mundo desabando e no entanto aquela nota grande. Não tinha camélia, então.
Nenhuma camélia que pudesse multiplicar-se em muitas, muitas flores, um mar de flores cada uma igual à flor que usou na noite do baile sobre o vestido azul. Um vestido de veludo com decote largo. Fizera-o a costureira que ia às quintas. “Para os arranjos”, era como dizia a sua mãe. Vinha sempre nesse dia, a menina Aninhas, duas fiadas de dentes pequeninos e uns óculos de míope, a costureira debruçava o nariz adunco sobre cada tecido. Foi ela que lhe fez o vestido que levou ao baile. O vestido de veludo a roçar-lhe os pés tinha uma camélia prateada enfeitando o decote. Uma flor de papel encerado com duas folhas verdes a servir de suporte a um fecho prateado em cabeça de alfinete.

A flor desdobrada em dezenas, centenas, talvez milhares, e outros tantos seios sobrando de decotes redondos e bicudos e quadrados, e Maria Emília olhando as mamas que nem eram as que ela levara ao baile do liceu, espreitando muito tímidas no decote do vestido. E nem naquele mar de flores havia uma camélia que fosse igual à que ela pusera nessa noite, indecisa entre a colocar no seio ou junto ao ombro.

Não ficara em nenhuma gaveta. Nem nos sacos que não couberam no fazer das malas.
No dia em que o navio apitou no porto, Maria Emília tinha-a pregada no vestido verde.
Nem pensava então que poderia não voltar.
Não mais tornar a ver o redondo da baía e nem mais cheirar o odor da terra e do corpo das gentes. “O cheiro do amor” – assim diria Maria Emília mais tarde. Disse apenas quando percebeu o que queria dizer essa interjeição. Já se lhe engordara a perna esguia, aquela que cruzava e descruzava, nos tempos de ser dia antes de uma coisa importante, como seja um exame ou ter sido pedida em casamento. Maria Emília fazendo listas de convidados, listas de presentes, sentada na mesma mesa de pau-preto em que decorava nomes, fazia intermináveis resumos, resolvia equações.
Dezenas, centenas de mesas com um mata-borrão cor-de-rosa no tampo e os cadernos da escola. E os convites em papel rosado com um rebordo doirado em volta.
Centenas, milhares de imagens, entre um mar de camélias.
Letras e mais letras; tintas azuis; riscos de vermelho sublinhando; páginas e páginas de coisas que esqueceu.
Caligrafias entre si tão diversas como o podem ser as suas pernas, agora, e nos tempos em que regressava das matinés de cinema e ficava dançando no quarto, nua em frente do espelho.
Letras redondas ou bicudas, todas elas a sua caligrafia.
E a camélia dependurada no decote de um vestido que nem é de veludo azul e nem é um vestido verde, mas tão só um vestido enfeitado com uma flor semelhante multiplicada em infinito pelas leis da Física.
Nunca mais ela a recordara.
A flor de papel encerado, multiplicando-se como numa sala de espelhos de uma qualquer tenda de feira.

E ela que não entra na loja.

Ela e a camélia no decote do vestido verde.
Ela e a camélia no veludo azul do vestido de baile.
Ela e o mata-borrão e a mesa de pau-preto e os cadernos e as letras que escreveu.
Ela e uma flor de laranjeira diluída na cor de um vestido de noiva.
Ela dizendo até um dia destes sem saber que era até para sempre.
Tudo muito antes de se lhe terem arredondado pernas e ancas e as maminhas que lhe saem ainda de decotes.

A ponta dianteira de um sapato envernizado, muito brilhante e muito encarnado, mil, duas mil biqueiras reflectidas. Maria Emília olha o bico de sapato vermelho que não faz parte da história, mas está por acaso na montra da loja onde ela vai entrar depois de um entretanto, menos que um segundo, mais fugaz que um instante, em que ela olha, para além do vidro, uma camélia que decora o vestido num manequim com olhos de safira.

Um passo, e o corpo de Maria Emília acciona o sensor. O vidro que se abre em duas metades. Ela a entrar na loja junto com um arrepio que é de sentir que a sua vida se cortou assim tal e qual. Um dia. A sua vida cortada em duas e uma delas abandonada lá num lugar tão longe, num lugar que não tem retorno.

Maria Emília ainda muito esbelta apesar dos anos, apesar dos quilos, sobretudo na anca e na barriga da perna.
Maria Emília em tarde de compras.
Maria Emília no interior da loja, pisa com o andar preciso do tacão das botas, aquele desassossego que foi ela a olhar através do vidro a camélia que enfeita o vestido na montra.


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12 comentários:

wind disse...

Escritora, belo conto com uma excelente descrição.
Beijos

wind disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luís Maia disse...

Quem sou eu para dizer que é magnífico este conto (não me atrevo a chamar-lhe post) ?

Apenas lhe digo que adorei é a minha primeira referência do ano.

Um abraço

Benó disse...

Acabei de comprar o teu livro. Já é tarde mas amanhã vou começar a lê-lo, devagar, para o saborear.

Um abraço.

CNS disse...

A tua Maria Emilia fez-me lembrar a toada deliciosa do Erico Veríssimo. Gostei mesmo,muito, muito!

Um beijo

Endrea T disse...

Olha a tua Maria Emília é quase a Emília que tem uma nova loja de Gourmet em Lagos, "1000 Sabores".
Quando comecei a ler o texto, as primeiras palavras fizeram-me lembrar ela...
Ainda não li "As papoilas" mas tenho a certeza de que vou gostar.
Parabéns.
Armindo

Nilson Barcelli disse...

Este conto não é dos meus preferidos de entre os que li teus, mas gostei.
Beijo.

Miguel Barroso disse...

Bom conto



Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

PoesiaMGD disse...

Uma escrita exímia! Parabéns!

Clara disse...

Mas que belíssimo texto! É simplesmente delicioso!

Beijinhos

Mateso disse...

Que dizer! A Emília dos tempos ,que se foram, porém a memória em palavras ritmadas ficou.
Parabéns!
Bj.

Eduardo Trindade disse...

Meus parabéns! Gostei desse conto, bem escrito e cheio de sensibilidade.
Todos nós temos algum tipo de camélia esquecido (ou não) em algum canto da lembrança, não é mesmo?
Abraços!

sitemeter

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"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
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