domingo, 2 de abril de 2006

À esquina

Ainda não nos tínhamos separado em ângulo recto na esquina da chapelaria. Déramos aquele pequenino impulso de largar os dedos entrelaçados e sabíamos que esboçaríamos um beijo que atravessando o ar atingiria cada um. Tudo gestos ainda de futuro. Sabíamos que, imediatamente depois de nos virarmos em sentidos opostos nas paredes da esquina, nada do que éramos antes do beijo esvoaçante e do desfazer das mãos entrelaçadas, existiria mais. Não ousávamos espantar-nos. Não ousávamos sequer pensar no que agora escrevo, exagerado e grotesco, nesta urgência de contar aquele instante que fossilizou de inesperado. Escrevo de urgência e mágoa.
A esquina estremeceu. O Senhor Edmundo da chapelaria, os dedos nos bolsos do colete, manteve-se imóvel o tempo necessário de desfazer o espanto. No passeio de fronte quase ninguém parou. Na manhã jovem, os cartões de ponto seguiam preparados no bolso de cada um. Apenas havia uma rapariga, parada no passeio. Era empregada na papelaria e balançava o habitual vestido rodado com grandes bolas vermelhas.
Antes que a esquina fosse, para cada um de nós, uma parede que acompanharia cada um afastando-nos, houve o estrondo e o escuro. Um escuro vermelho, um buraco que me engolia para longe de ti, um apertar que não deixava sair o meu grito, um túnel gigante em que me afundei.
Nos trâmites legais, a menina da papelaria e o senhor Edmundo,disseram que o estrondo foi repetido quase sem intervalo e que nós dois caímos. Não souberam dizer quem caiu primeiro. Sei eu que te vi. Tu muito esguia, muito lá em cima, enquanto eu descia no negro profundo, negro e vermelho até que deixei de te ver.
Disseram que a arma era uma variedade de pistola de CO2. Nunca me perguntaram, e eu nunca lhes disse, que era a minha pistola.
O que ainda não percebo, talvez nunca perceba, é porque fiquei eu vivendo este futuro mesmo ao virar da esquina. Percebo os gestos que fizeste, mas julgava-os outros, nem sei se os julgava. Não sei se os previa. Sei que não imaginaria que os fizesses no instante antes de nos virarmos em sentidos opostos nas paredes da esquina, quando o gesto de desenlaçar as mãos ainda se desfazia.
Nunca imaginaria.

7 comentários:

wind disse...

Espectacular! Escreves qualquer coisa. Para quando um livro de contos?:)A maneira como colocas as palavras no lugar certo, a visualização de quem lê, o que se sente, é mesmo extraordinário. beijos

De Amor e de Terra disse...

"...se um dia eu gritar abraço e apenas a palavra vier escrita nas ondas.."

belíssimo este verso.

parabéns!!!

Um beijo da

Maria mamede

zé das loas disse...

um texto belo. e poético. e raro. como apenas tu sabes! por isso aqui estarei. sempre. até que alguma esquina nos separe. beijos

5 Pontas disse...

Belo e lindo, como sempre.
Beijos e abraços, com amizade.
5x

Humor Negro disse...

A menina tem publicidade online no 5 Pontas. É assim, blogs com capacidade de investimento publicitário é coisa séria?
Tás boa Seila? Tens andado sem Razão pá. ;-)

zecadanau disse...

A gente vem aqui e... fica babadinho a ler estas coisas.
Eu já nem te digo mais nada.

Tudo de bom para ti menina.
Aquele @bração do
Zeca da Nau

lena disse...

extraordinrio o que acabei de ler

conseguir acompanhar cada momento, como se estivesse a visualizar, onde as palavras deslizam poeticamente, é realmente de quem sabe escrever e muito bem

encantei-me!

beijinhos para ti, muitos

lena

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein