domingo, 5 de julho de 2009

rosa-malva


Marta Menezes entra na loja e pede:
- Por favor, gostava de ver cuecas cor-de-rosa.
A empregada esboça um aceno de cabeça e mira de soslaio a mulher que acaba de entrar.
Que número vestirá este cu? É a questão que soa na cabeça da rapariga, a medir os transversais da cliente e a buscar nas prateleiras os tamanhos grandes na referência de cor solicitada. Meia dúzia de caixinhas com papel de seda resmalhando em cima do balcão de acrílico, que semelha como se fora assente nas perninhas cambadas, cobertas de sardas, que são as pernas da empregada: vinte anos completos e uma carinha de anjo muito insonsa. Marta Menezes nem a olha, distraída na intenção da compra.
A empregada perfilada, direita, nem uma borda de roupa encostada ao balcão, do lado onde estão as prateleiras e um espelho.
A empregada, a pensar, porventura, se choverá ao fim da tarde. Ou mais pensará ela no rabo de Marta Menezes: ela a dizer das referências de cada peça, a gabar-lhes o material, a dimensão e a forma, e a pensar em colocar-lhe uma mão, mexer naquele rabo de mulher trintona: Ou terá mais? Talvez ande pelos quarenta, mas está bem conservada. E que rabo, raio!
E Marta Menezes remirando as calcinhas em tecidos acetinados ou algodões, não menos vaporosos e transparentes. Estica-as segundo a transversal. Coloca-as em frente da barriga. Encosta-as ao blusão de cabedal avermelhado vestido, displicente, sobre calças de ganga.
Marta Menezes sorri de imaginar-se a tirá-las, mais logo, sob a cara espantada do Ministro. Não que lhe dissesse muito: apenas decidira que lhe faria uma surpresa em final de mandato. Marta Menezes sorri-se, olhando uma calcinha bordada apenas no traseiro.
Sorri-se também a empregada, despercebida, no entanto, de razões. Corta-se o peso, mas não o silêncio que reina no espaço de venda de roupa interior feminina. Marta Menezes remira e volta, sem que a empregada veja nela decisão de usar o vestiário, ir para detrás do cortinado. A empregada bem que aventou, de início:
- Pode experimentar no gabinete …
Mas o tom delicado e o preceito empregue, não mereceu mais que um olhar indiferente caído na cara magricela da caixeira, que disse, muito baixo:
-…só queria ajudar…
E calou-se.
Marta Menezes não experimenta roupa de se fixar no pelo: conhece por demais o que lhe serve. Pede que embrulhe dois pares, ambos acetinados, ambos de tom rosa malva e bordados. Num deles, há um coração em tom mais escuro, mesmo sobre o pequeno triângulo que cobrirá o traseiro. A outra calcinha está salpicada de florinhas amarelas. Qualquer das peças é um trabalho digno de ser apreciado. Coisa de design.
- Peças únicas.
A empregada a fazer o embrulho e a acrescentar:
- Vai muito bem servida, que é bordado feito à mão.
A dizer assim e a olhar Marta Menezes com olhos de carneiro mal morto. A fazer o troco e a sorrir, muito profissional:
- Volte sempre, minha senhora. Espero voltar a vê-la.
Uma vozinha melada, que faz Marta Menezes repará-la.
Um desaforo se não estivesse habituada, se não fosse peça do seu jogo. Mas hoje, não seria qualquer lambisgóia a.entreter-lhe a noite. Hoje, Marta Menezes guardara-se para a surpresa que faria ao Senhor Ministro, dolente e morno, assim que acabasse o expediente.

5 comentários:

Mateso disse...

pois... uma recompensa merecida depois de um áeduo dia de trabalho...coitadinhos dos ministros!!!!!!!!!!!!!!!!
......
O não diálogo abre o pensamento deste conto.
Muito bom como sempre.
Parabéns.
Bj.

Paula Raposo disse...

Eu fico fascinada pela tua escrita! Bendita a hora em que apareci na Biblioteca de S.Domingos de Rana e te encontrei! Sou tua fã, podes crer. Beijinhos.

wind disse...

Escritora, com certeza que o ministro ia gostar da noite:)
Excelente prosa:)
Beijos

CASSIANE disse...

Olá,

Gostei demais.

Volto sempre, de certeza.

Abraços

c.s

Acilina disse...

Há muito tempo que não visitava este blogue duma conterrânea. Gosto sempre!!! Incrívelmente bem escrito. Belíssimos contos. Quem me dera um décimo desta habilidade para escrever.
Hoje lembrei-me porque vi numa livraria de Lagos o livrinho Papoilas de Janeiro e resolvi fazer uma visita à autora.
Obrigada pelos belos contos!

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein