sexta-feira, 29 de setembro de 2006

sem imagem

Estou sentada junto a um muro tosco de pedras mal encostadas entre si por alguma mão
O muro separa duas leiras de terra num terreno inclinado que acaba lá em baixo na estrada classificada como hoje se usa, com letras e números A2, B23 e esse tipo de associação
A estrada é-me invisível pelas copas das oliveiras e amendoeiras que descem até ao alcatroado
Oiço os carros num zum zum aflito, digo eu que o seja
O barulho dos carros incomoda-me, corta o resto que é só silêncio
Estou sentada com a cabeça encostada ao muro, mesmo no local onde florescem miúdas flores vermelhas de chorões
Noto que preciso de um abafo pois me arrepio
Noto que o sol está coado do cinzento de nuvens aguadeiras
Não sei saber se é muito de manhã ou quase noite
Não sei porque me sentei aqui
Sei que não quero levantar-me nem para buscar uma camisola
Não sei sequer saber que preciso de uma camisola para aquele frio
Não percebo porque estou sozinha
Não sei se me encontro aqui há muito tempo
E agora já não sei saber mesmo mais nada
Eles chegaram!
Aparecem sempre assim de rompante
Atrás do muro estão enfileirados três rapazes armados de pistolas e disparam para uma multidão que apenas passa sem lhes ligar nada e morrem , oiço os tiros, vejo as caras torcidas em esgares de quase morte
Na zona onde começam as oliveiras, um homem de colete explode num comboio
Debaixo da amendoeira que florirá de flor branca quando for Janeiro, o papa fala a uma horda de gente que grita
No local da nora velha, morre um poeta e um presidente de uma nação civilizada envia a sua juventude para mais uma guerra
Continuo encostada, sem mais que uma tristeza e frio, sim, muito frio que deve ser já madrugada
Na estrada, já só escuro igual ao resto, apontam-me uma arma e fico azul nos olhos que olham
azul ou verde ou da minha cor, deixei de estar escondida pela noite
Avançam dois carros,
e as oliveiras que o meu pai plantou torcem-se de dor, esmagadas
Admiro que não tenha medo
Entretanto, ali ao lado, onde nasceram ainda há pouco, de duas podas, outras tantas laranjeiras, um corpo cai lento, muito lento de um prédio que arde muio, muito lá no alto
O carro desapareceu em uma mina, e dois rapazes, ou serão meninos, estão caidos debaixo de uma oliveira, meio abraçados, mortos
Continuo sentada, mas deixei de me encostar ao muro, encolhi-me sobre mim por causa do frio e porque vejo melhor
Por debaixo da figueira velha, como sempre lhe chamei, o homem da rulote entra impune na sala do liceu, a menina morta ali à minha frente e o guarda relatando
Por cima e por baixo desta cena estão uma série de semelhantes outras, muitas, que a desfocam
Eu desvio os olhos ou choro, nem sei eu, tal o frio que tenho
Hoje vieram quase todos, penso
e acrescento que deve ser de haver mais espaço aqui que lá em casa, mas tenho tanto frio
Vou perceber como aqui cheguei
E, de repente, mal me levantei, ficou escuro, muito, muito escuro e eu tenho tanto medo, tanto medo de estar sem as luzes!

6 comentários:

Bloody Mary disse...

que hei-de dizer... sou uma capricorniana atípica... tinha deixado uma resposta no meu blog, mas não sei se lá iria outra vez!!!! ;)
Está assim tão mau? Era para ter vida!!!!

wind disse...

Escritora, excelente relato do que se passa neste momento:a guerra, terrorismo, mortes suicidas, assassínios, tudo a par de uma magnífica comparação da calma ,de uma suponho que quinta, e que acaba com o acordar de um sonho, mas que também não é sonho, é a realidade.
Desculpa este meu escrever complicado, mas não sou Escritora como tu:)
beijos

Unicus disse...

Andei a ler-te blog abaixo e fiquei com a certeza de que tens uma escrita fantástica. Belissima, devo dizer.

Maria Alfacinha disse...

Tão tristes estas tuas palavras.
Fizeste-me sentir o teu frio...

Beijo grande

Armando disse...

Ops... já cá não vinha há alguns diazitos mas... encontrei um enorme "espolio" para ler!! E como sempre ADOREI!! Textos lindissimos estes ultimos que li!! (sempre com a inspiração em alta, o segredo será os ares algarvios??)

Humor Negro disse...

Olá carissima,
Como vão as coisas nesse lado do planeta? Quantas rotundas apareceram aí desde a nossa última conversa? E quantos semáforos?
Beijocas ;-)

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein