sexta-feira, 30 de abril de 2010

excertos

   Para dar pai a cada filho, Aurora escolhia um tipo bem parecido ou com quem ela tivesse engraçado. Raramente os escolhia na pressa de ser um camionista a querer aliviar-se antes dos seiscenteos quilómetros que tinha pela frente.
   Aquele a pedir-lhe um desconto pelos seus serviços, doce, ingénuo, lindo de rosto, parecia um anjo, Aurora não teria dúvida em escolhê-lo!
   Que sabia lá Aurora de quem engravidara quando o período lhe faltava …

   Tudo começou a primeira vez que emprenhou, desprevenida. Aurora disse para consigo que seria aquele o pai da sua filha: Alonso, um preto de olhos chorosos e pele da cor do chocolate brilhando num corpo musculado e ainda muito jovem. Que nem o desfeava a mancha cor de rosa: tal e qual a minha avó falecida, dissera-lhe ele, a mostrar-lhe a mancha no pescoço.
   Não lhe restou duvida: este seria o pai da menina que trazia na barriga, que Aurora jurava que seria fémea não tendo, ao tempo, métodos que o garantissem – era a sua fé e pronto!
   Que ela nem queria pensar que tivesse sido o Amílcar das bicicletas a deixá-la prenha, o homem que por uns míseros tostões fora o primeiro que se gozara nela.
   O alarve a rir-se, a gargalhar-lhe na cara: atão tu agora fodes como as senhoras? que Aurora falou-lhe em preservativo, e o homem num deboche, andava ainda Aurora pelos catorze, já fizera uns broches, uns passeios de carro: nada que fosse de modo a que Aurora engravidasse. Mas agora este, no maior dos gozos, a rir-se dela que amanhã iria ao Centro falar com a enfermeira, para fazer isso de evitar os filhos. O homem parecia um bicho a fechar a porta da oficina, a rondar-lhe o corpo: e é certo que Aurora nem fugiu nem deu sequer um grito, que apesar de pouco lhe faziam jeito os trocos que ele depois lhe desse. E para ali ficou de quatro pelo chão sujo da oficina, que foi como Amilcar disse: vira cá esse cu, Aurorinha. E ela a desejar que o homem não lhe pedisse um broche, que isso ela levava caro, ensinaram-lhe, mas não queria sujeitar-se que ele não lhe pagasse, que o Amilcar dos pneus tinha fama disso: um unhas de fome.
   Aurora acha que só conheceu o preto Alonso muito tempo depois. Mas talvez tenha sido nessa mesma noite, que ela ainda deu um giro pelo bairro, tonta daquele embrutecido.
   Talvez isso explique o tom de pele com que veio a menina, nascida no hospital onde Aurora daria entrada já com as águas rebentadas, numa manhã clara do mês em que ela fazia quinze anos: ainda não chovera, mas o calor de Agosto já se despedira.

3 comentários:

wind disse...

Escritora, tristes realidades:(
Beijos

Maria de Fátima disse...

já ninguém lê ou se lê não diz nada: uma merda!

efe disse...

emprenhou desprevenida? tava de cócoras e foi agarrada?

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein