sábado, 14 de outubro de 2006

fugas


Vem chuva. Disse ela, muito baixo. Apressa-te, vai chover. Repetiu. Falava num tom firme, com voz suave. Segura-te ao meu casaco. Ela disse e sacudiu o braço. Não te fiques para trás, repetiu quase só mexendo os lábios. Andava depressa com passos apertados, miúdos sobre os saltos muito altos e finos. O corpo sacudia como um caniço ao vento. A cabeça caminhava como os pés, em deslizares apressados, muito tensa. Vestia um casaco de visom imitado num corte de há muitos desfiles. Apressa-te, disse. O homem no abafo do sobretudo, destempado para um Outubro nascente, suava. Pesava-lhe o ventre que lhe crescera entre conhaques e mulheres com uns rabiscos em jeito de assinatura e uns buracos no relvado para acertar algum negócio. Era mais um jantar. Era o que ele pensava. Cresceram-lhe as contas nos bancos, cresceu-lhe a idade, até já os netos ele os via crescer. E a ele crescia-lhe aquela louca vontade. Não dissera a ninguém. Perguntava se não estaria louco. Não era viajar o que ele desejava, que isso ele fizera quanto quisera. Esse viajar não mais lhe apetecia. A sua vontade era assim, por exemplo, meter-se num combóio qualquer, sem estadia, sem cartão de crédito, sem nome nem morada, sem família, e ir, que mais não fosse, ficar assim uns belos dias descendo e subindo de combóio em combóio até se aborrecer ou, quem mais que ele desejaria, desaparecer por esse mundo fora num qualquer cenário que não lhe apetecia antever.
Chegámos. A porta rodou giratória e transparente. Do lado de lá o casaco de vison sorria despido por mãos sábias de o fazer. Cá fora, no passeio, um homem desdobrava, de dentro do bolso do sobretudo, um chapéu e colocava-o na cabeça.
Começara a cair uma chuva de bagos muito grossos.

7 comentários:

wind disse...

Escritora, altamente descritivo e as personagens no Outono da vida, como a chuva que às vezes cai agora:)
beijos

Maria Alfacinha disse...

...e em passo apressado, dirigiu-se à estação mais próxima... :-)

Beijo grande

Licínia Quitério disse...

Um belo final aberto. Não é para todos (as). Parabéns. Beijo.

Unicus disse...

Conntinuo deslumbrado com esta escrita. Tomei a liberdade minha amiga de linkar este espaço.

augustoM disse...

Viajar sem destino, é viajar ao encontro de nós mesmos.
Um abraço. Augusto

sotavento disse...

Obrigada pelos pontos nos is!... ;)

gato_escaldado disse...

Excelente pintura do "outono". Lembrando George Simemon e o "Homem que via passar os combóios". Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein