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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

vista para o rio


a segunda parte do conto com este título que em Maio passado recebeu a menção honrosa no  26.ª edição do concurso de contos Cidade Araçatuba




Tinham-se conhecido na festa de aniversário do Frederico Cunha.
Não se lembra quantos anos fazia aquele amigo do Carlos.
Ela teria vinte, ou pouco mais.
Tinham jantado bem e bebido bastante. Um vinho caro que eram sempre os vinhos em casa do Frederico. No regresso, desceram pelas escadas e o Carlos colocou-lhe o braço direito sobre os ombros e deixou que escorregasse, e os dedos da mão esquerda dele ficaram a tocar a nervura do seu seio por baixo da axila.
Casaram dois meses depois pelo registo com separação total de bens. Teriam desconfiado que não ia resultar. E nem filhos. Nunca fizeram qualquer esforço. Ela tomava a pílula e ele, naquele temor de doenças que tivesse algum dia adquirido, sempre usou preservativo. Um casamento que durou até Ana Mafalda alugar aquele tê dois com vista para o rio e dizer-lhe que ia deixar de morar com ele e que depois pediriam o divórcio. Amigável, dissera-lhe. E tinha-lhe pedido para ficar com o sofá
cor de azeitona. Não sabe porquê, mas decidira que gostava de ter aquele sofá no meio de uma sala que fosse apenas sua. Tinham-no trazido dois rapazes duma dessas firmas que fazem transportes. E ela tinha dito:
– Podem deixar aí ao meio e, por favor, coloquem-no de frente para janela.
E os rapazes tinham-no colocado na posição onde ela viria a cair dois dias depois, ao tropeçar no fio do berbequim.
Tinham estado casados quatro anos e nem por isso conheciam grande coisa um do outro, conclui Ana Mafalda a olhar o rio.
E pensa que Carlos Afonso talvez tivesse sido o autor inconfesso da outra queda, essa realmente aparatosa, muito mais do que esta.
Nunca lhe tinha contado. Tinha-lhe dito pouco sobre aquela queda.
Apenas naquele dia em que ela se queixou:
– Este tornozelo dói-me sempre que apanha humidade.
E era já muito tarde para dizer-lhe pormenores.
Foi depois dum passeio à serra. Regressavam já pela tardinha e era final de Outubro. Uma humidade fria subia da terra. Ana Mafalda a colocar uma meia elástica em cima da pomada, contou-lhe que um dia escorregara numa garrafa amolgada e desde então aquela dor no tornozelo aparecia. E Carlos perguntou-lhe:
– A garrafa estava amolgada em que sítio?
E ela tinha respondido:
– Sei lá! Era a garrafa inteira esborrachada!
Mas Carlos Afonso precisara, sorrindo:
– Foi na casa da tua mãe que escorregaste, cá em baixo, na rua?
E ela confirmou que sim, que tinha sido na casa onde morava com os pais.
E não disse mais nada.
Era já um tempo adiantado depois de terem ido à festa de anos do Frederico Cunha. Ana Mafalda já não queria que ele fosse o rapaz tímido que ela imaginara a amolgar a garrafa. E não lhe fez perguntas. Não lhe disse, assim, por exemplo:
– No dia dois de Maio de mil novecentos e oitenta e oito estavas a amarrotar uma garrafa no bairro onde moram os meus pais? Estavas Carlos Afonso?
A mãe fazia anos nesse dia e tinha-lhe dito: na volta do treino traz-me o bolo que encomendei na pastelaria. E ela não tinha trazido.
Ana Mafalda não permitiu que Carlos Afonso dissesse, sequer pensasse:
– Olha, eu um dia também amolguei uma garrafa e deixei-a num degrau.
Não. Ana Mafalda tinha mudado de assunto.
Pediu-lhe que lhe fosse buscar gelo.
Ou ter-lhe-á pedido que fosse à rua buscar um maço de tabaco.
Não. Ela nunca iria ter a certeza de que tivesse sido ele o rapaz tímido que amolgou a garrafa. Não. Ela não tinha querido que ele fosse o rapaz da garrafa amolgada. Era já muito tarde na vida de um e outro.
Depois, houve aquela noite.
Carlos Afonso apareceu no sexto-frente com o Frederico Cunha. Vinham ambos bem bebidos a saírem do elevador no sexto-frente. Tinham emborcado, copo a copo, cada um a sua garrafa de um tinto caro que era o vinho que sempre tinha havido em casa do Frederico.
Tinham vindo de autocarro.
E depois que comeram umas sandes, Ana Mafalda dormiu enroscadinha no sofá verde, e deixou que eles dormissem no quarto.
Dois dias depois, disse:
– Olha, Carlos, aluguei um tê dois com vista para o rio. Depois, divorciamo-nos. Amigável, ouves-me?
E trouxe o sofá verde, e aquela quase certeza de que Carlos Afonso podia ter sido o rapaz tímido que ela imaginara quando escorregou no plástico esborrachado.

Ana Mafalda a olhar o rio depois de ter tropeçado.

domingo, 24 de novembro de 2013

Vista para o rio


Publico hoje  a primeira parte do conto com este título que em Maio passado recebeu a menção honrosa no  26.ª edição do concurso de contos Cidade Araçatuba


Tropeçou no fio que atravessava a sala. Dois passos em vão e aquele desamparo de perceber que iria estatelar-se. O fio deslizando pela tijoleira desde o berbequim até à tomada, a única que havia na sala naquele tê dois acabado de alugar. Ela a desandar, um pé aqui, um pé do outro lado, e a lembrar-se. Como é possível que se tivesse lembrado de tanto naquele tempo ínfimo.
Era de manhã e saía para o treino. Tempos em que cuidava do corpo. O plástico estava esborrachado no degrau da porta de entrada. E nem treino, nem aulas. Caiu desamparada na calçada.
– Sorte, que não tivesse passado um carro.
Disse assim a mãe que via sempre as coisas pelo lado do drama.
O médico falou em ligamentos soltos, e nem o endireita, nem massagens com este e outro lenimento, e nem as injeções. Apenas o repouso e o tempo, e ainda hoje, se faz um dia mais húmido, aquele tornozelo lembra-lhe aquela queda.
Morava ainda em casa dos pais e, ao fim-de-semana, sobretudo nas noites de sexta-feira e sábado, as ruas enchiam-se de gente transbordando dos bares. Pela madrugada, entretinham-se a conversar na porta da entrada do prédio onde ela tinha nascido. Todos muito ruidosos, todos bebidos, uns mais do que os outros. Valia que os quartos ficavam virados para as traseiras. Os pais não ouviam, mas ela vinha espreitar na janela da sala. Às escondidas, via-os. Ficavam por ali, antes do largo, a fazerem despedidas, e era depois cada um para seu carro, e outros apanhavam um táxi.

Quando escorregou na garrafa desfeita, pensou que poderia ter sido um deles. Um que tivesse estado apenas a ouvir. Um que nem tivesse bebido senão água tónica e um sumo de laranja sem gin nem vodka. Um daqueles rapazes poderia ter esborrachado a garrafa, as mãos entretidas enquanto ouvia os amigos a contar façanhas que ele nunca tinha feito, e muito provavelmente nenhum deles, ao menos na dimensão desmedida em que as enunciavam. Um rapaz que seria tímido, a amarfanhar o seu ser desprotegido no gesto de deformar o plástico. Ela imaginou-o assim, cuidadoso, a colocar a garrafa espalmada no canto do degrau. E depois ficou pensando que deuses endoidados, anjinhos malandros, ou demónios soltos teriam colocado aquele objeto no local preciso em que ela o pisou. Que podia ter sido o filho da porteira, imaginou ela. A Dolores saía muito cedo. Ao sábado ia fazer limpeza para amealhar uns cobres. O infantário encerrava nesse dia, e ela levava o filho. Talvez que, enquanto Dolores verificava se tinha a chave, a criança tivesse brincado com a garrafinha ali esmigalhada, o rótulo rasgado onde ainda se podia ler água mineral, mas já não se via a marca. Talvez tivesse sido o filho da Dolores quem tivesse tirado a garrafinha do local onde o rapaz tímido a tinha deixado.
Podia muito bem ter sido o filho da porteira, o rapaz que morreria, ainda muito jovem, num acidente de mota. Dolores suicidar-se-ia um mês e um dia depois.
– Sabes quem morreu?
Seria assim a mãe ao telefone.
A mãe dela gostava de participar as mortes de um e outro, e telefonava. Começava sempre com aquela pergunta, e só depois contava pormenores, que ouvira na merceeira do Senhor Antunes onde em pequena a mandava em recados.
– Traz-me duas dúzias.
Era a mãe a querer pregadores que os que tinha não chegavam e no estendal ainda havia espaço para estender as peças daquela máquina de roupa que pusera a fazer na noite. E ela descia as escadas desde o terceiro andar pelo corrimão.
Quando caiu no empedrado estava uma chuvinha que iniciara pingos naquela manhã de sábado, mês de Maio.
Talvez tivesse sido o filho da Dolores. Ou talvez tivesse sido o tal rapaz tímido que ela imaginara a amolgar o plástico. Que não fosse cuidadoso e tivesse deixado a garrafa no meio do degrau da entrada do prédio onde ela então morava.
Depois de casada, havia de mudar-se para aquele sexto-frente num bairro periférico.
Ana Mafalda que agora cai desamparada nas costas do sofá, a barriga empurrada contra o verde azeitona. O Carlos tinha dito, a apontar para o tecido:
– Esse! Gosto desse!
E ela farta de ver revistas de decoração, tinha anuído. E o sofá mostrara-se muito confortável. Aquele onde está caída, dobrada em duas no meio da salinha, nem assim muito espaçosa, e a dois passos a porta envidraçada que dá para a varanda. Ao fundo, o rio seria azul se não estivesse um dia nublado. 
– Podias ter-te esborrachado contra as vidraças.
Diria a mãe de Ana Mafalda se a soubesse a tropeçar no fio.
E ela senta-se no sofá que lhe devolve agasalho e aconchego naquela sala onde ainda não sabe se ali ficará a cadeira de palhinha e se no canto oposto ficará a estante.
Ana Mafalda senta-se no instante preciso em que o sol desfaz um castelo de nuvens e o céu e o rio ficam muito azuis.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...




dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein