segunda-feira, 11 de outubro de 2004

dueto a uma voz

Mal entraste, desfizeste o meu estar solitário fazendo horas para alguma coisa que logo se me passou. Passaste com um levantar de queixo e um acentuar de anca distorcida enquanto te dirigias para uma mesa, a chávena de café na mão. Sentaste-te de frente para mim. Não tinhas intenção de me olhar.
(Eras tão magra!)
Expeliste uma lufada de fumo branco enquanto equilibravas entre dois dedos um cigarro borrado do leve avermelhado com que cobrias os lábios. Lábios que deixaste um instante entreabertos como se um espanto se tivesse deles apoderado. Num lampejo que te foi indiferente, cruzaste com os meus, teus olhos de um azul debruado a preto como se pincel de artista chinês lhes tivesse desenhado contornos. Afastaste o fumo dos olhos com duas cortinas de renda negra que fizeste descair, levemente.
(O meu vestido ficou mais velho. A barriga distendeu-se-me um ror de centímetros. Uma fila de bonequinhos colocou-se em cima da mesa especados em gargalhada! Calei-os. Calei as gargalhadas ridículas. Desfiz-lhes a fila que formavam - cada ano da minha idade ali em meu redor, espevitados. Arrumei-os com o ar sério a que obedeceram na responsabilidade de me tornarem uma jovem senhora idosa. A barriga voltou à sua dimensão real e o vestido descaia sobre ela numa cumplicidade que os fazia, e a mim, readquirir uma serena dignidade.)
Foi um lapso.
Voltei a olhar-te...vendo. O teu sorriso foi tão inconsciente e sincero como o meu.
(Terias, tu também, a teu modo, sentido maior que nunca a tua magreza? algum osso a salientar-se indevido? Terias, por um lapso, um par de anitos a rabiarem sobre a tua mesa? Porventura terás sentido que as calças estavam demasiado lavadas... ou demasiado sujas?)

Aliviamos as nossas duas esperas quando o teu isqueiro se recusou acender novo cigarro. Foi planeado o gesto que nos soergueu com o mesmo objectivo?! olhando tu primeiro em volta e só depois se me dirigindo, e eu fingindo que não via a tua busca, aguardando ser solicitada.
(
As calças estavam de facto demasiado lavadas e com vincos colocados ali no local certo de uma calça de corte. A blusa tinha o toque de uma marca que não identifiquei. As duas peças estavam separadas por um cinto de cabedal largo que apertavas, não displicente, não sobre um local qualquer das nádegas, mas bem assente na cintura. Calçavas sandálias rasas de tirinhas de um verniz azulado nuns pés de unhas bem tratadas e coloridas de azul, como nas mãos.
Como os olhos
!!).
Retornamos às nossas esperas mordiscando a borda das respectivas chávenas, enquanto o café escorregava devagar. Gesto que repetimos quase em sincronia.
(E, de repente, desapareceste-me. Quero dizer, deixei de te dar atenção, perdi-te.)
Quando voltei a olhar, a mesa estava repleta de bonecos que só eu via e o teu pescoço saia da blusa numa rodada de pregas confundidas com um colar de pedras avermelhadas; as tuas mãos esguias e magras estavam igualmente fendidas de rugas e alteadas de veias arroxeadas. Um aro grosso cobria-te quase metade do anelar esquerdo.
(Pasmei e observei melhor – avidamente.)
Sorriste-me de modo consciente. Atabalhoadamente, respondi com um olhar que devia ser despegado do sorriso pois dirigia-se-te de outra forma que o sorriso – tentava perceber.
(Sim, era o teu olhar, apenas ele, que te fizera toda quando entraste. Apenas o olhar.)

Só então respondi ao teu sorriso.

Dois adolescentes sentaram-se ruidosamente, calorosamente, pedinchosamente à tua mesa.
Sorriste ao meu real sorriso.
(eu já me distraia com outras chegadas)

(rascunho encontrado ...1999?)

Hoje saí e esqueci o riso pendurado no cabide

deu em chover esparsado e eu sem o riso

apanhava a água (toda aquela água!) em cheio na cara

lágrimas do riso chorando de o ter esquecido!



14 comentários:

lua_sol1 disse...

Quantas veses um olhar diz mais do que tudo o que nos vai na alma. Beijinho

almaro disse...

olhares femininos, finos,comparativos, medidores, quase inquiridores de almas que se escondem no olhar. Cenário de almas encobertas em máscaras que se ligam ao mundo em fumos desenhados no aroma do café.

Anónimo disse...

Rascunhos de sempre, cheios de vida e de agonia. Aqui as palavras são testemunhos do real, sente-se o ambiente, o olhar e a perda. Muito bem escrito (vivido?). Aqui a arte é 'escreviver'. Gostei. (willnow/indolência).

lique disse...

Mulheres, olhares, avaliações, comparações, cumplicidades... No que reparamos sentadas numa mesa de café! Beijinhos

Anónimo disse...

Olhares nos cafés de mulheres, às vezes dão sintonias:) Muito bonito o que está escrito;) wind

M.P. disse...

Ainda BEM que não deitaste esse rascunho fora! Uma relíquia que adorei ler! :)**

almaro disse...

Tenho sido indelicado contigo, por não te ter dirigido palavra alguma depois do carinho com que tens tratado as minhas palavras. Acredita que não é por não me envolver com o teu sentir, leio-te com emoção, com aquela que escapam entre os silêncios de cada uma.
Mas os afazeres, muitos, retiram-me o tempo, que me obriga a estar pouco atento ao que sobra de mim, depois do dia a dia. Entendo-te triste, de sorriso escondido nas cores do Outono. Sei, e creio que o sabes também, ser um ciclo, uma espécie de onda do mar, que vai e vem, ora maior, ora suave. Ouvir o rebentar da onda faz adivinhar o som da próxima e acabamos por aprender e compreender a sua musica. Quando mais novos, temos tendência a furar a onda, arriscando-nos a um torcicolo valente ou a dor mais profunda. Com os anos aprendemos a navegar e com a serenidade do olhar, a bolinar…
Estou a ficar confuso, não o queria, só queria dizer que te espreito, discreto e que me sorrio contigo.
Agradeço as tuas palavras, que se me conhecesses, saberias que as trato todas como se vivas fossem, pelo menos aquelas que me olham e me trazem sentires e cores, como as tuas.
Um beijo, almaro

almaro disse...
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almaro disse...

desculpa, seilá , logo este com tamtas palavras saiu duplicado, apaga-o por favor...

ognid disse...

Ao que pode levar uma troca de olhares num café... quer dizer que em 1999 já andvas a preparar textos aqui para o blog, né? :) vá lá, um besito para ti.

Anónimo disse...

Só uma passadinha rápida pra lhe deixar um beijinho. Se eu lhe tivesse levado a mal não tinha posto o linque na minha redacçao ;) Ambas nos entusiasmámos, mas daí não veio mal ao mundo - somos pessoas adultas e educadas. Não há nada a perdoar: irritei-me um bocadinho (o que às vezes até faz bem pra descarregar o nervoso) mas não me ofendi, até porque as últimas palavras do comentário mostravam que era uma provocação e não uma agressão. Retribuo o abraço.

Anónimo disse...

Sobre o comentário acima: esqueci-me de dizer que é a Vi (mais o seu Cocó, claro).

Tim Bora disse...

Os nossos olhos não são como a objectiva de uma máquina fotográfica que se limita a captar uma imagem. Permitem que através deles se veja o que se quer, permitem-nos filtrar a própria realidade. E depois há aquele velho chavão: janelas da alma. Para se poder observar distraídamente é preciso ser bom observador e distraído ao mesmo tempo. Além de consiliares estas duas características tens a capacidade de passar tudo para o papel de forma tão pormenorizada que consegui vizualizar toda a cena como de estivesse lá, sentado noutra mesa ao lado a tomar o meu cafezinho. Talvez até estivesse e não tivesses reparado.

o5elemento disse...

{ ... vivo de rasgos e fragmentos de papel
pergaminhos de sentidos escritos
esperando restauros, dar; do tempo
anseio decerto e (1)breves, tento
valores de renovação e (2)entro

© biquinha
(1)dentro em pouco tempo
(2)começar de novo (restaurar) ... }{ rasgos*fragmentos*rascunhos }

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein