quarta-feira, 12 de abril de 2006

na casa de Lurdes

Vais passar o túnel antes de entrar na povoação. Ao sair, encontrarás, à direita, a pouco mais de quinhentos metros da estrada, uma casa amarela. A povoação fica a um quilómetro por detrás de uma subida, por isso não a vais avistar.
A dona da casa chama-se Lurdes. Os quarenta anos já lhe vão longe. É uma mulher vistosa e discreta. Muito vistosa e muito discreta, verás. O cabelo castanho usa-o entrançado salvo a farta franja que lhe cai sobre a testa, sombreando a pele cor de malva.
Paras o carro no largo frente à casa e desces para tocares a campainha do portão. Se aparecerem cães, não te amedrontes, são a Lassie e o Arquimedes, inofensivos cães de guarda apenas no dizer das meninas.
A Lurdes deve aparecer numa janela. Verás de imediato, mesmo ao longe, como o seu sorriso brilha e, mais ainda, quando ela, correndo, chegar junto ao portão torcendo entre as mãos o avental que em casa sempre usa de manhã à noite. Não te esqueças de levar uma caixinha de chá das Índias (não precisas embrulhar) e, se demorares mais do que uma noite, leva uma latinha de caviar negro estaladiço ao céu-da-boca.
Mal ela se aproxime, sem rodeios, nem falsas desculpas, antes dizendo que sabes que ela gosta, oferece-lhe a caixinha de chá. Vais vê-la sorrir de novo, agora como se fosse uma menina em aniversário e, se estiveres atento, verás como ela recebe a caixinha de chá com ambas as mãos em concha e os dedos polegares fazendo menção de a amparar. Verás como são esguias as mãos brancas e quase transparentes de unhas sem pintura rosadas e brilhantes.
É o momento de perguntares pelas filhas. Cristina a mais velha e a mais menina, Ângela. Há-de dizer-te que estão no colégio em Londres e verás uma sombra de mágoa, um véu diáfano a cobrir-lhe o rosto. Nada dirá do esposo, mas não te admires nem insistas, amigo. Nunca te falará nele. O velho senhor almoçará contigo um almoço apenas. Aproveita. Ouve-o. Falar-te-á do que nunca ouviste. Nunca.
Depois deste protocolo, indicar-te-á o quarto e, quando te abrir a porta, por favor, não faças um ar espantado. Limita-te a agradecer e a entrar. Quando estiveres sozinho terás tempo de exclamar. Verás, então, porque te indico esse local.
Não toques em nada, mas olha cada peça desse quase museu. O resto da casa, como verás, tem a decoração, requintada sim, mas em tudo igual a uma casa do Alto Alentejo senhorial. Mas os quartos, e eu já dormi em todos, são esse espanto que terás ocasião de admirar. Quando, à noite, apagares a luz, se o quarto se abrir numa profusão de répteis, ou numa reprodução do Inferno de Bosch, não te admires. Não percas tempo a indagar o como. Pasma-te, apenas.
E mais não digo que o resto, sabiamente, terás tu ocasião de ver, ouvir e sobretudo sentir, durante a estadia.
Na manhã, ao pequeno-almoço, a Lurdes receber-te-á na sala envidraçada. Fala com ela. Simplesmente. Conta acontecimentos. Conta-lhe. Inventa, até. Não fales de política nem de religião, mas de arte, de música. Gaba-lhe os doces, os queijos. Não lhe gabes a franja despenteada nem a trança. Nunca refiras a beleza em cores esfuziantes da roupa que veste. Não lhe digas da cor macia do seu rosto, menos ainda, do verde-água dos olhos pestanudos, enormes e sobretudo vivos e sobretudo observadores e sobretudo tão tristes. Cala essas cortesias. Deixa que lhe falem os teus olhos ou, em desespero, conta-lhe pequenas histórias de amor. Ela parece não ouvir, mas sabe cada termo que empregaste e o tom em que o fizeste. É natural que te faça, a lápis, um retrato. Não lho peças. Ela guarda-os numa sala emoldurados por ela. Há-de, sim, pedir-te que o assines na hora da partida.
E não lhe fales do quarto. Ela finge sempre que não sabe, franzindo a testa numa postura de seriedade. Abana a cabeça e a trança e muda o rumo na conversa. Dos quartos nunca fala nem permite que lhe falem. Só ela lá entra. Ela e cada um dos hóspedes.
Esquecia-me deste pormenor. Que cabeça a minha! Os quartos são individuais. Todos os quartos só permitem a dormida a uma pessoa. Não vale a pena solicitar ou fazer menção da dimensão da habitação ou da cama. A Lurdes sorrirá e, educada e distante, sem empregar a palavra não, far-te-á aceitar essa regra da casa! O que aconselho é não pedires. Aliás, o que aconselho é que vás e descubras.

.................................

Dobrou a folha de papel escrita em letra miúda e bateu com o pedaço de papel na testa com um sorriso largo no rosto. Amanhã iria conhecer esta Lurdes e a casa. Aquela forma de publicidade era aliciante, embora lhe sentisse um fundo triste. Era um singular projecto. Uma publicidade original bem personalizada. Quem assinava tinha sido cliente. Quem assinava era o seu ex-colega Adriano Estevães.
O Estevinha, como era chamado no colégio, conseguira deixá-lo de boca em água. Amanhã iria à descoberta.


9 comentários:

5 Pontas disse...

Lindo!
Beijo e fraterno abraço 5x

Helder Ribau disse...

o blog é fantastico...

augustoM disse...

É a primeira vez que visito o seu blog e gostei do que li, parabéns.
Um abraço. Augusto

wind disse...

Espectacular carta! Nem foi preciso lá ir fisicamente. Fui a casa da Lurdes, vi-a, estive com ela, falei com ela, dormi no quarto e adorei o pequeno almoço:)
Estou à espero do teu livro de contos;) Boa Páscoa. Beijos

quarentaom disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Amaral disse...

Espantosa descrição desta mágica estadia no quarto da Lurdes. Tenho a dizer-te que, respeitosamente, cumpri todos os avisos que me fizeste. Reparei nos seus olhos pestanudos verde-água, fez-me o retrato, que assinei.
Na casa de Lurdes passei momentos especiais, com esta leitura tão leve e tão contemplativa…

zecadanau disse...

Mais palavras para quê?

Votos de uma SANTA E FELIZ PÁSCOA

Um @bração do
Zeca da Nau

menina graça disse...

Tu não escreves, tu pintas quadros e depois dás-lhes vida! E sempre aquele toque de mistério... :)
Beijos e Boa Páscoa!

pipetobacco disse...

{ ...

na presença de; tão grande; qualidade do que é belo;
permaneço; sem termo;
pelo facto; laço-te algo tb:

e o negro «plano aterrado»

ainda forçado (sem retorno; ou dádiva)

e o negro «plano aterrado» ainda forçado e sentado no chão de olhos atirados para o infinito: a ignorância faz disto. mil anos depois sem tirar os olhos do horizonte dolente sem expressão no rosto, pelo menos visível, nem se lhe sentia as lágrimas que lhe corriam dos olhos. outra pausa. depois, depois assim-assim, lá foi andando sem rumo. sentia-se só. tinha que se misturar com a verdadeira terra que se tinha mudado não se sabia para onde.

então
nem tomou nota da sua nova morada.
sendo assim, teria que partir amanha.
não se sabia para onde.
não fazia mal . . .
?fazia

o calor sufocava de melaço untado no seu corpo largo e grande que quase reflectia o vazio. o que vale é que são poucas vezes. poucas vezes mais à frente. mais uma pausa. depois, depois mesmo assim ainda se sentia um baldio delicado, débil . . .

senão
cobarde
não se sabia de onde.
fazia-lhe muito mal . . .
?fazia

assim pensando, levantou-se e tomou os braços abertos, depressa, correu para onde se conduzia, para a frente. continuou atravessando mais à frente gritando: a ignorância faz disto. mil anos depois sem tirar os roucos da garganta possante com expressão no rosto, visível, que se lhe sentia as lágrimas que lhe corriam dos olhos ao chão. aos gritos «voando!»

está tudo morrendo!aterrado (sem volta; ou regresso)

© um.quase.nada ( © ricardo biquinha, in “um quase nada” )

boa páscoa

... }

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein