Domingo, 25 de Setembro de 2011

a oval



Sobre papel grosso, assente no chão, desenhou com traço vigoroso. 

Primeiro desenhou um quarto de círculo.
Depois, deixou que o pedaço de carvão fosse escorregando até ao fundo da folha, curvando  para baixo – cada vez menos curvo, até ficar,  inscrito no branco do papel, a metade de um ovo.
Repetiu no lado oposto.
Simetria perfeita sem os rigores da régua e do compasso.
Desenhara, simplesmente, o contorno do que seria um rosto.
Parou a olhar o traço.
Salteou riscos diminutos. 
Um risco atrás do outro, a simular um cabelo farto, ligeiramente ondulado, e curto, muito curto – não deixou que sobrassem traços ao nível da zona onde seria a face.
Escorregou o indicador sobre um risco grosso que traçou de cima abaixo: sombreou um pouco, sugeriu volume, indicou que a luz vinha do lado oposto. E deu por terminado. Antes, assinou o seu nome no canto inferior direito, e a data em que estava a ser realizado.
Um rosto, e nem olhos, nem o esboço de uns lábios, um nariz adunco...
Levantou o corpo do chão de tijoleira onde desenhara sentado, o papel entre os pés, os joelhos flectidos.
Finalmente, aspergiu fixador sobre o pó de carvão, sobre o rosto imensamente triste da mulher que vira nessa tarde.


5 comentários:

wind disse...

Extremamente revelador.
Beijos

Anónimo disse...

Fantástico, Fátima! Só te comento aqui porque continuo com o absurdo do PC a não me deixar comentar sem ser como anónima... Lindo o texto e o desenho de uma extraórdinária expressividade. Guarda bem isso!!!

Anónimo disse...

Mena!!!
Esqueci-me de assinar...

expressodalinha disse...

A coisa está anónima... mas o texto não.

mfc disse...

A crueza da vida...

sitemeter

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

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ai meu Abril, meu Abril...

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril