sábado, 5 de janeiro de 2008

encontro

Ela encostou-se. Um cotovelo.
Tu mastigavas o rissol que te escorreu viscoso. Feio. Insaboroso.

Ela encostou de leve o cotovelo na ponta do balcão.
Apenas o cotovelo vestido de vermelho escorregado sobre a madeira do balcão.
Lá fora chovia em amarelo de um sol que esmaecia em intervalos de nuvens.
Lá fora chovia frio.
Ela quase nem encostada ao balcão. Apenas o cotovelo.
Ela com olhos da cor da luz sob a chuva. Pespontados a negro. Os olhos dela. Amarelos.
E o cotovelo roçando a madeira do balcão castanho.
E o teu rissol escorrendo numa pasta esverdeada de salsa e tu a descobrires-lhe o traço certo da boca: o risco em rosa natural contornando cada lábio. O risco ondulando no ela que falava.
E tu a desouvi-la.
Tu apenas a vê-la.
O sorriso dela: a boca entreaberta: a língua num quase de encarnada, um tudo-nada de branco na ponta e o amarelo dos olhos desaparecendo por detrás do pespontado das pestanas.
Tu a mastigar o rissol que escorre mole. E o cotovelo e os olhos cor de mel debruados de negro. E o risco no contorno cor-de-rosa. A boca que se abre e fecha.

Duas mulheres que conversam num balcão, ao canto.

Lá fora chove em muito cinzento.

E tu sabes que o cotovelo, vestido em cor vermelha, roçou o balcão de um modo. Tu sabes que foi um roçar diverso.

Um fogo nem sequer ateado no mastigar engordurado.

Não fora assim, e que demais além do amarelo pespontado a negro, além do contornado rosa natural ondulando, além do cotovelo num diverso roçando?

Tu não o sabes e sais nem sequer pensando.

14 comentários:

Mena G disse...

Caramba, qu'isto é bonito!
Nem ele comeu o rissol, nem a gente sabe o que ela pediu!
Uma bica bem quente, penso eu...
Deslumbrante o calor desta chuva...

J. disse...

As cores deste quadro, bem bonitas.

gilbertus disse...

Da dor de cotovelo tenho notícia. De roçar o cotovelo, não será de comichão?! Ó pá! aquela imagem da dama que tens aí ao lado, de copo bem erguido na mão e a mostrar as cuecas é demais! Que ganda passagem dum ano para o outro!... a rebolar e sem entornar o precioso néctar!!
Inté!!

a vizinha disse...

Pronto, já li!... :) (risos)

Gi disse...

Emprestas a cor aos dias com a tua escrita, pelo menos os meus ficam mais coloridos.
O teu texto é revelador do poder de um gesto , de um olhar e como pode falhar a comunicação porque ou não se entende a mensagem ou não se está disponível para sequer pensar no que ela pode querer dizer.
Passamos pelas coisas ... deixando para trás sabemos lá o quê! Convém dar mais atenção aos cotovelos roçantes e aos rissóis transbordantes :)

Beijos,

legivel disse...

... perfeitamente de acordo com o Gilbertus e com a Gi. Fartei-me de rir com o primeiro e desatei a chorar com o segundo. Vir aqui é o que dá: sinto-me sempre dividido...

a vizinha disse...

PARABÉÉÉÉÉÉÉNS!!!!!!!!... MUUUUUITOS!!!... :)

wind disse...

Escritora, bela prosa onde descreveste maravilhosamente a não comunicação.
Beijos

Pilantra disse...

Ainda te lembras de mim?

António disse...

Ó mulher, continuas imparável.
Tenho sabido de ti pelo teu rapaz e pelo Nuno.

Um @bração saudoso do
Zé do Telhado

legivel disse...

... "parabéns muitos!" quer dizer que aniversariaste?! e eu que perdi a minha agendazinha destas efemérides... se sim, que venham mais dez, mais vinte, mais trinta e por aí fora. Se não, ficam os parabéns pela escrita, que é coisa que sou um bocado avesso a dar (porque sou egoísta) mas tu mereces. E não te esqueças de mim (risos)

Francisco L disse...

essas coisas de primavera, quanto mais melhor
bjs ;)

Spectrum disse...

Sei que sabes escrever. Bem.
Beijos

cadeiradopoder disse...

Isso de roçar cotovelos tem muito que se lhe diga... gostei muito do poema, soou-me a qualquer coisa de original.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein