segunda-feira, 16 de abril de 2007

Azuis

E nem variaria nada se as deixasse ali, no banco onde estou sentada.
Banco de descanso ou de encontro ou de estar a olhar. Cada banco depositado a espaços certos ao longo do passeio da avenida. Banco de as mostrar a quem passasse no preciso momento em que, de muito pensado, me decidisse e zás, despachasse cada uma delas para diante do local em que as arrumo, muito juntas, debaixo da saia de flanela cinzenta com debruado de veludo castanho.
Nada variaria se as abandonasse e aos azuis arroxeados, intumescidos, por detrás de placas translúcidas sobrepostas como telhas, estaladiças à ponta de uma unha ou ao roçar de canto de cadeira. Impermeáveis à chuva que cai contínua, enquanto as penso retiradas, esquecidas de mim, pingando talvez vermelhos nas poças transparentes que os fios de água, sem colorido nem brilho, deixam no passeio calcetado. Fios de água que se despegam de um céu pardo sobre o banco em que as descanso nas meias de mousse. Na esquerda, neste momento, desliza uma malha. De cima abaixo, desliza como bicho. Formiga, pulga, carrapato.
Nada mudaria.
Cada uma jogada para muito longe de mim, metros para além do banco em que as descanso sob a madeira humedecida por esta chuva que não pára e me empapa o cabelo por baixo do capuz da gabardina. Descanso-as, antes do táxi ou de simplesmente me deixar ficar imaginando vê-las voar por cima daquele telhado. O mais alto. O que tem uma água furtada.
Talvez possam dissolver-se, enquanto as deixo, debaixo do banco, olhando eu os passantes. Dissolvida cada uma delas, na água desta chuva, arrastadas em azul e vermelho de artérias e veias ou sei lá eu que cor é o sangue que lhes sobe e desce, nem sei como disse o médico palpando, com o polegar, tocando de leve cada fio azulado, franzindo-se em esgar de entendido, quem sabe se de enojado, sobre o papo que era eu intumescida como um bicho-de-seda quase a virar crisálida.
Os dedos do médico calçados de transparente material que me semelhava o intestino mole das peças de caça que o meu pai abria, nas traseiras da casa, em África ou em outro local de um sonho meu muito sonhado, à luz do querosene, nas noites em que caçava uma pacaça ou um gamo e os esquartejava, sempre de mãos cobertas, olhadas nos sorrisos cínicos dos pretos.
Os dedos sobre os azuis de veia, ou seria artéria, saltadas da pele, distintas de mim, rompendo de dentro numa tensão de parto. Os azuis que descanso no banco.
Amanhã, ele disse, amanhã.
Amanhã, cada azul dissolvido, esborratado pela mão do homem de máscara. O que olhará o relógio, o de pulso ou outro, certificando-se da hora do almoço marcado no restaurante de fora de costume com a enfermeira do turno da noite de há quinze dias, a mesma que lhe disse que tem uma veia enorme no grande lábio esquerdo. Uma veia que intumesce todos os meses, de vinte oito em vinte e oito dias. Regularmente.
O relógio marcará um ângulo agudo. Duas horas e dez. A hora de eu ficar sem manchas, nem pesos, nem azuis doridos.
Amanhã.
Agora ainda estou aqui sentada, empapada na chuva que faz regato e podia levar cada uma e deixar-me leve, voando eu, não elas, sobre aquele prédio que tem uma água furtada.
Amanhã.

11 comentários:

maria disse...

Um texto excelente!!!

Obrigada pelo contributo.

Um beijo.

Gi disse...

Já li muitos dos teus textos mais antigos e ainda tenho outros tantos (muitos mais!) para ler. Não quero ser injusta mas este texto "talvez" seja o melhor que já li de ti. Se numa palavra o tivesse que adjectivar , diria fabuloso.
Uso pouco as palavras, quando o faço não é para "encher", é porque são sentidas. Gostei Seilá, gostei mesmo.

Francisco disse...

aplaudo

efe disse...

«...como se chama? A interpelada, com a mão tapando parte do rosto, ocultando a identidade e segurando a vontade de rir da situação, cómica, respondeu à meia voz: - Seilá!»

;D

in http://blogue.fcastelo.net/

wind disse...

Escritora mravilhosa prosa!
beijos

António disse...

Após um longo período sabático o Zecatelhado volta à "Nau". Ora faça o favor de fazer uma visita à minha "casinha" porque a sua presença é sempre imprescindível.
Aquele @bração do
Zecatelhado

Agora em www.marujinho.wordpress.com

wind disse...

Escritora tens uma coisa para ti no Words.
"faxavor" de ir lá ver:)))
beijos

wind disse...

Escritora, não te esqueças de escolher agora 5 blogs para atribuires o award:)
beijos

TINTA PERMANENTE disse...

Há, parece-me, por aqui qualquer coisa de semelhante (uma veia?...) a Poe...
Abraços!

Nilson Barcelli disse...

Excelente, cara amiga.
Os teus textos são verdadeiras peças literárias.
Publica, sim?
Bom fim de semana.
Beijinhos.

Anónimo disse...

Caros amigos,

"José Afonso", figura ímpar da cultura portuguesa, que trilhou, desde sempre, um percurso de coerência na recusa permanente do caminho mais fácil, da acomodação, no combate ao fascismo salazarista e pela liberdade e democracia, é tema de um selo que está em 5º lugar. Precisamos do voto de todos para que se faça um selo em sua memória e na memória da Liberdade.
Num período de exaltação de valores salazaristas, devemos contrapor com os nossos defensores de Abril!

“Venham mais cinco!!
Traz um amigo também!”


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Abril, SEMPRE!!

Davide da Costa

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein