quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Em um Natal

Encostou-se na cadeira. Desligou o rádio que sentiu a vinha irritando com anúncios e música gritada por uma voz aguda de mulher. Em cima da mesa tinha folhas de papel e uma esferográfica azul que não usava há muito. Alisou num gesto automático as folhas. Sob a palma da mão, uma das folhas deslizou sobre as outras e ficou em bico como uma vela de barco. Retirou devagar a tampa da esferográfica e colocou-a ao lado das folhas. Sentiu o frio do plástico entre o dedo indicador e o médio, logo seguido de uma pressão que esquecera, ou quase, ser comum no gesto de escrever. Sobre a folha branca, as letras foram surgindo como uma renda. Anoiteceu e as folhas estavam amontoadas, escritas de um e outro lado. Levantou-se e, esfregando as mãos uma na outra, desdobrou o corpo com dificuldade para a posição vertical. Ergueu os braços acima da cabeça e esticou o corpo para trás tanto quanto podia. Acendeu o candeeiro sobre a mesa e fechou as portadas de madeira da janela que, até há pouco, tinha sido a fonte da luz sob a qual escrevera sem parar durante quatro horas. Sentiu-se cansada, com fome e sede, mas desprendida, quase uma sensação de não pertencer a local nenhum, de estar a planar. Desceu a escada para a cozinha arrimada ao corrimão de madeira num hábito velho de assim descer aquela escada. A escuridão da cozinha desfez-se quando, mal colocou os pés no chão de tijoleira de quadrados vermelhos, ligou o interruptor. A chaleira eléctrica, encheu-a de água e ligou-a sem atenção aos gestos que fazia. O ruído da água apanhou-a de surpresa encostada à bancada de madeira onde ficara rememorando. Encheu a caneca com água fervendo sobre folhas frescas de uma planta que tinha no jardim. Foi bebendo em goles miúdos sempre com as mãos envolvendo o bojo quente. Sentou-se no banco alto e apoiou os cotovelos. Vista dali, a cozinha parecia muito ampla. Para lá da bancada, a mesa de castanho rodeada de seis cadeiras de espaldar e o aparador encimado pelo conjunto de pratos e as três aguarelas com motivos de caça que o André pintara. Mais junto da bancada, a lareira, que hoje não acendera, ladeada pelos dois bancos de pedra amaciados de almofadas de ramagens e pelos maples de veludo amarelo.
Era Natal. A cozinha, como o resto da casa, nada tinha que fizesse lembrar essa quadra festiva. Desviara-se dessas tradições e só a noite de Consoada ainda passava em casa do filho mais novo que os outros dois fizeram vida do outro lado do Oceano e raramente faziam do Natal época de regresso.
Nessa tarde, decidira escrever com uma esferográfica até que as palavras parassem de se soltar sobre a folha de papel. Nessa tarde, em que lhe acontecera encontrar aquele velho na porta da casa onde morara. Uma casa envelhecida e abandonada. Uma casa que ninguém se decidia deitar abaixo e ia morrendo de feridas e velhice. Tal como eu, pensara muitas vezes. Fizera nela a gravidez do filho mais velho. Nela o parira. E, de seguida, o segundo. Muito mais tarde, a casa vira-a ainda cerrar os dentes e respirar compassado para colocar no mundo o mais novo. Já então André andava de olhos verde água em solilóquios que sempre lhe pareciam ausência de artista. A mudança para a espaçosa casa que o tio lhe deixara como sobrinha única, foi mais tarde, já os meninos mais velhos eram andados de escola e o pequenito falava com correcção.
Hoje, encontrara aquele velho. Um homem andrajoso, de barba grande e suja. Passara rente a ele sentado no degrau da escada que em tempos dera acesso ao quintal da casa.
E o velho olhou-a com uns olhos de lago verde.
Aqueles olhos não deviam existir olhando assim, pensou.
Depois, andou esfalfando-se por respirar de modo controlado, por esquecer aqueles olhos muito verdes olhando-a. Era como se todos os olhos cor de verde lago se tivessem apostado em olhá-la naquele degrau da sua primeira casa.
Já ao volante do carro e aquela indisposição continuava. Dirigiu para casa. Precisava escrever. Precisava relembrar. Precisava recapitular. Precisava deixar-se ouvir, deixar-se explicar.
E só há pouco parara. E apenas porque lhe entorpeceram as mãos e porque as costas começaram a consolidar na posição de sentada. Iria recomeçar, sempre escrevendo com a caneta azul, esferográfica, sobre folhas de papel branco sem linhas. Sempre dizendo, com as palavras que escorregavam da ponta da esferográfica para o papel, coisas que ela supunha, ou queria, esquecidas e que naquela tarde lhe tinham aparecido como pequenas feridas que voltassem a abrir do que só aparentemente eram cicatrizes.
E tinha escrito, lembra, enquanto abre sobre a caneca esgotada de chá, um jacto de água da torneira:
Não tinhas a idade deste, decerto, mas usavas esta barba, lavada, sim, mas desalinhada e encanecida. E gostavas de te sentar naquele degrau nas tardes de Inverno, como esta, ouvindo a cidade grande lá ao fundo e enrolando os teus cigarros na caixinha de lata. Não tinhas a idade deste, e nem sequer eras velho, mas atarantava-se-te o saber de ti e dos outros e olhavas-nos com olhos de água verde. E sorrias.
Foi subindo as escadas e, já sentada, a caneta sem tampa pronta a continuar, leu o final do escrito.
As luzes da Árvore de Natal piscavam. Apenas elas iluminavam a sala. Teriam sido elas quem colocou uma luz diferente no verde dos teus olhos de água? Foi nesse Natal que te perdi. A ti e a esse olhar cujo pedido nunca soube entender. Será que não entendi, ou ele não tinha explicação? Nada mais a fazer, do que ver que te levavam para que as luzes da Árvore de Natal pudessem continuar a brilhar?
Nunca percebi. Melhor. Nunca quis responder. Esqueci de entender. Desejei-o hoje em que vi os mesmos olhos, olhos cor de verde lago. Hoje, que era também noite de Natal e eram uns olhos água verdes sentados no degrau em que te sentavas. E eu lembrava, mesmo quando esquecia, que saíras por essa porta num fim de tarde de um Natal, porque os teus olhos verde água brilhavam mais e eu não sabia entender senão que as luzes da árvore de Natal não brilhavam. Nunca mais brilharam depois que te levaram pela porta do degrau em que gostavas de ficar sentado desde sempre, mesmo quando eu ainda não apercebia que o teu olhar era muito mais do que um olhar verde água.
Era muito tarde quando espalhou as letras da última palavra. Tapou a caneta e arrumou as folhas. Pensou que,ainda assim, nem percebera, nem se perdoara. Chorou enquanto se despia e já deitada.





9 comentários:

wind disse...

Escritora, magnífico conto cheio de lugares visualizados, sentires, cores.
Excelente!:)
beijos

Poemas de amor e dor disse...

Belo, muito belo como sempre.
Feliz 2007
Rogério Simões

segurademim disse...

... é tempo de virar a página

BOM ANO NOVO

beijo e abraço apertado

legivel disse...

... uma bela história de natal escrita a esferográfica(?!)...

... a imagem do Francis Bacon diz-me qualquer coisa. No dia 27/12 passaram-se três anos desde que cheguei aos blogs. Como é que não hei-de estar velho...

Óptimo ano para ti também! Abraço.

OrCa disse...

Magnífico desenho escrito a esferográfica. Aquelas mãos em concha envolvendo o bojo quente deixam chegar-nos o conforto caloroso e necessário de humanidade...

Que queres que te diga? Gostei muito, porra! Tens aqui um argumento para um filme... Mas tens, aqui, seguramente, um enlevo verde-água que muito me apraz que tenhas partilhado connosco.

Um ano pleno das mais felizes realizações. E um beijo.

BlueShell disse...

Um 2007 abençoado, pleno de saúde e Paz
BShell e um ENORME BEIJO AZUL!

Anónimo disse...

Um SUPER 2007 repleto de ventura, saúde e Paz! Beijinho

Anónimo disse...

Continuas igual a ti própria, numa escrita de emoções que nos envolve do princípio ao fim.
Bom 2007! Beijos

augustoM disse...

Um Bom Ano Novo.
Um abraço. Augusto

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein