terça-feira, 3 de outubro de 2006

mãos

Olhei as palmas das minhas duas mãos que me pareceram as folhas de uma planta. Olhei uma e de seguida a outra, num movimentar apenas os olhos por sobre cada uma. Olhei-as percorrendo cada linha que as recorta.
Deixei-me sentir como se percorrera uma aldeia de ruas mal delineadas, mas cheio de razão de ser cada traçado. Porque era onde vivia a Maria do prior, porque era a casa da mãe do regedor. A rua da igreja bem ao meio e ao fundo, em traçado de terra mal calcada, a rua onde morava a gente, o povo todo.
Estive olhando as minhas mãos num deixar que o tempo nem eu mais o sentisse e apenas me quisesse entretecer no inquirir se ali, em cada mão, por um qualquer acaso, eu me veria. Nem senti esmorecer a luz do dia, não fora uma leve sombra que teimou em aconchegar-se no côncavo de uma das minhas mãos que eu tinha mais virada de costas para a porta da cozinha. Podia dizer que fiquei com respostas sobre quem sou, depois deste observar demorado das palmas das duas e de cada uma das minhas mãos, mas não! O que percebi, e disso guardo eu como lição, foi que não tenho calos. Os dedos estão-me finos, delicados na pele sem maus tratos de terras, tintas, roupas sujas, dejectos. Mas mais eu percebi na demorada observação. Quem as pegou de jeito? Digo eu: quem amou, cada uma por si e as duas, as minhas mãos? Fiquei de me dar um dia uma resposta, mas senti que era preciso demorar, por claro me parecer que nem me podia ainda aventurar nesse confronto com a resposta verdadeira. Quem as amara? E fui devagarinho enrolando os dedos sem força. Apenas aconchegando a palmas das minhas mãos no interior de uma caixinha de mimos e segredos. Depois, entrelacei os dedos de uma na outra, cruzados os polegares como quem reza. E assim fiquei com as mãos no colo olhando a luz da lua que entretanto aparecera. Foram longos os caminhos que me deixei percorrer pelos confins de um eu que me julguei perdido. Eram suaves os passos que dava em ruas, em cidades, em casas. Pior mesmo era entrar nos lugares, olhá-los. Mais difícil, eu nem tal pensava, andar reatando amizades, revendo gente. Entrando, como se nada fosse, na época em que tal ou tal acontecera.
Percebi que podiam passar muitas luas. Podia eu abrir as minhas mãos vezes sem conta, as palmas viradas, tal qual contei, num quase leque, e mirá-las. Podia encontrar outras mãos, ainda assim as minhas, plenas de rugas. Mas podia eu ainda assim responder de pleno à pergunta quem sou?
Entendi que não.
Hoje tenho as mãos em concha no regaço, pedindo apenas perceber porque estou aqui.
Irei abrir, talvez, a caixa de Pandora, mas poderei um dia, nas enrugadas mãos que serão as minhas, ver, para além das linhas, minha alma, eu, radiante e lisa cantando, sem nunca deixar passar a luz de um só entardecer!

10 comentários:

wind disse...

Escritora, será que algum dia saberemos quem somos?
Mais uma prosa em que me deixas o coração apertado:)
beijos

Maria Alfacinha disse...

"Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar"
(excerto do Fado Falado, imortalizado por Villaret)

As coisas que me fazes lembrar...
Beijo garnde

legivel disse...

... é um óptimo exercício, o de analisarmos de quando em vez as nossas mãos...

... que por elas passam pessoas e coisas que preenchem o filme da nossa existência.

bom feriado!

BlueShell disse...

Já tinha saudades de te ler!!!
Beijo azul desses que só conchas azuis podem dar!
BlueShell

Unicus disse...

Um excelente exercício de intelectualidade mas sobretudo de bem escrever e descrever. Há a um tempo, força e harmonia em cada palavra. As mãos quase sempre associadas aos pequenos/grandes gestos, nem sempre têm o destaque que efectivamente merecem. Amaram, acarinharam, escreveram, e realizaram que merecem o texto belissimo que acabo de ler.
Um dia bom

augustoM disse...

Olhar as mãos para ver o futuro, não me parece um bom exercício, é demasiado egoísta, mas ver nas mãos o desfilar do nosso passado, é exercitar a nossa consciência.
Um abraço. Augusto

Marcelha disse...

Lindo, me fez refletir...
Querida, sinto muitas saudades, será que posso lhe escrever e-mails como outrora?
Beijos no coração.
Ah! quando puder dê um pulinho no meu canto, queria dividir contigo meu ultimo post. Adoro você!

Anónimo disse...

Maria
Cá vai a minha pensadura, subitamente despoletada: parece-me certo que a alma não está nas rugas da mão; não está na vida que temos e muito menos em quem nos ama, com mãos ou sem elas; não está nos sonhos que sonhámos, nem nas realidades que construímos... Népias, não está em nenhum desses locais, já procurei.
Estará talvez onde não estamos, proporcionando o equilíbrio instável mas essencial - se a encontrarmos, é porque não é ela.
E fica a saudade eterna daquilo que sendo nós, por isso mesmo não se pode encontrar connosco.
Quando olhei para as palmas das minhas mãos, pensei: - Seria eu capaz de as reconhecer, no meio de pilhas de mão anónimas, sem corpo, decepadas por sabe-se lá que idéias loucas e sem freio?
Na verdade, duvido. E se nem as minhas mãos reconheceria, como seria possível reconhecer a minha alma, que nunca vi?!?

sonia disse...

Tão bonito este teu texto. E eu que não tenho por hábito olhar as minhas mãos, com medo duma linha da vida demasiado curta....
Beijinhos grandes

pedro alex disse...

Entrar numa casa pela primeira vez causa-me sempre alguma timidez. Não na forma como comunico, traiçoeiramente poderia deixar-me sem palavras, mas simplesmente por ser a primeira vez.
Demorei um pouco a ler o “Repensando”, devagarinho, com um cigarro aqui e ali, quase sempre de noite quando estou mais desperto para a leitura.
Hoje cheguei ao fim, saciado.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein