quinta-feira, 15 de abril de 2010

ai sonhos, sonhos

Maria de Fátima
publicado na revista SAMIZDAT


Sem ruído, caminho, pé ante pé na bordinha do meu olho esquerdo
E nem estou chorando, que não é lágrima: aquele verde é tinta de eu ter estado a enfeitar-me.
E desço, a ver se o contraforte do sapato surte aquele efeito que vi no cadeirão do sapateiro:
Pode mostrar-me daqueles costurados?
E o homem deu-me um par: verniz encarnado com muitos buraquinhos.
Sobram deles o meu dedo mindinho.
Uma gota verde a deslizar como se fosse lágrima e eu a caminhar no bordo, um pé a seguir ao outro.
– Olha!
Espanto-me e torno:
– Olha como fico bem de saltos altos!
E dizendo isto, distraio-me.
Deslizo pelo rosto e grito:
– Olha como choro!
O contraforte preso entre dois dedinhos, e eu a descalçar-me para que não magoe o olho por onde caminho, devagarinho, sem outro destino que não seja, entendo, mas sem muita certeza.

Irei apenas na sombra dos meus cílios sem que seja para ir para onde.

No meu olho direito, eu estou dormindo e sonho com cavalos e um corso de carnaval com dois palhaços.
Que a minha vista deste lado, é dada a visões: poços e princesas e sapos e muita gordura em poções de bruxedos…
Nunca é assim no olho esquerdo que só adormece quando cantam os galos.

Eu que me sento na bordinha, com os dois sapatos dependurados do mindinho.
Se me acontece adormecer um olho sem que o outro acorde, costumo ter sonhos dos dois olhos.
Quando se dá, fico-me enroscadinha no verde da minha íris como colcha que me cubra.
É só então que calço o meu par de sapatos e ando de saltos muito altos, muito encarnados…Ando, então, por muito lado e não apenas na bordinha do meu olho enfeitado de verde.


4 comentários:

expressodalinha disse...

Fantástico conto. De uma inocência límpida. De uma profundidade inquietante. Um estilo que se vai apurando e merecemos mais.

wind disse...

Escritora, que maravilha!
Fiquei encantada:)
Beijos

Anónimo disse...

Tem alguma utilidade ?

efe disse...

Chama-se a isso, economizar. Um olho de cada vez. Gostei da poesia.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

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dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein