terça-feira, 27 de maio de 2008

pé de cidreira

ele a resvalar-me dos dedos, a escorregar devagarinho; os cabelos, que os tinha grisalhos apenas um pouquinho, a afagar-me os joelhos dobrados de estar ali sentada, junto a ele; descaiu-lhe um braço, depois o corpo inteiro; e eu a amparar, a segurar um ombro, o dorso emagrecido; e eu nem um socorro, nem um grito, nem o chamar António, pronunciar-lhe o nome; eu silenciada como se fosse esta uma sua vontade: jazer-se ele na terra; a terra que ele amava: sempre o chapéu de palha a proteger-lhe o rosto, de roda de alfaces e de couves; tão encovado que ele tinha o rosto que fora bochechudo: ele era farto de carnes que vestia de trajes largos e de cores bem claras; e eu amparando: que se descesse ele dali, que fugisse; a terra ficara esburacada no canto junto à macieira; ele dissera “quando voltar planto esse pé de cidreira”; mas ele ainda não voltara e a terra enchera-se de água no Inverno e na Primavera; eu segurando para que ele olhasse o azul da minha camisola como se fora o céu de lá de fora, um céu de Junho; vestira-a num acaso, “venha depressa” foi o que disseram, e eu meti pelo pescoço aquela que era de um azul de céu; e a coxa dele, despida de pijama, tão branca e magra, e o verde do lençol pendendo sob o corpo como se fora o verde de uma relva; e eu debruçada nele, imensamente perto, a desejar-lhe um bafo que seria fraco, muito lento e arfante, como vento que soprasse em greta de porta velha de monte abandonado; e o vento que abrandou: parou o vento de soprar-me o rosto; escondeu-se nos meus dedos o verde dos seus olhos, a cor que debruçava nos papéis, às tardes, na mesa redonda debaixo do salgueiro, junto ao lago: escrevia versos.

plantaremos o pé de cidreira no Outono

8 comentários:

Licínia Quitério disse...

Menina! Arrasaste-me...

Assim se escreve. Assim se sente.

Um abraço.

mac disse...

Transmissão de pensamento?

Bj

EDUARDO disse...

tocaste-me estimada amiga :-)

fundo!

beijinho...

Pilantra disse...

Que se plante o pé de cidreira no Outono!

Abraço!

wind disse...

Escritora, uma prosa forte em emoções!
Beijos

CNS disse...

Emudecedor. De tão intenso.

um beijo

Mena G disse...

Se comentasse, diria que me repetia nas palavras. Se comentasse, diria que me fica o cheiro das palavras (elevadas ao seu exponente...), o perfume diferente dessa erva que descreveste tão bem sentida.

M. disse...

Fabuloso!

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein