sexta-feira, 24 de março de 2006

Quadrilátero



Eram quatro e cada um estava sentado num tamborete. Falavam entre eles. E falavam apenas para cada um dos restantes três. Para isso, formavam um quadrado com os corpos, colocando os joelhos para dentro do quadrado. Cada um dos lados tinha a extensão aproximada que vai do cotovelo ao outro cotovelo quando, atentamente, cruzavam os braços para ouvir um dos outros. Não formavam, pois, um quadrado, mas uma figura geométrica irregular com quatro lados. Um quadrilátero, portanto.
- Me diga, Mestre Jerónimo, que faço eu?
Era a fala de André, mestiço muito claro, o corpo musculado mais do trabalho árduo do que da juventude que ainda o rondava.
Mestre Jerónimo olhou, de olhar vivo, André, e foi fazendo gesto de agitar o queixo para cima em direcção aos outros dois. Mestre Jerónimo, de carapinha toda branquinha, seco de carnes, um acinzentado de muitos salitres sobre o negro da pele.
As mãos de André torciam-se apertadas uma na outra como se tivesse entre elas as guelras ainda vivas de um robalo.
Depois de um silêncio, acentuado pela impaciência de André, a voz cava do negro Cipriano falou assim:
- Você, André, deve ir na casa da moça e falar com o pai dela.
No rosto de André escorreu uma ruga. Ele balbuciou:
- Não...
- Você vai, sim, André, e eu vou junto. Melhor, nós quatro vai junto.
Estavam tão debruçados para dentro do quadrilátero que a cabeça de Cipriano tocava a cabeça do quarto homem de seu nome Damião. Como André, Damião era um mestiço claro, mas muito mais novo, o que se percebia quando, como agora, deixava soar uma voz de falsete:
- Devia dizer à moça antes de falar, senão ainda vira confusão.
Mestre Jerónimo reprovou com o dedo indicador da mão direita e a opinião de Damião desconstruiu-se na cabeça de cada um deles.
Mestre Jerónimo, André, Cipriano e Damião. Um quadrilátero numa conversa segredada. Um quadrilátero com um centro, o sítio onde caía cada letra que formava cada palavra e dizia a cada um o que pensava.
No centro, onde o sol quase não chegava, estava visível, para cada um, Angelina. A moça Angelina que apalavrara com André. A moça Angelina que dormira com André.
A areia ainda quente no início da noite. As palmeiras zonzeando seus ramos lá em cima. A baía reflectindo a lua inchada de cheia
. E Angelina tirando a capulana de sobre a nudez muito negra, a nudez muito aveludada. E os olhos de André rolando abandonados no corpo brilhando sob a lua. A areia dançava sob os corpos, entrincheirava os corpos na depressão da duna.
Os olhos dos quatro homens viam Angelina nua no local bem no centro do quadrado em que se sentavam. E suspiraram.
Inchara o corpo de Angelina que nem a lua que fazia naquela noite em que nem cacimbara. Desde aquela noite de lua, já passaram duas luas e Angelina sem regrar
Cada um dos homens ergueu-se e o quadrilátero desfez -se. André ainda virou o olhar, e viu apenas quatro tamboretes colocados na areia em frente da casa de Mestre Jerónimo. Não havia o quadrado. E não havia Angelina nua.
Os companheiros gingavam uns passos à frente. Lá ao fundo, sentado na porta da casa de barras azuis, estava Seu Miguel. André estremelicou. Parecia que o homem os esperava. Mas estremelicar para quê?! Eles iam dizer ao pai de Angelina que André casaria com a moça. Estremelicar para quê?!
Estavam a um braço estendido do local onde o corpo bojudo de Seu Miguel se distendia num sorriso disfarçando a surpresa. A essa distância, foi cada um deles, estendendo a mão, junta com um “Deus o salve Seu Miguel”, meio gaguejado pela parte de André que apressara o passo e chegara com eles.
Seu Miguel, depois dos apertos de mão, esticou as pernas e coçou a carapinha empurrando, para a nuca, o chapéu de palha.
Dois segundos de um enorme silêncio, até que, atabalhoado, André perguntou: “que é feito de Angelina, Seu Miguel?” “ eu engravidou ela e quer casar”.
Pronto já dissera. Sentia-se aliviado.Nem percebeu o que a seguir se desenrolou. Sonhava?!
O corpo arredondado de Seu Miguel ergueu-se e ficou a tapar a porta da casa onde a luzinha amarela se apagou. Ficou o negro da noite cortado pelo vermelho vivo que foi a cor que André sentiu quando Seu Miguel falou.
E disse ele:
- Lhe agradeço, André. Angelina me contou que estava esperando filho de você. Ia saindo bruto de fazer seu enterro, André, quando ela me disse “pai ele é um de uma fiada deles. Não vê o senhor que bela filha tem?” E eu olhei aquele corpo de mulher feita e me amoleci. Abracei feito ela menina e pensei em meu neto. E disse a ela:”filha faz o que você quer” E ela foi no comboio da manhã sem dizer para onde.
Aproximou-se de André, colocou a manápula gorda sobre o ombro, e disse:
- Angelina vai parir e trazer o meu neto e seu filho para nós ver. Mas casar, não, André, ela não quer. Mas eu André, moço, eu lhe agradeço.

(....)

Chamou-lhe Maria.
Angelina colocava-a a dormir entre os tampos de quatro tamboretes deitados na areia, bem no meio do quadrado que formavam.
Nas noites de lua, diz-se, sempre se viam as sombras de dois corpos nas dunas enquanto Maria, protegida, dormia.


14 comentários:

Arion disse...

Que espanto! E eu acho que, mesmo daqui, a tantos quilómetros, já vislumbrei esses corpos, essas dunas... Que maravilha!

wind disse...

Bem, quando penso que não me podes surpreender, apareces com este magnífico texto, estilo Mia Couto:) Estás à espera de quê para editar um livro de contos? Mas voltando a esta história, está fabulosa a maneira como está escrita, o ritmo, a descrição, as cores, os feelings, a imagem, enfim tudo:) És mesmo espectacular! beijos

Nilson Barcelli disse...

As mãos de André torciam-se apertadas uma na outra como se tivesse entre elas as guelras ainda vivas de um robalo.

E os olhos de André rolando abandonados no corpo brilhando sob a lua.

Eu já te sabia escritora.
Mas nem tanto.
Com este conto (o anterior também é bom) tens a chave para fazeres o que tem de ser feito: não sei a quantidade de contos que tens já escritos, mas pega em meia dúzia deles e bate à porta de um editor. Ele vai querer ver mais e vai-te publicar um livro de contos. Para começar, porque depois vai querer um romance ou coisa parecida.
Porque, minha querida amiga, já vi contos menos bons que os teus escritos por escritores com bom nome na praça. E tu és uma escritora. Se não o sabias passas a sabê-lo.
Eu não tenho grande formação literária, mas ao ler-te sinto que o teu destino/objectivo não é escrever no blogue, mas sim para que milhares de pessoas te possam ler em livro.
Trata lá disso e manda a Física e a Química dar uma volta. Deves escrever a tempo inteiro, fazer disso profissão.
Beijinhos

lique disse...

Eu até vinha fazer-te um grande comentário, assim ao jeito daqueles que às vezes me apetece fazer-te. Mas li o que o Nilson disse e não digo mais nada. É isso mesmo. És uma escritora, sobretudo uma contadora de estórias nata. Não desperdices esse dom. :)
Beijão

Rui disse...

Acredito que sim, que se vêem.
Lindo.

Poesia Portuguesa disse...

Há muito que por aqui não vinha. E, de repente aqui estou, a ler-te. Mais do que isso, a sentir no meu coração, toda uma forma de escrita, que me enche a alma...
...E, porque…precisamos de Amigos para Viver…porque de repente me lembrei das palavras de um Poeta, que muito amo...


"Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua."

...e, há momentos em que as palavras nos saltam aos olhos de uma forma, que nos preenchem de tal maneira, como se fossemos nós a escrevê-las...

Tudo isto para dizer-te, que levei "emprestado" um Poema teu, para o meu "refúgio"... se houver algum inconveniente, diz, que o retirarei de imediato.

Um abraço e bom fim de semana :)

BlueShell disse...

Tão fácil ler-te e entender....tão fácil ver a semelhança connosco ...com coisas e situações que já vivemos...
Hoje deixo um apertado abraço

BShell

De Amor e de Terra disse...

Olá!
É a primeira vez que aqui venho e devo dizer que GOSTEI MUITO!!!
Escreves bem, muito bem. Acho realmente que és "Uma GRANDE contadora de estórias" talvez uma questão de sangue e amores.
Parabéns!!!
Voltarei
Um beijo da
Maria Mamede

agua_quente disse...

Palavras que nos trazem cheiros e sentires de terras distantes. E dão vida ao que (d)escrevem. Extraordinário.
Beijos

ognid disse...

Lindo, lindo, lindo! É tudo o que te consigo escrever minha Amiga. Faz o que a Lique te diz marafada (às vezes ela diz umas coisas de jeito 8) ). És uma Escritora!!! Bjs

Armando disse...

Curioso mesmo..ficamos sem saber se é original ou um trecho de algum livro!! De qualquer forma uma historia em traços gerais e largos mas bonita!! Caso seja de tua autoria... Parabéns!! Eis o exemplo de um trabalho literário excelente!!Deveras excelente!!

legivel disse...

Quanto ao post, lá volto ao lugar comum (escrito embora com sinceridade e que sabe sempre bem a quem escreve) do MUITO BEM!

Sobre o outro assunto, está descansadinha, que eu volto! e ainda (e sempre) pior que antes; se não, que piada teria isto?! O conformismo e choradinho desbragado?!

Até já...

Armando disse...

Pois... é o que faz ter 4 blogs...!! Depois não consegues ter inspiração suficiente para dar "alimento" a todos!! Vá lá...actualiza isto!!

Paula Raposo disse...

Lindo. Lindo. Adorei ler. Beijos.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein