terça-feira, 19 de maio de 2015

delet

Importante não é eliminar nomes e outras burocracias como os cartões do banco ou a certidão de nascimento. Tudo registos anódinos, mesmo os filmes, mesmo as fotografias.
Importante seria eliminar aquilo que nos é como sangue.
Importante seria desfazer pronomes, adjectivos e tempos verbais, palavras com que compusemos personagens, seres que, algum dia, tenham respirado o ar da serra ou o ar empestado duma cidade grande.
Importante seria apagá-las. Rasgar todos os papéis, fazer delete em cada arquivo. Que nunca ninguém pudesse espantar-se ou cogitar hipóteses, saber sequer que nada fizemos que fosse para explicar-lhes e muito menos para que soubessem de onde e como, e de que modo, lhes sobreveio aquele jeito de ranger os dentes, aquele não saber conter um choro ou parar a inusitada gargalhada.
Importante seria queimar tudo e ir apreciando a lassidão do fogo, descalços e nus, que mesmo o cabelo que um dia foi farto, entrançado ou rodando em cachos, mesmo esse, importante seria desbarata-lo em sucessivas tesouradas.
Não deixar nem panos, nem lençóis ou fronhas, fatos, cuecas ou casacos. Queimá-los em cova apropriada que, recebendo as cinzas, fosse terra onde nunca medrassem favas ou tomates, fruta ou legume que, crescendo, conteria vestígios nossos oriundos daquela saia, do colarinho da camisa de ramagens, dos punhos da blusa que vestimos por um baptismo.
Ficarmos despojados.
O nome riscado de capas de livros, e até os tachos e malgas em que cozinhamos serem retorcidos por pancada forte e fendidos em cacos os de vidro ou de loiça ou de barro.
E nem por descuido grave, deixar uma só frase a pespontar assim, ou semelhando: hoje aconteceu-me perceber que o mundo pode ser diferente e que é em mim que começa tudo.
Que nenhuma ideia sobeje.
Que não fique registo escrito ou desenhado, e nem raízes quadradas ou polinómios traindo o ser que fomos.
Importante para não nos imputarem um depois, seria destruir cada vestígio.
Para que nada reste a seguir ao dia em que, dum modo ou de outro, se quebre o fio ténue, indefinido e frágil, com que aqui andamos a sorrir ou com menos bons sentimentos de uns para os outros.
Para que nada mais sejamos, ou nos pretendam, quando for silenciada a orquestra, perdido o ritmo com que flui o sangue.
Para não haver depois, quando tudo falhe por falta de maestro, quando, por inércia, nos terminem as cadências do corpo: aurículas e ventrículos, cúspides e aorta, e o compasso dos pulmões arfando.
Para que não fique nada que nos perdure.
Para que, definitivamente, não sejamos.

E em jeito de epílogo deixarmos um desejo e algumas perguntas num modo pueril de encararmos, assim como dizer: gostaria de envolver o corpo nu num pano tinto com cores fortes, tons africanos, amarelos e azuis e verdes e vermelhos que o fogo consumisse.
E constatarmos, pesarosos: gostaria, mas não tenho voz que peça, ou voz que mande.
Assim, ou perguntando num receio todo ele cérebro: as carnes ficam moles e a pele franzida, o sangue ainda corre quando chega o cangalheiro?
E acrescermos num lamento: pergunto, mas ninguém responde.
Ou inquirir num temor contido repleto de ironia: nas veias, o sangue, parando, terá deixado troços ocos, ouvir-se-ão estampidos como no fogo-de-artifício em feira de Agosto?
E não soltarmos sequer o murmúrio que lamentasse: pergunto, mas, ainda que respondam, já não oiço.




2 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

forte e absorvente.
reflexivo!
boa semana.
beijo
:)

wind disse...

Muito bem escrito e muito cheio de raiva.
Este saiu das entranhas:)
Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein