quinta-feira, 30 de outubro de 2008

nunca mais

A porta em frente dela, mal fechada. Entreaberta numa frincha estreita. Uma porta sem nada mais que separar o quarto do corredor que acede ao restante da casa que é uma casa vasta.
A porta quase toda fechada e ela sentada no sofá de veludo coçado.
Marília folheia, desatenta e desordenada, uma Moda e Bordados deixada por ali, à toa, pela mãe quando andou a fazer mudanças.
Outra vez o medo que lhe enevoa a vista, enrija-lhe os nervos em torno do pescoço, entorpece-lhe os dedos que folheiam uma e outra página.
É sempre assim ainda antes que a porta se abra mais um pouco. E quando se escancara, escorre-lhe um suor frio nos pulsos e nas fontes. E, em cada noite, quando ela sabe que é tudo como na outra, e na outra, e em todas as noites, escorre-lhe, vagaroso, um líquido morno, das espaldas para o rego do rabo. Houve vezes em que escorreram urina e fezes, mas isso foi há muito tempo e ela julga que esqueceu.
Hoje é como sempre que ela o sente chegar, um bocadinho antes de ele entrar e lhe ir debruçando vapores avinagrados sobre o perfume de limão que a mãe lhe ofereceu num frasquinho com tampa em forma de folha verde, no dia em que completou treze anos. Faz dois meses amanhã, dia oito.
Mas hoje é um medo um tantinho diferente. Assim como se fosse a mesma embalagem envolta em papel diverso. Assim como se ela tivesse decidido que hoje seria “nunca mais”, apesar de indecisa, apesar não saber se consegue e mesmo assim com esse sentimento firme a embrulhar o medo.
Um sentimento diverso de ela, em cada noite, naquele pedacinho de tempo em que ainda nem se ouvem os passos e o medo já cresce, ter sempre uma quase certeza, assim ficar ela suspensa por um finíssimo fio de pensar “hoje ele não vem”. Uma teia leve que tem sempre presente, noite e outra noite: que ele não virá, que aquilo hoje não se repete.
E ele volta a cada noite rodando a porta sem ruído. Há um ror de tempo. Ela nem sabe desde quando. Se era ela menina de nem ir à escola ou se foi naquele Verão. E nem recorda as lições de solfejo, lá em baixo, sentada no piano entre duas janelas do salão.
Ela nem ainda sabe que tomou uma decisão. Apanha-se a imaginar que pode ser diferente se ela decidisse, se ela fizesse para que fosse “hoje, finalmente: nunca mais”. Mas não sabe bem. Ainda não sabe que irá saber.
E a vista enevoa-se muito antes de começar a ouvir o ruído, que é uso, e que é ele a subir os degraus, ele tomando o caminho do quarto, outra noite.
Os passos esmagando a escada, uma dezena e meia de tábuas por cima do salão na zona onde a mãe pendurou uma natureza morta com aves esventradas e um coelho com um gancho de metal enterrado entre as duas orelhas, quase a furar um dos olhos.
A madeira velha a ser pisada devagar e a revista de Modas e Bordados transmitindo sombras, vultos de senhoras de cintura fininha e golas muito largas em volta do pescoço e em torno dos pulsos. O medo crescendo. Outra noite.
Uma greta estreita desencosta a porta da parede em frente do sofá que a mãe apregoou que vai ser forrado com tecido de florinhas a condizer com o cortinado. Hão-de ir escolhê-lo, mãe e filha, numa ida à cidade. Tudo combinado.
Quase fechada, a porta. Mal cabe a biqueira de um sapato como os que ela tem calçados: fininhos na extremidade. Calçou-os hoje por modo de ter ido levar a baptizar o filho da Gertrudes costureira, a que há-de fazer bainhas e coser argolas nos tecidos.
E ela folheando a revista e com o mesmo medo, o que tem sempre, noite a seguir a outra noite, domingos e dias de semana e mesmo dias santos como é o dia de hoje, um domingo de Páscoa que festejaram sem visitas, apenas a mãe, a avó e o padrinho que tocou uma peça de Schubert ao piano, depois da ceia. E a mãe que se recolhe ao quarto e Marília pedindo: “sua bênção padrinho” e subindo a deitar-se que é o que lhe diz a mãe: "vá dormir, menina e não esqueça de pedir a benção ao padrinho" e beija-a na face, distraída que é o que Marília sente: que ela nem percebe que a está beijando. Tudo igual em dia santo ou dia de semana, com a avó dormindo no quarto lá em baixo e o padrinho retardando-se e enchendo outro dedal de aguardente.

O corredor range e ninguém mais ouve.
Um ruído seco. Um rem-rem-rem nas tábuas esmagadas. Será, melhor dizendo, um rem-rem-rem-ruum, por força daquela perna que ficou magoada de um saltar da mula. Um rem-rem-rem e depois um rum demorado que é o pé a assentar em cheio, com se parasse, e no entanto, segue o outro pé adiante, rem-rem-rem, e novamente o baque: ruum. No conjunto, soa rem-rem-rem- ruum, cada passo sobre o soalho velho. Todas as noites.
Ninguém mais ouve.
O candeeiro derrama um cor-de-rosa que é a cor coada pelo abajour. A porta abre-se. Enlameado na luz fraca, o padrinho sorri-se.
E Marília nem percebe que já se decidiu, que rememora os dois passos até à janela; uma distância que mediu muitas vezes, tal qual como os três metros verticais da janela à relva.
O padrinho ainda mal entrou coxeando, virado de costas no rodar que levará a porta à posição de fechada.
Marília nem olha o corpo que ela sabe que bafeja álcool. Atira a Modas e Bordados como se fora arma, como se fora líquido que o cegasse, empurra o fecho da janela, perro, que não o deixou aberto, que nem nada planeara antes; dissera apenas, muitas vezes, desde há algum tempo: “um dia há-de ser nunca mais””.

É uma noite de Maio com a lua em minguante.
A relva está molhada de uma chuva que sobrou de Abril
.

8 comentários:

perplexo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mena G disse...

Fortìssimo!!!
Quase que se ouve o piano...

Sílvia disse...

Vim cá espreitar, e dar um beijinho. :)
http://sunshine.blogs.sapo.pt/

wind disse...

Escritora bateste muito bem num tema que infelizmente há muito por aí, só que não é muito falado.
Beijos

Marques Correia disse...

só uma sugestão: 3 metros de altura, com relva a amortecer dariam, quando muito, uma grande dor de cabeça, um torcicolo, uma luxação (fractura, pouco provável). A morte só com muita, muita sorte.
Situa a acção no 1º andar e arranja um passeio empedrado, entre a casa e a relva.
......
Já sei, já sei: não suba o sapateiro além da chinela...

Nilson Barcelli disse...

"Um rem-rem-rem e depois um rum demorado que é o pé a assentar em cheio, com se parasse, e no entanto, segue o outro pé adiante, rem-rem-rem, e novamente o baque: ruum."
Boa semana, beijinhos.

Mena G disse...

"Tàs feita...!"
Escreves tão bem que te criticam à sìlaba!
ruum.............
;)

Vieira Calado disse...

Só não fiquei a saber se a Marília é que penso...

;)

beijoca

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein