quinta-feira, 28 de abril de 2005

Chocolate

Este hoje é dedicado
Ao pessoal d’oblogdalibelua que faz um aninho
À Sotavento ca mecinha hoje (e sempre...mas NÃO faz anos carago!!!) merece tudo



Ao fundo da sala a parte antiga de mim pinta os lábios de vermelho. O batom esborrata-se nos cantos e eu lambo. Sabe a amora com travo de ranço. Um batom, como eu, rançoso. O fato que visto é verde. O brilho que tinha ainda se nota na bainha. No resto, e sobretudo nos sovacos e nos em redor dos mamilos, também na cintura, o brilho do tecido deu lugar a um baço verde. Quando iluminado, parece branco, opaco, quase roto. No cabelo, camadas de cores antigas esconsas num acobreado. A ondulação larga e fingida descai-me sobre a testa. Eu sentada com o cotovelo apoiado na mesa lá bem no mais escuro fundo do salão. Eu. A que vive perdida de mim há anos. Eu a que não morri. Velha?! Não! Desgostada da vida. Busca-me a cada canto. Olha, noite após noite, que eu passe na rua quando volto, pela madrugada, já as gentes se indo para os afazeres de um dia. Olho-me. Eu a procurar-me naquelas mulheres que conduzem carros. Naquelas mulheres que se sentam displicentes no balcão de um bar tomando o pequeno-almoço. Naquela que folheia revista de decoração de casa, na outra que começou a aula e se debruça sobre uma criança, na que não dormiu e sai do hospital zonza pensando. Naquela que descobriu a um olhar, um rasgão vertical na meia preta muito esticada, muito elegante, muito feita para ser vista. Eu de cabeça em volta busco-me e não me encontro. Eu olho-as todas num cansaço. Puxo a aba do casaco de uma imitação de burel castanho e afofo ao cabelo a boina. Aconchego as luvas entrelaçando os dedos uma mão na outra e aproveito para um bafo de quentura lhes deitar da boca. Endireito as costas e o pescoço levantando o mais que posso o queixo e sinto que este gesto me obriga a um pisar mais forte no cinzento do asfalto coberto de geada da noite. Sinto as botas a tocar a saia cinzenta por baixo do casaco. Sinto o soutien mover-se roçagando os bicos dos seios. Sorrio a este sentir do corpo. Olho-me no espelhado de um carro. Encontro eu ali na imagem. O cabelo parece penteado e com corte. O ondulado ganhou forma de naturalidade e a cor de um cobre natural, sombreada de muitos entremeados brancos. O batom...Continuo a andar. Busco-me a mim. Paro defronte de uma cafetaria. Na montra há um espelho que multiplica os detrás dos bolos. Fez-me fome e vontade de uma bebida quente. Um chocolate grosso! Eu, parada frente à montra, pensando chocolate quente. O espelho envia a minha boca reflectida. Uma boca sem batom! Uma boca de cor rosada. Encostei o nariz no frio do vidro. Eu queria ver se era eu. Olhei com força no tal espelho que fazia muitos os bolos na montra. Debaixo dos cabelos caídos para a cara, descobri um par de olhos de mim! Um par de eu a olhar para mim!
Meti as mãos nos bolsos e com o ombro empurrei a porta rotativa e dei uma, duas, três, tantas voltas sem entrar no café. Fiquei andando de roda na porta com aquela eu que encontrei. Mas há mais de mim, eu sei!

Estarei em casa lendo?! Será que estou na cama revendo o êxtase de há instantes, revolteando lençóis meu corpo desvestido, saciado fazendo-se-me afagos?! Ah! Serei a que desabriu a janela para penumbrear sala onde tem marido doente?! Não?! andarei cantando num jardim?! Ah! Estou nadando numa praia no outro lado desta rua, quero eu dizer, no outro lado do mundo!!
É! eu ando por aí em muitas muitas tantas e estou aqui escrevendo assim... ando por aí....

ando por aí!!!!

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eu a acabar de escrever este texto e trazem-me esta caixa de chocolates embrulhada num sorriso
a vida é feita de pequenas coincidências algumas de chocolate...
saborosa!
é mesmo de lamber os beiços!





14 comentários:

Yardbird disse...

E não o trataste logo por Mon Chéri? Sim, que não acredito que depois de tamanha gentileza lhe chamasses Ambrósio lol!!!
A última parte do texto está toda lambusada de chocolate. Gulosa!
P.S.- Quem escreve assim, não creio desgostada da vida.
Dia bom para ti. Beijinho :-)

ognid disse...

mau, queres ver que a Sota está de parabéns e não disse nada a ninguém? o teu texto tá lindo marafada :) um beijão só pra ti

wind disse...

Mais um excepcional texto. Cada vez me deixas mais sem palavras para dizer algo. Muito bom:) beijos

Nilson Barcelli disse...

Gostei de te ler no papel da personagem. Basta fechares os olhos que as palavras saem-te, organizadas e boas, para dares cor às ideias como se pintassses uma tela.
E, no fim, o merecido prémio, quiçá apenas o prelúdio de bombons ainda mais gostosos... Sim, porque me pareces gulosa qb.
Beijo*** e um bfs.

Alexandre Sousa disse...

Numa corrida vim até aqui deixar um beijinho e desejar um bom fim de semana

bertus disse...

...vamos por partes;
O texto está uma lindeza, daquelas que tu sabes fazer muito bem para pôr o pessoal a ler e a tentar saber mais um pouco dos quotidianos da vida (e de vidas)e das procuras de nós próprios. Parabéns!
Como só hoje te comento, só hoje li a cena da Sota. Parece mentira! nem um avisozinho a tempo; fui lá, hoje desfazer-me em desculpas e não sabendo de facto de facto se a tua frase quer dizer "aniversário". Só tu!
Não te sabia gulosa. Mas fiquemos por aqui nesta àrea, que se não lá vem à baila a história dos bolos "mal contada"...

Beijos e intés!!

lique disse...

Minha grande gulosa, pões a cabeça do pessoal à roda com os textos que escreves e depois atiras-nos assim com chocolate! :)
Também gosto de pensar que "ando por aí, em muitas muitas tantas".
Beijão

O Micróbio disse...

Começas com um Parabéns e acabas lambusada de chocolate! Bom fim de semana... :-)

LibeLua disse...

O teu texto está deliciosamente feminino... A personagem solta-se em várias de si que sabe existirem no tempo e nunca se desfazerem na bruma. Procura-se mas não se encontra una. E no entanto descobre-nos ângulos vários do seu multifacetado ser. É sempre um prazer seguir-te nestes labirintos narrativos. Ah, já me esquecia, em nome do pessoal lá do blogdalibelua deixo agradecimentos mil e um beijinho com sabor a chocolate. Quem te ofereceu a caixa, sabia o que fazia...

aflores disse...

Com o chocolate me enganas... adorei;)

bertus disse...

...emendar o que escreveste antes (induzindo em erro quem por aqui passa) é batota.
Antes, não tinhas escrito "...que não faz anos...!"

Intés!!

agua_quente disse...

Hummmm.... ler-te e comer chocolate! Perfeito. :)) Beijos

manuel disse...

Mas o que tu desejevas mesmo era chocolate... quente! A caixa de chocolates foi mera compensação: deu apenas para lamberes os beiços...

(grato pela referência ao "pessoal" do "blogdalibelua": embora teimes em ignorar é por lá que deixo os meus textos...rss)

beijo

sotavento disse...

Uma história tão inocente e até doce e as confusões que fez nas cabeças complicadas!... :)

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein