sábado, 9 de fevereiro de 2008

Página trinta e oito - primeiro



Foi um Abril de neve.
Deste modo, falado, iniciará Maria Ema o fim de um segredo.


Era uma sala pequena aquela onde Maria Ema se recolhia lendo, meditando. Escrevia uma carta ou ensaiava as palavras de um conto. Não lhe era o hábito ler na praia ou sentada debaixo da buganvília. Não lia por aí, em qualquer lugar. Lia na salinha, sentada na cadeira de baloiço. Uma cadeira que foi ficando velha como ela.
Repetia-se, pois, naquela tarde. Um hábito antigo. Ela sentada lendo. Sozinha na casa enorme, Maria Ema vinha mais amiúde. Deliciar-se de releres. Ou ler os mais recentes. E, de quando em vez, muitas vezes, lia os escritos dele.
O tio Francisco.
Perdia-se do tempo. Desatentava de tudo.
Essa era apenas uma tarde mais, não fora o sucedido. Não fora o ter Maria Ema ficado curiosa. Assim que ela explica.
Não entendo, mas assomou-me um desejo enorme de perceber o que se dava lá fora.
Dera o ar da sala em negro. Cega no não ler ela as palavras. Mudas as letras. E nem era o final da tarde que o sol ainda nem dobrara atrás da araucária.
Foi num ar de espanto que ela se viu deslocada à varanda a ver o céu laranja e negro. Ela pisando o chão verde de musgo.
Preto, laranja e verde, desde cima até ao lugar em que se arrima. Uma pedra enegrecida na varanda que nem era mais que um recanto entre a sala e o quarto.
Um local onde ninguém vai muitos tempos a fio.
Um recanto escondido da casa escorrida num plano. Um só piso.
Vários quartos, a cozinha e a sala. E a salinha onde lia, a essa tarde, Joyce, quando ficou sem luz e se achegou ao lá de fora. A varanda escondida. Uma dobra na estrutura da casa. Um lá atrás onde ninguém ía. Um virado a poente de onde mal se via o que quer que fosse que era grande a árvore coberta de roxo a uns escassos metros. Uma árvore que se confunde no negro apenas cortado num laranja em jeito de um vapor voado.
E Maria Ema assomada na varandinha da casa esvaziada há um par de anos.
Resta ela.
Nos Verões fica a casa cheia.
[Nunca ali na varanda.]
No Verão, o mar chama-os. Aparecem os filhos.
Dá-se semelhante em alguns natais. Pernoitam depois da Consoada. Antes, o costume é que ela fosse. Sozinha na ida e vinda a casa de um ou outro.
Sete os que Deus me deu. Como ela anuncia a cada momento.
O carro carregado de ninharias. Repleto de pequenas prendas. Um desenho. Um par de pegas. Um conto que escreveu. Um vaso com planta. Um entremeio. Uma blusa bordada no decote.
Mas foi-se indo o tempo em que gostava de dizer.
Não preciso que ninguém me conduza. Nem que me acompanhe. Agradeço.
Hoje, Maria Ema resiste a sair, a deslocar-se, a deixar a casa.
Tanto ela o fez de local em local onde ensinou as letras de começar a ler.
Uma serra e outra serra. Era lá que os medrava. Barrigas que se iam crescendo enquanto Maria Ema ensinava o b, a, bá. E o dividir e o somar, e as outras operações. Tudo sob o olhar de um Cristo padecendo cada dia, sempre magro na cruz que ela algumas vezes guardou na secretária.
Pronto, acabou-se este sofrimento. Bem bastam as crianças geladas atrás do gado ainda nem são as manhãs raiadas.
Aprendeu depois a convivê-lO.
Algures, entre coisa nenhuma, onde passava um rio igual aos que ensinava. Riscos azuis nos mapas pendurados pelas paredes. Os rios escorrendo em fios, uns mais grossos que os outros.




(a continuar)

5 comentários:

Gi disse...

acho bem que continue, ía toda lançada e esta travagem repentina fez-me tropeçar num fio grosso azul que suponho ter caído do mapa da tua história ...

Um beijo grande , resto de bom domingo

J. disse...

Também quero continuaçao.
:)

Mena G disse...

Nem digo grande coisa porque acho que este arco-iris já se me passou pelos olhos...
Mais luminoso, agora?
A ver vamos, na continuação.

Um dia rabisco uma varanda grande,
cheia de barcos aureolados... ;)
Beijos.

efe disse...

uindo

wind disse...

Escritora aguardo continuação ansiosa:)
Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein