terça-feira, 18 de outubro de 2005

a contra luz

Nunca pararam em frente de uma montra, repleta de arrumado vestuário, olhando nela o mundo inteiro na forma de fantasma?
Os vestidos saindo em formas de pessoas
Aquele saia casaco, mais apressado, quase a furar a montra junto ao vosso ombro
Nunca sentiram aquele roçar de sombra que desliza por detrás de vós enquanto preparam legumes?
Um roçar de corpo em vosso corpo. Se de relance buscam, é sombra de gente afastando-se
E nem precisam explicar-me que é noite... Comigo acontece de dia. Ao pino do meio-dia. Na hora da sesta. Ao por de sol. Numa tradicional madrugada , claro.
Naquela noite, foi diferente e único.
Entrara em casa pelas duas da manhã. Vivia, então, ali à Ajuda numa casa antiga na travessa da Memória. Meti a chave na fechadura. Pensei: tenho que mudar esta fechadura antiga...e fui abrindo a porta. Entrei devagar. Sem ruído mais que o necessário. Fechei a porta com duas voltas na chave. Rodei o velho interruptor de porcelana na parede do lado direito. Fui subindo a escada estreita e inclinada. Lá em cima, no pequeno pátio de acesso à casa, liguei o interruptor da sala, desliguei o da escada. Por esta ordem o fiz, de modo a ficar sempre com luz. Atravessei o corredor até à extremidade. Tinha sono. Sentia o cansaço de uma noite de jantar e reunião. Entrei na cozinha. A iluminação pública banhava a janela ampla, envidraçada. O reflexo no chão projectava luz coada nas paredes. A cozinha estava como que envolta em sombreado. Tirei do frigorífico uma garrafa de água. De cima da bancada, segurei um copo ali esquecido. Bebi a água. A água deglutida sem pressas. O copo vazio colocado na pedra da mesa.
O copo vazio retirado de sobre a mesa da cozinha.
Uma mão muito branca agarrando o copo. O copo deslizando de cima do balcão para o ar. O copo sempre seguro na mão. O ruído da água escorrendo muito devagar. A água bebida por alguém com uma mão muito branca.
A luz da cozinha que acendi. A mão e o alguém perdidos na luz. O copo vazio colocado na outra ponta do balcão.

Nunca vos aconteceu algo semelhante?!! enigmático?!!
Ou será que também não me aconteceu, apenas terei dado atenção à Realidade por detrás da Realidade?!!

8 comentários:

wind disse...

Excelente texto. Fiquei agarrada ao écran de olhos esbugalhados. Escreves tudo, até parece um episódio dos X-files:) beijos

Nilson Barcelli disse...

Não, nunca me aconteceu isso.
Mas deixaste-me arrepiado...
O que demonstra que o teu texto foi bem escrito.
Beijinhos

gato_escaldado disse...

escreves muito bem. mas isso tu sabes. e direi até que "abusas" de nós. esta noite vou sonhar com fantasmas...

beijos

lique disse...

Deu-te para aí, agora? Vamos lá desfiar os fantasmas... literais, porque há dos outros, também.
Por acaso, nunca me aconteceu. Mas á mesmo por acaso porque a minha mãe e a minha avó contavam histórias de pôr os cabelos em pé... assim como esta! :)
Beijão

Zecatelhado disse...

Eu juro que te vou chatear a peúga até ao dia do juízo final:
QUANDO É QUE DECIDES PUBLICAR ESTAS COISAS????
Ainda ontem achaguei o juízo ao teu rapazola engenheiro por causa disso. Tem uma boa semana.

Aquele @bração do
Zecatelhado

eduardo disse...

Acho que foi mais a tua última questão, Seila.
Por qualquer motivo, também podia ter sido os efeitos do "Vince" mas a tua imaginação é fértil para se afectar com essas coisas, hehe...

Tem um bom domingo, rapariga.

Beijokas

mfc disse...

Nunca me aconteceu... mas é ficção ou realidade??!!

Zecatelhado disse...

Ai agora também decidiste fazer concorrência ao Edgar Alan P.?
Pois ele que se ponha à tabela ( já morreu ) que lhe comes as papas na cabeça.
Vou pensar em arranjar-te uma editora.

Aquele @bração do
Zecatelhado

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein