domingo, 16 de setembro de 2012

duas e vinte


Fiquei encravada entre as duas e as quatro.
Eu não, o relógio.
O ponteiro das horas roçando o algarismo de menor valor de mercado, e o ponteiro dos minutos em cheio sobre o algarismo que indica o número de estações nas zonas temperadas como esta aonde moro.
O relógio de ponteiros que ainda uso e ponho no pulso sempre que saio e para todo o lado.
O relógio parado nas duas e vinte minutos, e eu saindo da consulta de otorrino em que o médico me aconselhou que não apanhasse humidades, dessas que se dão no início de Outubro, o Outono a chegar em passinhos mansos e eu repleta de mal estar, uns descompassos na zona do peito, falta de ar, parece, e umas coceiras na garganta que me dão num pigarro inconveniente se estou numa sala de espectáculos e eu ainda gosto de ir a um cinema pela tarde, sair e dar uma volta junto ao rio, e o médico que me deixe disso, que guarde esses passeios para mais cedo, que a humidade característica da mudança de estação, e ainda mais a que vem do rio, não se coadunam com o meu estado quase alérgico a tudo o que sejam gotículas de líquido dependuradas no ar que respiro. E foi peremptório, de tal modo que eu estou numa aflição em perceber que horas são e se ainda posso dar uma volta junto ao rio sem que depois tussa toda a noite, e olho o relógio a confirmar se será a hora antes da que o médico disse: depois das seis da tarde nem pense em andar por aí desagasalhada desse modo, e estampou os dois olhos míopes sobre o decote que eu trago sempre acentuado e só tapo com casacos de abafo lá mais para Novembro. Que me agasalhasse mais, aconselhou-me sem tirar os olhos dos meus ombros desnudados pois neste quase final de Setembro, eu ainda considero que é Verão e nem um casaquinho pelos ombros, nem um xaile.
O relógio entre as duas e as quatro e o sol já bastante inclinado no horizonte.
Noto assim, enquanto o elevador desce desde o décimo onde é o consultório . Um elevador todo envidraçado que galga em breves segundos os quinze andares, descendo e subindo pelo exterior do edifício.
Serão seis da tarde? Será um pouco menos ou um pouco mais?
E quando saio do elevador pergunto as horas ao porteiro, um homem com um bigodinho ralo, ainda um garoto, noto, um licenciado que terá encontrado este tacho na fraqueza em que está o mundo do trabalho. E o homem responde: são seis e trinta e sete. E eu agradeço e vou saindo, eu e mais o pasmo da precisão com que ele me disse, e só depois me explico: é que hoje em dia os relógios já não têm ponteiros, sobretudo os relógios baratos, e para ser isso nem é preciso que seja vendido na loja dos chineses, que as minhas colegas dizem que barato são os que elas usam, para cada fato um relógio diferente, e têm-nos grandes e pequenos uns mais bonitos do que os outros e alguns que eu nem percebo que sejam relógios, e dizem que um dinheirão custam aqueles ali atrás das montras onde elas esborracham narizes: olha aquele, olha aquele, e são preços incómodos e muitos têm no mesmo mostrador o modo digital e o modo analógico, e se eu tivesse um desses, o que é impensável, não teria perguntado as horas ao rapaz do bigode. Que eu por mim tenho este, e tiro-o do pulso e abano-o a ver se ainda oiço o tic-tac, mas ele está mesmo parado, e nem será falta de pilha que este meu relógio ainda tem aquela mola e eu costumo dar-lhe corda todas as noites. Não me terei esquecido, e verifico. Tem a corda toda, confirmo, e dou início a este ficar triste, o mesmo sentimento que me acompanhará a escrever esta crónica, e tudo por ter o meu relógio avariado.
Um relógio que possuo desde que fiz o exame da primária.
Penso nele com mágoa de que desfuncione em permanência, enquanto faço sinal a um táxi, que será melhor precaver-me do vício de ir daqui passeando até ao rio. Entro e digo:
– Avenida dos Estados Unidos.
E acrescento o número do prédio já a recostar-me.

3 comentários:

wind disse...

Excelente descrição.
Beijos

francisco disse...

porcaria de relógios. só servem para inspirar escrita. horas e minutos é que nada.

expressodalinha disse...

As horas são o nosso martírio. Pior só a sinusite. Tão bem escrito que até fiquei com vontade de me constipar.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein