terça-feira, 3 de maio de 2005

malhas...

Apetecia-lhe uma cerveja bem gelada. Uma amarelinha a borbulhar de pressão. Sentir o escorrer gelado pela garganta e cada um dos movimentos do corpo engolindo-a. Prazer. Um pequeno prazer entre corridas, a meio da tarde. Todos os dias escaldantes. Este ano, desde quase... desde... e espantou-se! este ano era assim desde o Natal?!
Hoje, mais lhe apetecia. Hoje ele transportara o inferno na última corrida. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo. Hoje, tal e qual como vinha (como se lembrava bem!) no Catecismo da 3ª comunhão, ele transportara infernos assentados no banco detrás do seu Mercedes de aluguer. Por isso, e porque lhe era de costume, desejava tanto beber aquela amarelinha dos dias quentes. Sentou-se na mesa de que tanto gostava. Uma mesa solitária no fundo do café. A última mesa, bem por debaixo de uma desbotada Severa enquadrada a doirado de dimensões que cortavam o pé pendente do tocador.
Sentado sob um Malhoa que nunca apreciou mais do que o que via como concupiscência aveludada da pele desnudada do corpo. O corpo oferecido dela, sempre o fazia descer o olhar sobre o tampo rosa da mesa de imitação de mármore. Um desviar de não querer ver que nunca lhe acontecera com os calendários que dependurara no carro, noutros tempos. Deixara-se disso que a clientela de um modo geral, nunca se percebera bem porque razão, desapreciara. E que belos calendários ele tivera! Um para cada ano! mas escolhia-os de entre os que as lojas quase pediam que aceitasse e alguns clientes ofereciam num gesto de simpatia ou de mistura com uma daquelas mais picantes. Seleccionava. Confessa, hoje, ali sentado já a amarelinha ia a meio do copo e ele distendera ambas as pernas contorcidas debaixo das quatro da mesa de ferro imitado de cor verde tropa. Escolhia a dedo cada calendário e chegou a pedir, discreto, aquele que vira a um colega na praça ou na paragem mais prolongada num semáforo.
Bom fornecedor de sobras de qualidade, era o Rodrigues. Onde andaria?! Fechara a casita de concertos já ia para dez anos. Tanto?! espantou-se e reparou que nessa tarde se espantara várias vezes e com uma intensidade invulgar nele ou no que julgava conhecer de si. E ainda se sentia de incómodos com aquelas viagens e aqueles passageiros. O inferno no banco detrás por quatro corridas. Sempre o inferno ardendo lá atrás. Mas, lhe pedisse sequer a ele mesmo, quanto mais contar a outro, e ele não saberia dizer porque sentia que fora mesmo o inferno que transportara.
Desviou o sentir para os calendários e fixou-o nele, o Rodrigues Sapateiro. Bom moço! E perfeito no colocar capas, solas meias e inteiras, saltos...e ainda colocou muita brochas e biqueiras...aquelas coisitas que faziam o andar duro demais para soalhos de gente fina, mas poupavam meias solas e umas gáspeas. Bom moço o Rodrigues! A lojeca de arranjos decorava-a ele com os calendários. Sempre cuidadoso – todos calendários do mesmo ano. Entre os finais de Novembro e o dealbar do ano, como ele dizia “já estamos no dealbar de um novo ano!”, mudava, um a um, cada calendário.
Sorriu agarrando a amarelinha já apenas fundo de copo.
Ia colocar a moeda de pagar sobre o rosa da mesa, já o corpo se desdobrando-se do sentado para o levantar.
O ar parou. Ele acha que deve ter parado. Ele acha que parou tudo depois de ver aquela mão de dedos rechonchudos anelados a oiro se colocar sobre a dele, enquanto o cotovelo se esgueirava, duro e doloroso, no seu apessoado ventre vestido com a t.shirt que dizia o nome do seu clube.
Literalmente, como diria o Rodrigues Sapateiro, moço de boa fala, literalmente empurrado, voltara a esquentar o assento da cadeira com o rabo de calça agangada.
Levantou a cabeça e, claro!!! antes do que lhe dizem que aconteceu, ele teve a certeza! mas porque achou tão normal?! porra! é que nem percebia porque parecia que estava à espera deste que lhe estava em frente! era ele! o homem que levara desde o Roma até à Clínica Angel. Ainda o ouvia: “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”. E aquele som do se faz o obséquio ele juntou rápido ao que entreviu no retrovisor já rolava Almirante Reis abaixo. Quatro vezes a mesma voz e o mesmo pedido de quatro locais diferentes. Agora como explicar o que percebera?! que culpa tinha ele, Almerindo desde que seu pai assim entendera no “se for rapaz”? que culpa tinha ele de ter reparado nas meninas, duas de cada vez, de locais vários daquela capital, “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”?!
Ele, Almerindo, sorrira para o espelho, mas jurava a si mesmo que fora pela puta da coincidência de ter ele passado quatro vezes nessa manhã por aquele homem em locais diferentes daquela cidade capital de país o que quer dizer enorme, apesar de não ser o caso. E sorrira porque se lembrara dos calendários e do Rodrigues.
O homem viu o riso. Olhou. Abriu uns olhos, supõe ele Almerindo que os tenha aberto, por debaixo daqueles óculos negríssimos de marca. E Almerindo ouviu apenas um rugir de “Encontramo-nos, meu!”
E encontraram-se! ali, por debaixo do quadro desbotado do Malhoa.
Ele, Almerindo, pensou estes aconteceres todos sobre o homem, já ele tinha-se deslargado nas calmas pela rua do Conde Redondo abaixo que era onde ficava o cafezito, e deixara a cara do Almerindo preparada para ir “ali até S. José” como dizia a Cremilde empregada de há anos no servir das amarelinhas, acrescentando “ eles tratam-te! mas porque seria que o cabrão te assentou tão percebido que eras tu?! que raio sabes tu, Almerindo?! porra, homem, a gente tá cá...arrima-te”. Desenfreada de língua a Cremilde.
E Almerindo a pensar, de dentro de sangues e socos e dentes pendurados, que aquela advertência-interrogação da Cremilde devia de se encaixar com o que o fez vir mais de repente a meio da tarde para sorver a amarelinha e que era ele sentir que hoje transportara o inferno. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo.
Adormeceu ou desmaiou, aos solavancos no 115?!
Dois riscos de amarelinha saía-lhe pelos lados da boca.


21 comentários:

wind disse...

Genial post! Descritivo, îsualiza-se tudo, sente-se o que ele sente, as palavras estão belissimamente bem colocadas , a linguagem é nua e crua. Lindo! beijos *

Lyra disse...

Eu não sei se já te disse isto ó rapariga, mas tu escreves muito bem! E de uma forma diferente! E é essa diferença que faz com que qualquer texto teu seja facilmente reconhecido. Porque so tu usas determinadas expressões, porque so tu tens esses gostares essas coisas muito tuas. (tal como se reconhece um texto meu pela falta de pontuação e de maiusculas eheheheh) . Quanto á tua prenda ... ahahahah achei muita graça :-) e olha ainda bem que te apeteceu . Que te apeteça as vezes que bem te apetecer :-) P.S-obrigada pelo destaque no post anterior. E agora toma lá aquele beijo que tenho que ir tratar da papelada das LAPIS(eiras) :-)))

paper life disse...

:)

Excelente texto!

O Micróbio disse...

Não resisti... comecei a ler este post e mal li a primeira frase tive de sair a correr para ir comprar uma cervejola bem fresquinha...

Tim Bora disse...

O mundo é relmente pequeno, este nosso, e nele este nosso país e também pequena a nossa capital. Mais pequenas ainda outras cidades; eu costumo dizer que Coimbra é uma aldeia com muita gente. Neste momento estou na Figueira da Foz, outra pequena cidade onde não é mera coincidencia encontrar alguém conhecido na rua, está uma tarde de calor e acho que vou beber uma amarelinha, uma lourinha bem fresquinha, talvez depois de cortar o cabelo.
Beijo grande deste exageradamente ausente.

bertus disse...

...como é meu hábito, venho aqui ler-te e deixar-te os parabéns pelas letras dos teus contos. Depois aproveito a passagem e deixo meia-dúzia de larachas (as mais das vezes sem piada nenhuma, mas o que se há-fazer?!). Outras vezes também encontro por aqui -nos comments, amigos comuns como é o caso hoje da Lyra, a presidenta das LAPISeiras.
E a pergunta surge: que raio de papelada é que ela anda a tratar?! É por causa do abaixo-assinado?!

Intés!!

Lyra disse...

Andava aqui a pensar num presente para ti. E descobri que tu deves ser uma boa dona :-) Então vai aqui á loja e escolhe o bicharoco que queres. :-)) Vá vai lá, eu pago :-)
P.s-Quanto ao BERTUS... Olhe ser presidente de tantas associações dá trabalho sabia ;-))

agua_quente disse...

Raio de coincidências. Há dias mesmo infelizes! Sinceramente a mim o teu post também me deu sede! :)) Beleza de escrita, como sempre. Beijos

Lyra disse...

Eu vi logo! Já não bastava ter-te dado o bicho agora ainda tenho que vir cá pô-lo na roda ahahahah bem giro o gaspar ;-)amanhã venho cá não vá a criatura tar com sede.

Yardbird disse...

Gostei de conhecer mais estes tipos que vais desenhando e a quem aos poucos, vamos conhecendo as feições e o ser através da tua pintura. Como diz a Lyra, a tua escrita é inconfundível e denuncia-te. Denúncia boa, como é óbvio.
Obrigado por no-los apresentares :-)
Noite feliz, uma beijoca
P.S.- Adorei o Gaspar. É um porco da índia? LOL!!! Ah! é um hanster que os porquitos não andam nas rodas. São muito pesados para isso LOL!!!

gato_escaldado disse...

tudo isto existe. tudo isto é triste. tudo isto é fado. bem feito. as loiras são um perigo.

beijo

bertus disse...

...o Gaspar é um bêbado, um mentiroso e nos intervalos dos "copos" pensa que é jornalista; vai daí, de microfone em punho, entrevista o primeiro que encontra na rua.
Esse "bicho" que aí tens, não tem nada a ver com o Gaspar; venderam-te "gato por porco...da India"!!!

Intés!!

Pecaaas disse...

Muito bem! Parabéns

lique disse...

Um texto como tu sabes, com o colorido da vida dos bairros da cidade e uma história que nos agarra do princípio ao fim.
P.S.: adorei o Gaspar! Que bicho giro... :))

BlueShell disse...

Têm-me acontecido "coisas" que nem imaginas...
Voltarei para ler com amis cuidado. Agora vou dar aulas até à meia-noite!
jinho, BShell

Nilson Barcelli disse...

Encantado com o teu "malhas...".
Apesar de compridinho para blogues.
Gostei do encadeamento e das imagens que foste revelando ao longo do texto, numa linguagem interessante.
Escreve, escreve Seila, ecreve que cada vez estás melhor.
Muito melhor, ao ponto de te atreveres ao transporte de infernos.
Beijo e bom sol no teu fs.

Amaral disse...

Não te vou dizer muito. Começo a ser fan destas histórias que me conduzem linha abaixo, quase sem respirar.
Tal como entrelaças as personagens, tal como desfias a personalidade de cada um!
Vou, ansioso e curioso, buscando o fim da viagem, já a amarelinha como fundo do copo.

POLYPHEMUS disse...

Este texto tem a exacta economia do conto, muito bom ponto a ponto, se acrescenta um conto, e um belo conto !

Å®t_Øf_£övë disse...

Muito bom este teu conto.
Parabéns,e continuação de um bom domingo.
Bjs.

Cecília disse...

Estava convencida que já tinha deixado comentário, e afinal não.
Deixas-nos com aquela 'sede que se deseja'... palavra, que quando se chega ao fim fica-se com vontade duma amarelinha.
Menina, passa pelo meu blog que tens lá um trabalhinho.

bertus disse...

...o teu blog está cada vez mais lindo!
Gosto muito de vir aqui porque a monotonia neste lugar não existe!
Ora tão depressa tens os links à esquerda como logo a seguir à direita...
E agora repetes o "boneco" do template para aqueles que são curtos de vista; podem não ver à primeira mas verão (ou primavera?) à segunda...
És espantosa mulher!!
É por isso que te admiro; o teu desassossego pega-se! Olha pra mim que já não consigo estar quieto!!!

PS: Este teu último artigo sobre a temática "não post", está admirável!!

Intés!!

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein