segunda-feira, 12 de maio de 2008

o bolo

Deita as gemas na tigela. Uma e mais uma, quase vermelhas.
Na tarde daquele dia, ela também fazia um bolo.
Ou pendurava roupa na varanda?

Umas traziam folhos, outras nem tanto: nada mais que um vestido pobre.
Eram suas filhas, ou nem as conhecia?

Meninas vestindo roupas de nome. Magras ou cheias, consoante. Enfeitadas de toucas, ou chapéus, ou armações de cabelos. Olham figurinos numa cidade perdida para lá de montes; voam em passerelles pelas capitais.
Ou nem vestir elas se vestem, por uma razão ou razão nenhuma.
Diversas de uma a cada qual!
Isto, diria eu, mas me arrecado que sei lá o que faz um quando, um acidente, um lapso de segundo. Sei lá do que é capaz, um deslize de terras ou a fala de um senhor do mundo.

Secaram nela as lágrimas. Nem o filho chora que o deix
ou na escola, lá ao fundo do bairro de onde ela viu esconderem-se as roseiras na curva da estrada.
Nevava ou escaldava o Verão?

Corpos delgados, famintos, maltratados. Lágrimas escorridas, caladas. Lágrimas grandes.
Isso, ela tem fresco na memória.

Mães, irmãs avós, vizinhas, amigas e comadres. A que mora no segundo, a que vende o jornal e o tabaco, a que ordenha as vacas pela tardinha, a que espera o homem sem mais que um tacho de comida, a do corpo resguardado que só nos mostra os olhos.
Mulheres de sol a sol, de um lado ao outro deste mundo.
Mulheres de madrugada ou de noite. Senhoras de prendas várias, ministras, doutoras. Putas de passeio, putas de estrada. Meninas de colégio e professoras.

Num dia, era de madrugada…
Ou era pelo fim da tarde, quase noite, ou foi a outra hora? Não o sabe.
Como lembrar se foi num de repente? a casa a ficar desfeita na paisagem, o carro a deslizar veloz na fita de estrada, a esquina da rua escondendo o roseiral que ela trataria nessa tarde.
Era Domingo de Ramos.
Ou seria Natal?
Não. Naquele dia era Agosto. Combinara uma ida à praia.
Era Verão, sim, e o filho ainda mamava.
Ou nem era menino?! já ele crescera e viera dizer-lhe:
- Mãe, fuja, eles vêem buscar-nos.
Assim. Dizer-lhe o filho que deixasse a casa, os chapéus dependurados na entrada, a sopa ao lume, a roupa que secava.
Ele estava na escola e ela gritando:
- Amadéooooooos
- Joooorgeee
- Demitrioooooooooos
- Miiiiiiiiiiiiiiiick
E os soldados puxando-a pelo braço, empurrando-a.

Ela ouviu os disparos e saiu correndo com um filho ao colo e o outro tropeçando-lhe.
Que fazia ela quando arrombaram a porta com as coronhas das espingardas?
Talvez fizesse um bolo, talvez escrevesse, talvez cuidasse de enfeitar-se.
Fazia a cama de lavado. Lembra-se bem que eram os lençóis bordados de vermelho.
E nem um lenço, uma escova de dentes, um agasalho. E era Inverno. Nevava.
Onde estaria o filho que o chamara e ele pedalando em brincadeira lá em baixo, longe que era para onde a levavam: para longe dele.
E ela gritando:
- Yaooooooooooooooo…
Era uma tarde fresca de Verão e ela de vestido singelo. A rua a desfazer-se para dentro de um céu muito vermelho na linha do horizonte e o carro que corria. Para onde?
- Eram todas mulheres da minha rua: a advogada a quem nunca falara; a mulher do médico, simpática senhora; a vizinha do quinto e o homem do restaurante. Coitado! ainda de pijama. Umas ceroulas brancas, justas. Tão gordo que a barriga lhe escondia o sexo.
Era domingo, ela tem por certo, que o homem nunca se levantaria tarde nos dias de semana.
Naquele dia, naquela tarde, manhã, ainda noite, eram cinco, dois, oito? Não o sabe. Viu a cara deles. Os olhos muito verdes. Esteve cara a cara. Viu bem cada par de olhos, mas esqueceu, esse e outros dias e manhãs e noites.
Hoje, só ouve o choro. Intenso. Dorido. Igual ao que ouviu antes. Um choro de menina sem vestido, nem folhos, nem touca ou qualquer penteado.

Senta-se limpando as mãos num pano.
Deslassaram as claras.

- Mãe, estão aqui uns senhores. Pedem que lhes contes daqueles dias, do que viste e ouviste.
Decidiu contar-lhes.
- Contar ao Mundo, mãe - assim lhe pede o filho.

Ou ele desapareceu? Perdeu-se dela o filho que trazia pela mão. Nunca mais o viu.

Contar que eles saltaram dos carros e nem houve tempo de levar um lenço, uma escova de dentes. Contar das coronhas, das mãos sangrando, dos olhos pisados de não sonos, dos olhos que queriam cegar para não ver. Contar da tarde fresca e ela de vestido singelo que nem mais nada teve de agasalho, e sobreveio um Outono frio e depois Dezembro e nem já era vestido, mas um pano.
Contar das meninas…
Não sabe contar delas e nem dos filhos de umas e das outras e nem das mulheres e nem dos homens, e nem das algemas, das noites, dos choros e dos gritos, do pão que nunca havia mais que grão cozido e a pouca água suja: nenhuma, muitos dias a fio.
Dizer:
- Nunca mais soube deles, não minha senhora…nunca mais os vi, aos meus dois filhos
E nem saber se os viu, nem saber se eram filhos seus todos os que viu mortos de fome e frio.
Não sabe contar das meninas levadas uma a uma.
Não sabe dizer se foi delas que escorreu o sangue, se das feridas do homem batido.
Úteros soltos.
Ela não sabe contá-las.
Não a elas.

Limpa os olhos na dobra do vestido, no pano que tem no colo.

Vai acabar o bolo.
Deslembrar.



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PRENDAS AQUI

7 comentários:

Eremit@ disse...

leitura hipnótica. E memórias tão certeiramente descritas... Só quem viveu aqueles tempos de negritude deles pode assim falar.
Obrigado por teu testemunho.
Fraterno abraço

Mateso disse...

Também as vivi. ão tão intensamente, mas vivi.
Obrigada.
Bj.

Aguimas disse...

Como sabes embrenhei-me nestas questões dos blogs e dos sites de fotografia e agora dificilmente arranjo tempo para pensar "para" mim.
Quando há dias fui a um daqueles almoços blogueiros lá para os lados de Alvito, num qualquer restaurante com o nome de Camões, não me passaria pela ideia receber um honroso convite de um amigo feito em blog para participar na escolha dos textos que irão compor um livro a ser lançado o mais tardar em meados de Janeiro vindouro.
Lembrei-me de ti.
Eu gosto da tua escrita tanto como gosto da dele e só é pena que do acordo livreiro tenha saído o silêncio imposto e só nós os seis podemos saber quais os textos a publicar. Eu alargava a escolha ao mundo mas cá no intimo quase que me babo de orgulho e apetece-me dizer que fui um dos eleitos. Pró que me havia de isto a que chamam "senilidade".

Intelectualice? Ou intelectualoidice? Não, este cabe mais noutras bandas.

E tá na hora de fazeres alguma coisa por mim, que mais não seja deixares que te devore de uma só vez, sentado na minha sala e com mozart em altos berros nos ouvidos, vá lá, pensa nisso, que mais não seja, PENSA!

Sabes que há um termo na justiça que invariavelmente esclarece, ou é esclarecedor, é o "contraditório". O Rui, o tal amigo blogueiro, acha que é o "tytle" mais adequado, eu também.

Um dia falamos disso.

Deixa-me que te diga que aquela ideia do leitor endiabrado, do tal almoço, começa a criar contornos de alguma coisa, mas há-os que são incontornavelmente incomunicáveis e estão à roda de uma mesa sem sala e depois há-os também cujas presenças são demasiado "afugativas" outros "claustrofóbicos" e outros que nem sei se contactar. Não tenho com quem falar disso. Veremos, veremos.!

Foi bom ler mais uma "coisa boa", foi mesmo a sério.

Também podemos falar do tal acordo para a uniformização da escrita de quem fala uma língua que já foi lusa, pátria de falantes ilustres e incontornáveis da literatura mundial e também mais contemporaneamente falando, de homens de letras boas. Saramago? Também, mas eu prefiro o Amado, meu homem de letras preferido.

Bah, olha, apeteceu-me escrivinhar para dizer balelas. Eu agora percebo algumas coisas que há tempos me faziam confusão tais como a intelectualização do pensamento gerar um filtro fininho nas nossas escolhas da gente que gostamos, e sabes, eu já não gosto de tanta gente hipócrita que cada vez dou mais valor àqueles que gosto e acredita, não é preciso “estar”, baste “SER”!
Olha, um beijinho que não faz mal nenhum e sabe bem.
António

Aguimas disse...

Tenha a mania de não reler e depois sai confusão, Mas acho que no mail ta bem xuplicade

wind disse...

Escritora, muito forte e pesada está esta prosa.
Muito real e nunca é demais relembrar!
Beijos

Zecatelhado disse...

Um beijo.

Zecatelhado

Licínia Quitério disse...

Venho aqui muitas vezes, mas em silêncio. Porquê? Porque escreves tão bem e tudo o que eu disser já é demais. Ou...sei lá...

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
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