domingo, 6 de abril de 2008

acobreados

Escolhera as cuecas de renda de entre os pares arrumados, um tanto a eito, na gaveta de cima.
Cuecas de cetim cor de cobre-oxidado com uma renda discreta na zona do ventre.
Uma cuequinha. Um fio doirado.
Apenas dois dedos acima dos pelos púbicos que nela é um tufo salpicado, assim como ervas de um vento que ali joeirou semente.
Meio-dia. Início de uma tarde fria.
Ela debruando as franjas do receio com muito cuidado.
Sorrira à enfermeira (ou seria ajudante, ela nem sabe, nem isso a demora pensando).
Espanta-a o desajeito no despir-se, ela. O demorado que lhe fica o tirar da cueca. Trémula no despir cada uma das meias.
Dobra-as. Arruma cada uma, junto com o pedacinho de pano cor de cobre, arrendado. Coloca-as em cima do cano da bota com salto muito alto. Um par de botas com feixe de correr de cima abaixo que descalçou logo depois do tom fanhoso:
- Por favor, descalce-se e dispa-se da cintura para baixo.
Fez pela metade. Deixou ficar a saia lisa num tom de chocolate.
Antes o não fizesse. A saia enrolou-se.
Ouviu um rastolhar de papel quando atabalhoou os gestos sob as indicações precisas da que seria ajudante:
- Sente-se bem para trás. Mais, mais…
E o papel resmalhando.
Ela desvestida, desapertada. Ela, nem nua nem vestida.
Que antes estivesse nua que mal arrumada.Que nem nisso ela pensava. Apenas se sentia, nem vestida nem nua, desconsolada.
Um raio de sol dançava ao ritmo do ir e vir de algum cortinado. Um fio de luz reflectido no ferro gelado onde cada perna sua se dobrava em jeito de balançando cada uma. As pernas despidas das meias acaju a condizerem com as flores do camiseiro enrolado debaixo das costas. Uma dobra estreita. Uma dor fininha.
Um frio levezinho afaga-lhe o sexo exposto. Mantem-no existente para lá do pano: um alençolado que a rapariga (enfermeira, ou ajudante) colocou sobre os seus joelhos, num ar indiferente. Um ar profissional, aquele.
Ficou um armado branco. Assim como cabana ou toca.
Um iglú, será o que ela poderá ter pensado.
Um pano separando.
E a saia que escorrega, lenta. Destapa sob o pano, cada um dos joelhos.
Ela cada vez menos nua. Ela cada vez mais desarrumada.
Uma lágrima soltou-se. Sentiu-lhe o caminho morno até morrer-se no cabelo. Uma lágrima grande.
E as mãos que remexiam.
E ela olhando o tecto manchado de castanho. Ela contando em silêncio os números quase todos.
Ela respirando fundo.

Ela: nem vestida nem nua.

8 comentários:

wind disse...

Escritora, excelente!
É isso mesmo que sentimos quando somos expostas no ginecologista.
Nunca percebi porque nos colocam o lençol, se temos as pernas abertas e eles vasculham...
Beijos

CNS disse...

Mesmo sem cetim acobreado... é mesmo isso!

bjs

Paradoxo disse...

Meu Deus!! Descobri mais um recanto pra ir e vir visitando, sempre! Palavras tantas com tanto conteúdo! Beijao terno!
Obrigado

Paradoxo disse...

Meu Deus!! Descobri mais um recanto pra ir e vir visitando, sempre! Palavras tantas com tanto conteúdo! Beijao terno!
Obrigado

Pilantra disse...

Coisa fina, o iglú!

Nilson Barcelli disse...

Tal como tu, também fui participante do 1º jogo das 12 palavras do Eremita.

Depois de ler o teu poema, resolvi dar aqui um saltinho para te dizer que gostei (arrasaste...).
Aliás, todas as participações são muito boas e algumas até são excelentes.

E este teu conto é soberbo.
Mas as mulheres podem julgá-lo muito melhor, porque eu desses suores (frios) nunca tive... eheheheh...

Bfs, beijinhos.

legivel disse...

... gostei muito (literariamente, claro... ) daquela parte do "... frio levezinho afaga-lhe o sexo exposto." e que faz a ligação natural até ao "iglu". Felizmente para a senhora, não nevou no consultório...

Ironias à parte, belo texto.

OrCa disse...

Em posição de exposição-imposição, é de qualquer um perder a mão...

Vou poupar-te a mais algum lugar-comum, dizendo apenas: texto muito bem «esgalhado», como sempre.

Um universo muito teu, que tens artes de fazer nosso.

Beijos.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein