quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

depois da curva

e ficaram a olhar para muito ao longe, a olhar, a olhar como se fosse a função maior de cada uma das vidas que ali se ficava a ver o combóio a ir, a fazer a curva como faria uma lombriga, como faria uma cobra
o combóio a apitar, depois, só muito depois de eles terem ficado com os pés colados no empedrado da gare, quietos, inertes, e o combóio a enviar-lhes um som cada vez mais longo, até que cada um deles soubesse que não se repetiria a cena dos abraços e dos ranhos e aquele beijo enorme que eram lábios e línguas e pedaços de tarte de maçã que fora a sobremesa do almoço
só então, ainda com o apito a ressoar em cada par de tímpanos, cada um descolaria um pé e depois o outro, muito devagar, como se fosse num sonho, e ficaria ainda, menos que um segundo, a virar a cabeça e o olhar, sobretudo o olhar que ficaria como que cegado, pregado no fim da curva onde não veria o dorso imponente da máquina resfolegando e uma carruagem, e a outra, mas sobretdo a do meio, que cada um bem sabia que era a quarta a contar da frente, essa onde ía o Francisco, a Zulmira, o Carlos, um nome balbuciado por cada um dos que ficava com uma dor muito quente a escorrer pelo peito, uma coisa vermelha em vez do pranto, que esse tinha sido derramado em bátegas quando ficaram dependurados na janela, a agarrar a mão, a perder a mão que escorregava, sobretudo a Inácia que não largara o Francisco, ela quase a cair com o primeiro solavanco
todos tinham feito corridinhas a ver se prendiam ainda, ao menos o bafo daquele que partia

3 comentários:

wind disse...

Escritora, excelente descrição de quem fica a ver os seus a partirem.
Beijos

efe disse...

«...o olhar que ficaria como que cegado, pregado...» Não gostei do "cegado", pronto. Sei que é estilo mas não gostei, acho que fica mal porque é uma ocorrência singular em todo o texto e porque está próximo do "pregado".

mas da imagem descrita, gostei.

Quase Blog da Li disse...

Maria de Fátima,
deliciei-me ao ler teus escritos de uma só vez !
A ausência afinal, tem seu lado bom.
beijo grande

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein