quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Silêncio maior

foto de: Rui Guerra (the night i was going to die)



Mãe, mãezinha
Minha mãe...
Viste-me nascer.

Mãe.
Não me viste crescer.
Julgaste, mãe.
(Julgam todas as mães?)

Aqui estou.
Grito às paredes do quarto:
Mãe, mãezinha!
(A vizinha de baixo vozeia.
Vou calar-me.
Vou tentar chorar sem ruído.
Soluçar no edredão.
Morder o travesseiro.)

Ele não me quer mais, mãe.
E elas adoram o meu corpo.
Adoram-me, mãe.
Ele não me quer, mãe
E eu...
Não te posso dizer, mãe
Não te sei dizer...
Irias perceber?
Queria tanto, mãe.
Queria tanto...

Recolhi-me aqui.
Desfiz a cama.
Acho que dormi.
(O remédio era doce, mãe.
A boca sabe-me a morango.
A cabeça está envolta em bruma
Parece bruma, mãe. Parece...)
Tu viste-me nascer, mãe.
E eu não sei mais crescer.
Perdoa, mãe.
Perdoa.

A foto deu o mote ao texto seleccionada por mim de entre um lote proposto num concurso promovido em Escritor Famoso e MRF .

8 comentários:

wind disse...

Poema doloroso. Transmites muito bem o que é ser homossexual e não o poder dizer às vezes nem à própria mãe. Portugal ainda é um país de muitos preconceitos. mas voltando ao poema, é teu e isso diz tudo: os sentimentos sempre a sobressairem. beijos

ognid disse...

Fabuloso!

Amaral disse...

Neste "silêncio maior" encontramos a "mãe" que nos faltava no nosso imaginário. A mãe que não temos, a mãe que não vem. Este silêncio de mãe acorda o abraço, desperta novos horizontes, acaricia outra pele.
"Como vai crescer o amor, se Tu não estás?... Como vou eu entrar no meu caminho... se o caminho não tem flores mas espinhos?..."

Nilson Barcelli disse...

O teu poema é diferente.
Fiquei surpreendido à medida que o ia lendo. Agradavelmente, claro. Porque gostei da abordagem que, como disse, é diferente da expectativa de quem lê.
Beijinhos e bfs

PS: Estranhei o pedido do poema. Estranho muito mais o teu silêncio. Afinal o que aconteceu?

Arion disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
lique disse...

Tema difícil (ainda, infelizmente) mas muito bem "agarrado" por ti. Terrível esse "silêncio maior"!
Beijão

menina graça disse...

Dona Seila, com este assunto não se brinca. Por isso, eu leio e guardo silêncio. Angustiadas palavras...
beijinhos

Arion disse...

Como eu compreendo e me revejo nesse poema, amiga Seila!

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein