sexta-feira, 15 de outubro de 2004

Escrever...agora...


Era costume escrever mais tarde.
Pela madrugada quando tudo dorme.
Naquela manhã alonjara-se da hora de fazer os fazeres de ninguém. Outrora houvera a casa e havia a escola e a havia o reboliço dos risos e os choros e os ralhos. Havia os horários e os cortes dos vestidos, as bainhas ...os pontos. Os deveres da escola. A vela. Os acampares.Outrora fora há tanto e parecia agora. Ou seria ao invés?! outrora fora há pouco e parecia há tanto?! Deixá-lo! O tempo passando. Eles foram vivendo. As casas desandaram. Cartas já não havia. Hoje, apenas ela, normalmente, diferente de hoje, pela noite adentro, escrevia.
Estava, notava enquanto remorava/revivia/percebia, sempre, sempre de ouvido atento. Não não era ao cão, nem ao ruído na porta (ele vinha vinha sempre não se surpreendia) . Este ouvido atento que se lhe apercebeu sempre de ouvido à escuta, sempre de ouvir esperando, era de outro ouvir. Era, o apercebia, como outrora o bater, repenico trinado, conhecido, a tempo. Mas, estava na hora, precisava escrever. Não que fosse costume fazê-lo àquela hora assim, depois de nada, ainda o sol pinando o de cima do monte e uma luz suave mas ainda bem forte, azulejando o chão lavado. Estava ali sentada meio de esguelha. Apenas metade da coxa no tampo da cadeira. Outrora havia sempre a voz a dizer-lhe que se sentasse bem. Outrora. Agora nem sentia. Estava assim sentada ao acaso. Sequer era porque apetecia. Calhava. Debruçou o corpo no castanho da mesa. Ficou. Os olhos entreviam para o delá do écran. Os ícones de apagar, abrir, refazer a letra em muitas tantas letras que nunca era a sua. As caras sorridentes que pusera no dito de Ambiente. Via para lá. Não estava nada ali. O corpo descaiu um pedacinho mais. A cabeça poisou no dobrado do braço. Ouviu um estalido. Não. Não era aquele o tal que sempre estava à espera que soasse ao ouvido. Desapercebeu-se deste. Nem sequer o ouviu. No écran giraram alguns ícones. As horas de escrever não eram mesmo aquelas. Outrora sabia ela quando. Mas ali não estava atempando. Bem bastava o relógio fazendo tic tic. Tempo apenas o medido. Aligeirou a manga que apertara o pulso. Um gesto tão sem gente como se fora outrem que assim a colocasse. Ainda mais, assim, num quase tudo nada de descuido.A roda desandando. Destempada.(Des) sentia tudo/não sentia nada. Apenas num delá de outroras lhe mergulhara o tempo e esse era agora ela ali sentada, debruçada no tampo de cima do teclado espelhando o monitor. A cabeça parada no de dentro, no delá do que se podia ver. Um cabeça inclinada sobre um braço rosado, afagado de leve por cabelo inda farto e apenas, só apenas, levemento branco.

- Adormeceste?
Ouviu.
–Não! Estava a tentar escrever, mas... esta não é a minha hora.
E sorriu.
Ele vinha sempre voltava sempre. Nem se apercebia.
O telefone soou (ou era o telemóvel?!).
Clicou. (clicar era termo que gramaticara ali e no de escrever que num tempo de dar lhe ofertaram e ela se impusera que a mão entorpecia na escrita habituada e gostada de caligrafia).
-Está?!... Tá?!... Viva! Olá!!! (.....) sim...diz......
(Era a filha! )

25 comentários:

Tim Bora disse...

Agora vou jantar, depois vou ler este texto com muita atenção e deixar o meu comentário. Este foi só para ser o primeiro, mummy... rsrs.

Tim Bora disse...

Agora li e que é que eu posso dizer? Que me divirto a ler-te?Que fico com aquele riso a que já não chamo estúpido porque já o compreeendo? Que no alonjar dos destempos há neologismos que soam bem? E que se compreendem? E que provavelmente seriam necessárias frases muito maiores para transmitir uma mesma ideia, não fossem estes neologismos? Aquele outro tempo, o do real que o italico realça e este novo tempo o do imaginário baseado no outro. Porque na realidade o relógio não faz tic-tac, é mesmo tic-tic. E antes que me ponha para aqui a divagar, despeço-me. Mas talvez volte.

Anónimo disse...

Meu Deus, ler-te é sempre uma benção dos Deuses:) Os olhos não despegam do écran e é uma prosa tão po´etica o que vejo e sinto;) bjs. wind

ognid disse...

A tua prosa prende-me cada vez mais. O alternar entre o presente e passado (flashback) está soberbamente bem feito. Gostei muito. Beijinhos.

Anónimo disse...

Li-te, reli-te e comentei-te, mas não sei o que dizer, pq a esta hora, já n penso!
http://sunshine.blogs.sapo.pt/
http://pequenitos.blogs.sapo.pt/

Anónimo disse...

Oi Sei la, bom dia...Obrigada pelas visitas!! Fica com Deus...Um ótimo final de semana!! Bjuss

Quase um anjo

Tim Bora disse...

É verdade, lê-se perfeitamente. Em inglès deve resultar ainda melhor.

Anónimo disse...

Aqui estou outra vez para em "comnetário sério" dizer-te que mais uma vez adorei este texto!! E mais uma vez acho que não tenho palavras para achar coisa nenhuma.. :)...
PS: Os meninos comportem-se qunado estão de visita ao bolg de terceiros...LOL ** Bom fim de semana!

lique disse...

Mais um texto em que (re)inventas palavras, alternas o tempo da narrativa e nos prendes do princípio ao fim. Por onde andou escondida a inspiração que escreveu estes textos? Estou a conhecer-te de novo e a gostar cada vez mais. Beijinhos

Anónimo disse...

Texto interessante... Tem um ritmo tão próprio, tão conseguido que... agarrou-me assim pela mão nas primeiras palavras e só me largou mesmo no final. Gostei.
... e eu só cá vinha porque li o comentário no “A Verdade da Mentira” (Blogues- porquê?, para quê?) e, quando chegou aquela parte da cozinha e da roupa, desatei-me a rir... É que eu nem tenho nenhum blog (o meu marido, o Vitor, é que tem) e quantas vezes não deixo a cozinha toda por arrumar e mais não sei quantas coisas por fazer porque me perco por aqui, em leituras na blogosfera. Portanto, ó amiga Seilá, isto é mesmo viciante.
Um abraço, gostei de te ler

Ana (http://a_verdade_da_mentira.weblog.com.pt/)

Tim Bora disse...

Lamento ter constatado, através de comentários deixados noutros blogs, que estás engripada. É habitual nestas ocasiões desejar as melhoras e deixar uma receita que possa ajudar a debelar o problema. Pois desejo-te rápidas melhoras e receito-te, talvez dois bagaços.

MWoman disse...

Gosto deste jogo de palavras cadenciadas! Gosto, pronto!
Já não é a primeira vez que aqui venho espreitar em silêncio que agora senti necessidade de quebrar!Beijo
http://devaneio.blogs.sapo.pt/

whiteball disse...

Lindo como sempre! De um visualismo tão rico que nos faz estar "lá" no texto! Gostei mesmo. Um abraço de nós duas...

Cecília disse...

Este texto tem música. Aprendeste a escrever assim ou sai naturalmente?
Bjinhos. Boa semana de trabalho.

pipetobacco disse...

{ ... continuo nestas palavras sempre aprisionado. pontos e nos, visão anunciada, utopia desfolhada… fugir tento, mas não posso. fico, leio e gosto, continuo © pipetobacco ... }

Anónimo disse...

(de willnow) era costume termos tempo para conviver, e ler, e escrever e também viver e também para o costume de.

bertus disse...

...pois. Quase me apetecia dizer , escrever, pois e com isto digo tudo, mas tudo pode ser muito pouca coisa, não? e depois começavas a imaginar coisa, tais como o gajo nem lê o que escrevo e limita-se a pôr para aqui umas palavras mal alinhavadas que habitualmente nem têm nada a ver com o texto que escrevi, ele pensa que não o topo e por aí adiante. Só que eu não sou desses , qué que julgas? leio-te de fio a pavio e muitas das vezes releio mais duas vezes porque a minha cabeça já não é o que era que os anos vão pesando e para me lembrar das coisas é um castigo...podes ficar descansada nesse ponto que eu sou muito certinho e se digo que li é porque li mesmo, percebes?! nem te admito que te passe pela cabeça o contrário! A propósito: o que é que escreveste mesmo???

Gostei. Fica bem, beijos e intés!!

lua_sol1 disse...

Olá. Os momentos passados revivo-os novamente. (Deves saber). Que posso dizer? Simplesmente que li,reli e vou voltar a ler. Cada dia fico mais surpeendida... Beijinho

Anónimo disse...

Vim cá ler o teu novo artigo. Como não há novo artigo, voltei a ler este. :) Beijinhos!
http://sunshine.blogs.sapo.pt/
http://pequenitos.blogs.sapo.pt/

M.C. disse...

tens uma forma tão própria de escrever que me deixas sempre assim aqui coladita a ler tudo (e tudo e tudo).
Cá pra mim isso só pode ser obra dos deuses!

O Micróbio disse...

Não há momentos para se escrever... agora, depois, amanhã, ontem... qualquer altura serve!

Tim Bora disse...

Agora às voltas com o "That old devil called love", não é verdade? Vê se deixas uma batata quente para o que vier a seguir (espero não ser eu, ainda), eheheh!! Força.

Tim Bora disse...
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Anónimo disse...

Calma! eu apaguei, sim! o Tim...tava dobrado, quer-se dizer: duplicado...tá Tim?! pois o raio do Devil, sim...deixa pra lá alguma coisita se há-de arranjar...

Seila disse...

fui eu! bolas e eu COM TANTO para fazer e práqui a desblogar :)

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein