quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O funeral de meu avô


Somos quatro. O meu padrinho Borba, dobrado nos seus noventa e dois, a avó Virgília aparentando muito menos idade na sua figura vertical e seca. E minha mãe Marcela envolta em véus negros como convém a filha de um defunto.
Levamos meu avô a enterrar antes que desabe o temporal que se anuncia em nuvens negras e gordas debruçadas atrás dos cumes como bois na manjedoura.
Parece mais um encontro de assaltantes de tesouros, do que quatro entes que levam à última morada, o amigo, o marido, o pai.
É o funeral de meu avô Joaquim Maria, morto de velhice enquanto levava aos lábios, por sua própria mão, que nem tremer tremia, um calicezinho de aguardente.
Morreu ontem. Minha avó assim o disse.
Mal ele se dobrou falecido, derramando pela almofada o que restava no cálice que levara à boca junto com uns figos torrados e uma fatia de broa, minha avó fechou-lhe os olhos e atou-lhe um lenço, não fossem descaírem-lhe os queixos em feitio de riso, como já ela vira suceder a alguns mortos. Depois, vestiu-o sem que visse necessidade de chamar ajuda, com fato inteiro e camisa de colarinho engomado, e colocou-lhe o laço de cetim em volta do pescoço. Ainda lhe vestiu um colete a que retirou a corrente e o relógio, objectos que me irá doar, com alguma cerimónia, amanhã ao almoço. E deitou-o, erguendo-o a braços, no caixão que meu avô tinha construído deslizando a plaina na madeira com tanta perfeição quanto ele lhe afagara o corpo. Só ela conhecia a existência da urna que meu avô destinara a guardar-lhe os restos.
É um caixão de pinho com tábuas enceradas no tom castanho da terra que começa a ficar salpicada dos mesmos bagos grossos que fazem ricochete nas bordas do jazigo. Transportámo-lo, dois de cada lado, desde o carro de mula que ficou ali defronte, na entrada do cemitério.
A criadita, que minha mãe sempre traz consigo, acaba de abrir um largo guarda-sol com que a protege da chuva que começou em pingos. Juntamente conosco, essa criatura de avental imaculadamente branco, com um bordado igualzinho contornando cada bolso e debruando o decote, fará com que se diga que éramos cinco os acompanhantes no funeral de Joaquim Maria, meu avô.
Somos, pois, cinco pessoas em volta do jazigo.
E no entanto, para fazer com que a urna fique assente na pedra, e depois desça para dentro do buraco, estamos apenas, eu de um lado, e do outro, minha avó Virgília e meu padrinho Borba. Os três faremos descer a urna ao seu lugar, serviço para o qual minha avó dispensou o coveiro Inácio por entender que colocar a urna no jazigo é incumbência dos familiares. Inácio, ele também já entrado de idade, há-de recolocar a tampa de granito, a mesma que minha avó o incumbiu de retirar mal meu avô morreu, e neste momento está por terra e deixa este vácuo negro que é onde iremos colocar o caixão.
Minha mãe Marcela chora, em soluços estridentes, sentada numa cadeirinha que a criadita carrega para todo o lado.
Acabámos de colocar a urna na borda do jazigo. Seguramo-la, minha avó de um lado e eu do outro, com mãos escorregadias de chuva. O padrinho Borba senta-se no rebordo da campa e arfa a retomar o fôlego. A urna está desequilibrada, mal apoiada, enviesada sobre a cova. Minha avó segurando de um lado e eu do outro, rodamo-la de modo que a dimensão em que está estendido o corpo, fique paralela à parte mais longa do buraco.Tentámos uma vez e vamos tentar de novo. Fazemos movimentos de rodar a urna, de encontrar a posição ideal de descida. Lá dentro rebola o corpo. Oiço um baque surdo. Tremo. Quase desisto do intento de enterrar o morto. Minha avó parece que nem ouve. Velha danada de força e casmurra, enquanto a minha mãe se benze e chora o paizinho morto, e o meu padrinho arfa, ainda, do último esforço.Minha avó, encharcada da chuva que cai e enregela os ossos, olha-me como que a dizer-me o que eu vejo desde início. Também a ela já nao restam dúvidas: o caixão nao cabe, não entra no bocal da campa. O caixão que meu avô construiu, não tem posição de entrar no jazigo. Nem réstia de incerteza. Faltam ao buraco, ou melhor, mais dramático, sobram da caixa de madeira, uns dois centímetros. Um nadica de nada impede que a urna entre direita e vá assentar no fundo da cova, toda em granito. Nem que a gente a incline, nem que a gente a rode. Não tem como.
Minha avó arenga quase perdendo a compostura sob a água que já fez um pequeno lago em volta da cadeirinha em que minha mãe se benze, que acontecer uma coisa destas só pode ser por artes do demónio, e benze-se de novo, e de novo chora, e já nem é pelo pai que ela dá aqueles ais, mas de olhar as botinhas em verniz preto a enlamearem-se. E funga, a minha mãe Marcela, para dentro de um lencinho de cambraia com monograma bordado num cantinho.
E eu lembro-me que meu avô sempre dizia: “ é para merdas destas que servem os funerais!”
O padrinho Borba tem andado de um lado a outro, em redor da campa, incitando nas tentativas de colocar a urna no buraco: “Mais um bocadinho, inclina de cima, espera, vai, agora…”. Eu olho-o e parece-me que ele tem um ar de riso. Talvez que saiba algum segredo, alguma coisa que explique aquele mínimo excesso de comprimento, que meu avô nem precisava disso, podia até ter reduzido, que ele era bem baixote. Talvez o meu padrinho conheça um de propósito. Ou talvez ele nem tenha sorrido e o raio do comprimento tenha sido simplesmente engano. Mas conhecendo meu avô Joaquim Maria como o conheci, eu arrisco que talvez ele tenha querido evitar que o enterrássemos no jazigo de família, na mesma terra em que apodreceu Simão Bacamarte cujos afamados feitos meu avô dirimira em quadras e charlas e colunas de jornal.Minha avó ainda bate na tampa e empurra com os punhos numa tentativa inglória de enterrar o morto. Mas não tem modo de colocar a urna no buraco. E minha avó Virgília encosta-se ao caixão. É como a deixo enquanto caminho na ala principal do cemitério, ensopado até aos ossos, a buscar ferramenta que ajude a alargar o jazigo, a fazer que a caixa possa ser depositada lá dentro. E no entanto, não é um ar de desalento o que minha avó transmite. O que lhe vejo, o que trago de ali ainda nem há bocado, é o ar de quem participa num grande gozo.
O céu abre uma nesga de azul por entre as nuvens e pára de chover.Troveja muito ao longe, mas não se ouve mais ruído que a pedra cedendo à picareta que eu aplico. Minha avó Virgília envia a filha e a criada para casa, junto com meu padrinho Borba. De novo, entrevejo o tal sorriso dependurado nas pontas finas do bigode.Talvez eu esteja vendo coisas.
E enquanto a pedra do jazigo vai cedendo, tenho ganas de levantar a tampa da maldita caixa com mais comprimento do que deve. Aquela coisa que é mais caixote que urna, colocada agora ali na lama. O que eu gostava de lhe abrir a tampa só para tirar dúvidas. Só para que não me fique a incerteza no futuro. Mas falta-me coragem para o intento sob o olhar arguto de minha avó Virgília.
Ficarei sem saber se o meu avô está dentro da caixa de madeira ou se o ruído de corpo rebolando, não seriam antes meia dúzia de tábuas, ou serradura em sacos. Fica-me esta dúvida bailando junto com os sorrisos que cuidei ver nas caras de minha avó e meu padrinho Borba.
Nunca ficarei sabendo se abrindo a caixa ali depositada enquanto eu zurzo a pedra em golpes certos, encontraria meu avô a sorrir com o ar de gozo, que lhe era costumeiro, em mais uma partida bem pregada. Nunca saberei, nem depois de tanto esforço em afeiçoar a pedra do jazigo ao comprimento que ele deu à sua urna, se este é mesmo o seu enterro.
Eu continuo martelando até que caiba o caixotinho.
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
É assim que conto, num escrito, o enterro de meu avô Joaquim Maria. Seria hoje seu centenário. Comemoram isso nesta sala.
Perguntam-me:
- Senhor Professor, o senhor acha que Joaquim Maria morreu ou dele ainda podemos esperar que nos encha de ensinamentos, nos entretenha com larachas?
E eu digo, no tom calmo que herdei dele:
- Não morreu, não. Meu avô fugiu antes que o apanhassem para o enterro.
E a assembleia sorri sob um ventinho de ironia que por ali esvoaça e eu sei que é o espírito do meu avô Joaquim Maria. Aquele que não coube no jazigo.

18 comentários:

Anónimo disse...

Excelente !

Vasco Matos disse...

Eu bem sei como é que é essa história de meter caixões em jazigos! Ainda estou para saber como é que me consegui enfiar entre o caixão do meu avô e a prateleira de pedra para encaixar na dita o caixão da minha avó paterna, acabada de falecer. Já para não falar do aspecto de terem que ir forrados a chumbo, os caixões, e pesarem como o caraças! Um copinho de aguardente bebi eu depois, não havia era figos. Beijo, menina!

Luís Maia disse...

lembrei de lhe endereçar um convite que me fizeram e que achei engraçado, mais passa tempo que outra coisa e que tem o aliciante de desafiar quem nos lê a ver se nos conhece um bocadinho

wind disse...

Escritora, soltei umas boas gargalhadas:)
Beijos

sissi disse...

Lindo conto, até ri mesmo sem ter grande vontade.
Beijo

Sofá Amarelo disse...

Um texto como há muito não lia aqui na blogosfera - uma descrição completa, real, condimentada com as pequenas coisa que fazem a vida e a... morte!

Certo é que quando se perde um ascendente é um pouco de nós próprios que se vai também, mas aquilo que conhecemos como Vida segue os seus trâmites independentemente da nossa vontade!

Parabéns pelo texto e pela dádiva das palavras!

MRF disse...

Isto é trama de Brás Cubas. Terá o teu avô conhecido o personagem? Imaginei os dois quebrados a rir, sentados por ali no cemitério. E o neto tem razão: deve mesmo ter fugido! :)

Eduardo P.L disse...

Muito bom o texto. Apesar de um tema triste e delicado, o humor e respeito como foi tratado deu um colorido impar! Por que não coloca-o no blog Quem conta um conto...???

heretico disse...

bem sei (de tempos idos) que és uma escritora talentosa. que admiro. muito...

este texto de humor é um hino à inteligência e a arte de dizer...

beijo

OrCa disse...

E porque houvera um velho avô, daqueles que sempre soube da vida o gosto, ser enterrado assim como quem enterra outra pessoa qualquer, mais lamúria, menos choraminguice?

De um homem tão meticuloso que até artefaz o seu último sobretudo, há que esperar tudo, até que meça mais a urna que o buraco onde ela se meta.

Imagino o gozo que lhe deve ter dado o congeminar de tal atribulação, antecipando o feito que só poderia vir a ficar nos anais da família, ajudando a conservar a sua memória sempre viva...

Com o colorido que tão bem sabes dar... Uma história de vida, afinal. Mais palavras para quê?

Beijos.

Kaos disse...

Parabéns por um belo conto bem escrito e bem contado.

Mateso disse...

O macabro tornado cómico... O tétrico supesado em ironia.
Muito bom, como sempre.
Bj.

Mateso disse...

"Depois vesti-o" apenas uma gralha vestiu-o.(É a avó que o veste, não é?)
Este é para apagar.Desculpa a correcção, porém o conto é tão bom que não merece uma gralhita.
um Beijo.

Mateso disse...

"Depois vesti-o" apenas uma gralha vestiu-o.(É a avó que o veste, não é?)
Este é para apagar.Desculpa a correcção, porém o conto é tão bom que não merece uma gralhita.
um Beijo.

Marques Correia disse...

Menina, respondo-te no blog e não no mail. Acho uma estória muito gira e bem escrita e não me parece ter nada do género da tipa que se suicida (ou tenta...) deitando-se do 1º andar para a relva.
Parece-me que já o tinha lido, ou já terias publicado outro conto com os mesmos personagens?

CNS disse...

Muito, muito bom. Cheio de cor, ironia.

um beijo

Ana Paula disse...

Adorei partilhar a situação tão solene e caricata.

Bem escrito, com muito ritmo e suspense.

Ironias da vida. Há gente que se recusa a morrer! :)

bettips disse...

É na verdade uma ironia e argúcia tua, de encontrar o riso no trágico.
Se pediste a minha opinião, é muito interessante este deslizar/escrever.
Abç

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein