quinta-feira, 4 de novembro de 2010

coisas de família

O António era um moço redondo.
Não que ele fosse gordo e baixote, que o António era possuidor de um bom metro e setenta e dois sem contar com a espessura das solas: botas cardadas e com brochas.
O António era redondo no modo.


Filho do senhor capitão, António cresceu a sentir que ser chamado para o lanche pelo vozeirão da criada lhe dava um estatuto em tudo diverso dos outros rapazes – os que lhe gritavam mariconço e faziam António desbeiçar-se em choros.

Quando foi às sortes, António ficou apurado, que nem aquele defeito de encanar ambos os olhos em cima do nariz o livrou da categoria de escriturário.

Dona Amélinha rogou que o marido interferisse para que o seu menino não fosse em comissão – não via o pai que melhor ficaria o António a gerir os destinos da quintinha do que a bater com os costados nas colónias?!

Não, o capitão não via.

E Dona Amélinha, de lenço torcido na mão esquerda. E o capitão a chupar o cachimbo.

Pimenta de Almeida. Anatólio Pimenta de Almeida, capitão na reserva. Afastado das paradas dos quartéis por conta de uns assuntos. Segredos mal mantidos. Coisas de secretarias e dinheiros. Estivera mesmo preso por dois meses.
Dono de uns bocados de terra e da quintarola arrimada às ameias da cidade. Heranças. O marido de Dona Amélinha recusava cunhas.


E António, muito loiro e leitoso de pele, embarcou no Timor num dia vinte oito de Janeiro.

Nem Angola, nem Guiné, nem Moçambique. Terá sido o mais que o pai de António terá intercedido.
Corria o ano de sessenta e oito.
Nos ombros, a reluzirem ouro, as divisas de furriel miliciano.


1 comentário:

wind disse...

Escritora, é sempre bom relembrar.
Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein