domingo, 24 de novembro de 2013

Vista para o rio


Publico hoje  a primeira parte do conto com este título que em Maio passado recebeu a menção honrosa no  26.ª edição do concurso de contos Cidade Araçatuba


Tropeçou no fio que atravessava a sala. Dois passos em vão e aquele desamparo de perceber que iria estatelar-se. O fio deslizando pela tijoleira desde o berbequim até à tomada, a única que havia na sala naquele tê dois acabado de alugar. Ela a desandar, um pé aqui, um pé do outro lado, e a lembrar-se. Como é possível que se tivesse lembrado de tanto naquele tempo ínfimo.
Era de manhã e saía para o treino. Tempos em que cuidava do corpo. O plástico estava esborrachado no degrau da porta de entrada. E nem treino, nem aulas. Caiu desamparada na calçada.
– Sorte, que não tivesse passado um carro.
Disse assim a mãe que via sempre as coisas pelo lado do drama.
O médico falou em ligamentos soltos, e nem o endireita, nem massagens com este e outro lenimento, e nem as injeções. Apenas o repouso e o tempo, e ainda hoje, se faz um dia mais húmido, aquele tornozelo lembra-lhe aquela queda.
Morava ainda em casa dos pais e, ao fim-de-semana, sobretudo nas noites de sexta-feira e sábado, as ruas enchiam-se de gente transbordando dos bares. Pela madrugada, entretinham-se a conversar na porta da entrada do prédio onde ela tinha nascido. Todos muito ruidosos, todos bebidos, uns mais do que os outros. Valia que os quartos ficavam virados para as traseiras. Os pais não ouviam, mas ela vinha espreitar na janela da sala. Às escondidas, via-os. Ficavam por ali, antes do largo, a fazerem despedidas, e era depois cada um para seu carro, e outros apanhavam um táxi.

Quando escorregou na garrafa desfeita, pensou que poderia ter sido um deles. Um que tivesse estado apenas a ouvir. Um que nem tivesse bebido senão água tónica e um sumo de laranja sem gin nem vodka. Um daqueles rapazes poderia ter esborrachado a garrafa, as mãos entretidas enquanto ouvia os amigos a contar façanhas que ele nunca tinha feito, e muito provavelmente nenhum deles, ao menos na dimensão desmedida em que as enunciavam. Um rapaz que seria tímido, a amarfanhar o seu ser desprotegido no gesto de deformar o plástico. Ela imaginou-o assim, cuidadoso, a colocar a garrafa espalmada no canto do degrau. E depois ficou pensando que deuses endoidados, anjinhos malandros, ou demónios soltos teriam colocado aquele objeto no local preciso em que ela o pisou. Que podia ter sido o filho da porteira, imaginou ela. A Dolores saía muito cedo. Ao sábado ia fazer limpeza para amealhar uns cobres. O infantário encerrava nesse dia, e ela levava o filho. Talvez que, enquanto Dolores verificava se tinha a chave, a criança tivesse brincado com a garrafinha ali esmigalhada, o rótulo rasgado onde ainda se podia ler água mineral, mas já não se via a marca. Talvez tivesse sido o filho da Dolores quem tivesse tirado a garrafinha do local onde o rapaz tímido a tinha deixado.
Podia muito bem ter sido o filho da porteira, o rapaz que morreria, ainda muito jovem, num acidente de mota. Dolores suicidar-se-ia um mês e um dia depois.
– Sabes quem morreu?
Seria assim a mãe ao telefone.
A mãe dela gostava de participar as mortes de um e outro, e telefonava. Começava sempre com aquela pergunta, e só depois contava pormenores, que ouvira na merceeira do Senhor Antunes onde em pequena a mandava em recados.
– Traz-me duas dúzias.
Era a mãe a querer pregadores que os que tinha não chegavam e no estendal ainda havia espaço para estender as peças daquela máquina de roupa que pusera a fazer na noite. E ela descia as escadas desde o terceiro andar pelo corrimão.
Quando caiu no empedrado estava uma chuvinha que iniciara pingos naquela manhã de sábado, mês de Maio.
Talvez tivesse sido o filho da Dolores. Ou talvez tivesse sido o tal rapaz tímido que ela imaginara a amolgar o plástico. Que não fosse cuidadoso e tivesse deixado a garrafa no meio do degrau da entrada do prédio onde ela então morava.
Depois de casada, havia de mudar-se para aquele sexto-frente num bairro periférico.
Ana Mafalda que agora cai desamparada nas costas do sofá, a barriga empurrada contra o verde azeitona. O Carlos tinha dito, a apontar para o tecido:
– Esse! Gosto desse!
E ela farta de ver revistas de decoração, tinha anuído. E o sofá mostrara-se muito confortável. Aquele onde está caída, dobrada em duas no meio da salinha, nem assim muito espaçosa, e a dois passos a porta envidraçada que dá para a varanda. Ao fundo, o rio seria azul se não estivesse um dia nublado. 
– Podias ter-te esborrachado contra as vidraças.
Diria a mãe de Ana Mafalda se a soubesse a tropeçar no fio.
E ela senta-se no sofá que lhe devolve agasalho e aconchego naquela sala onde ainda não sabe se ali ficará a cadeira de palhinha e se no canto oposto ficará a estante.
Ana Mafalda senta-se no instante preciso em que o sol desfaz um castelo de nuvens e o céu e o rio ficam muito azuis.

2 comentários:

Luis Bento disse...

Gosto do ritmo. da ternura, da sensibilidade, do final, da alternância entre os pensamentos dela e as falas da mãe...Muito bom!

wind disse...

Adoro!
Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein