quarta-feira, 20 de março de 2019

cardamomo ou nem por isso


Não sei se o cardamomo alivia dores de alma, se as bagas mínimas que ejecta das suas duas meias conchas fariam um chá que acalmasse este meu desassossego. Talvez apenas alivie quem grite num desespero: "porra que me doem as cruzes" . Talvez.
Para o saber, teria que consultar os livros. 
Certo que poderia fazer uma busca na internet, mas isso é coisa para que raramente tendo, que eu prefiro tirar da prateleira a pasta mais farfalhuda que lá tenha, aquela onde sei ter deixado registo acerca de plantas e suas virtudes; tudo manuscrito, tudo naquela letrinha arredondada que eu então tinha, que até a letra se me tornou diferente com o passar dos anos; talvez encontre o recorte de um jornal que num sábado do século passado, informasse serventias dessa planta oriunda das índias, essa, e agora me recordo, que é um poderoso afrodisíaco.
Com ou sem cardamomo, terei que centrar-me, inteira, num cardume de objectos, tão unidos a mim como a carta  aos selos que a lacram, o meu corpo disposto a sentir o que nunca aprendeu a ter em conta: o peso e arredondo dum pisa papéis de vidro com ou sem a torre Eifel lá dentro, o áspero na madeira dum pião e o frio bicudo do pedacinho que irá rodopiar, primeiro em cima da carpete e depois, com jeito, na palma tremente da minha mão, haja, ou não, a ajuda de um chá de ervas, uma tisana, ou que eu mastigue cardamomo, o que me porá, ao menos, um hálito de anjo.
Eu a sentir o cocegar redondo do bico de um pião que nem existe senão na minha imaginação. Eu a tremelicar ao ritmo do seu rodar na palma da minha mão, eu que, como todos, presumo, não fui atenta, uma dia a seguir a todos os dias desta minha vida, aos pequenos gestos, aos pequenos objectos, ou que sejam eles imensos; desatenta do seu toque, do seu manusear; eles a encostarem-se-me, a executarem perante mim os seus trejeitos e eu alheia, ainda que a observá-los, ainda que a tocá-los; cada objecto a interagir como este meu corpo que estremece, o coração sobretudo, se o objecto ronca ou faz apito ou simplesmente é, como o pisa papéis, fresquinho e redondo e liso: tão lisos e suaves que são alguns objectos!
Tão suaves ao caírem no chão, e não é o caso, claro, do pisa papéis de vidro, nem do pião ao caírem num soalho, mas será, de qualquer um deles se embaterem no fofo de um édredon de penas; como será suave, ainda que jogado, o cair  dum lenço de seda seja onde seja que caia.
…e se o lenço de seda cair no fogo?!
E é para resposta a perguntas como esta, que eu duvido que haja cardamomo ou planta outra que me valha.
Mas vou conseguir, doa o que doa, que eu hei-de rememorar todos os sentires que tenho tido dos objectos mais díspares, e farei tão bem como se os tivesse em presença embora nem tendo deles mais do que a memória de como os tenho interagido.
Serei capaz de dizer, apenas com a fala do meu corpo: isto que tenho aqui na mão é uma agulha, uma tesoura, um prato, um alicate; e dizer de como é fofa a cama em que nem me deito; ou de como é alto o local do céu onde sobe o meu papagaio. 
Olhem, olhem que colorido!! exclamarei eu, apenas com os dizeres do corpo.
Olhem este redondo onde enrolo a guita que pego na mão esquerda, direi a fazer o gesto certo;  olhem como jogo o objecto pelo chão e o apanho, os dois dedos, o anelar e o do meio, afastados um do outro para que ele pule sobre a minha mão; olhem como rodopia, e como eu tenho cócegas e pisco os olhos dessa pura impressão!
Viram o meu pião?! serei eu de olhos esbugalhados, o pião a rodar apenas no meu imaginário, apenas no meu gesto que é, muito cá do fundo da minha alma, o grito que calo: viram este objecto que manuseio?!
Não viram coisíssima nenhuma e é esse o meu drama, o que me faz, até, num desespero, talvez numa esperança, apelar às propriedades milagrosas das plantas, lembrar-me, até, inopinada, do cardamomo.



2 comentários:

wind disse...

Também quero essas mezinhas, qualquer dia estou como tu:)
Beijos

Debs disse...

Caí aqui por acidente. Entretida em buscar no dicionário o significado da palavra "tisana". Dei de cara com seu texto e o li enquanto bebericava uma tisana de alho e limão.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

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ai meu Abril, meu Abril...




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"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein