sábado, 31 de julho de 2010

o pato

No outro dia...
Eu a alinhar palavras para contar o que se deu eram quatro em ponto
Mas isso era se eu fosse dona do poder de contar, de escrever qualquer coisa como: hoje aconteceu, eram quatro horas e o ceu estava com uns penachos de nuvens
E continuar com verbos, pontos de exclamação, vírgulas e  muitos pois, mas, senão, entretanto, depois de...
Mas eu perdi a sabedoria de escrever o que aconteceu : como estava a temperatura, se chovia ou estava o tempo a anunciar trovoada, quam entrou e quem saiu e a razão
Perdi esse saber dizer, escrever apenas,  sem outros ritmos que não os do decorrer da trama enleada no tempo
Se nem a consolação dos olhos verdes de uma menina e nem palavras alinhadas entre dois pontos parágrafo a ilustrar as falas
Que se há um saco e uma gravata e um pato, as palavras diriam que o pato estava dentro do saco e que o homem que carregava tinha uma gravata
Coisas simples a que acresceria eu dizer que o pato fora morto pelo caçador nessa tarde e dizer que era Julho ou Dezembro ou Março
Nada semelhando a escrever que o pato regurgitava gravatas embrulhado num saco cheio de cartas
Eu que perdi a condição de saber dizer o que se passou ainda há bocado, ou ontem, ou no ano passado, e precisar a hora, e descrever a sala e a rua e o tempo que estava, e o quarto ou que fosse igreja, e dizer que a dona do retrato era uma menina cujo pai fora morto e descrever tudo
Contar simplesmente: ontem bateram à minha porta, ponto, letra grande: eram duas mulheres
E por aí adiante
Mas eu desaprendi o gozo de dizer pela ordem: as palavras saem-me sem contexto, parece até que se escrevem por elas, sem meu consentimento: imagens, divagações avulso
Que o pato podia apertar a mão do homem, e a gravata selaria o acto a fazer de estola ou de uma fita de veludo a enrolar os punhos solidários, com o saco a apadrinhar o acto
Coisinhas sem qualquer motivo e eu a querer dizer que bateram na porta, que se sentaram sem que eu dissesse, que tinham carnes a sobrarem dos decotes: redondas
E aquele buço
Eu a tentar escrever que lhes ofereci um chá, uma cerveja, ao menos um copo de água e que elas negaram: obrigada, disse cada uma delas. E sorriram
Mas o que me ocorre são menstruos ou no que teriam elas feito nas intimidades
É que o pato a andar na sala de cá para lá, não me permite
Ou será de eu saber que o saco é aquele onde ficou a carta que não enviei
Certo é que não escrevo que a porta bateu pesada sobre a sala, vazia com a saída delas, e que eu chorava a ver a sua partida
Não sei contar – perdi ou nunca tive essa capacidade
Ou é o ruido do grasnar da ave que não me deixa alinhar as palavras que dissessem o que se passou naquela tarde: quatro em ponto, o ceu com uns penachos de nuvens e elas a entrarem
Nem sei se tente de novo


1 comentário:

wind disse...

Escritora, está fabuloso1:)
Tomara muita gente escrever como tu!
Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein