sábado, 29 de setembro de 2007

louvado seja

A gente às vezes cansa-se.
Deu-se comigo.
Cansei-me deste andar aqui desenrolando texto, brincando com letras e palavras, inventando não sei quens. Para quê se as há que chegue.
Cansei.
O que me apetece é desenrolar um tapete que voe, ir por aí. Parar em algum sítio onde uma Sheerazade me conte.

Ou não. Nem é bem isso
As veias arrebentam-se-me. Caloreio.


No prédio em frente uma mulher suicidou-se.
E eu aqui,canso-me.

Olho de esguelha um jornal de ontem. O homem a meu lado devora-o de uma ponta à outra. Está escrito em grandes letras negras: morreu uma criança às mãos de. . Ele vira a página. Fico sem saber mais. Na página seguinte, leio: aberta nova clínica veterinária de luxo. E em letras miúdas: assalto à mão armada. E na linha de baixo: duas famílias morrem em atentado.

Tudo isto nos títulos. Não leio mais do que isso. Fico sem saber onde. Nem como. Nem quem morreu. Morreram e pronto. Desvio os olhos, mas ainda percebo, escondido num canto, quase em rodapé: vizinhos ofereceram-lhe uma cadeira de rodas pelos anos.
Na rua chuvosa, através da montra repleta de bolos, olho um casal beijando-se . Sorrio-me.
Pago o café e a água.
De ainda mais soslaio, vejo o cabeçalho da primeira página do jornal que o meu parceiro acidental do único café que bebo em cada dia, sempre de manhã, dobra em duas partes. Em letras garrafais, vermelhas: Vitória retumbante da nossa selecção. E ao lado, a cores, a foto sorridente do seleccionador.

Caminho olhando as nuvens que correm em fofos pedacinhos.
Arfo. Uma mulher sem dentes pede-me uma moeda com olhos de animal tresmalhado. Está sentada no chão húmido da manhã de Outono e tem no colo uma criança que lhe mama um seio.
Sorrio-lhe. Sorrio de novo e pasmo-me. Ela desvia de mim os olhos claros. Parece que desistiu de saber receber sorrisos. Agradece a moeda de euro com um ar sério. Obrigada, menina. E eu já nem oiço.
A casa onde moro parece-me um refúgio.
Acelero. Quase que corro.
Sento-me aqui e afinal escrevo um texto que (re)invento. Hábito.
Descanso de palavras com palavras. Não sei mais nada do que fazê-lo, e o tapete de Sheerazade não está à venda nos supermercados.
Quando estiver menos cansada, vou tece-lo pelas noites de Inverno, e um dia parto.
Olho pela janela.

A vizinha da frente aparece em robe cor-de-rosa sacudindo um tapete. Afinal foi boato.
Louvado seja um deus .



7 comentários:

Mena G disse...

Aproxima-se a época ideal para tecer tapetes de palavras.
E tu, qual Sheerazade, transportaste-me aos chuviscos húmidos do inicio de mais um Inverno,à dormência do corpo que já sente a falta do sol,à nostalgia (quase tristeza) do anoitecer a meio da tarde.
Teias e tramas donde resultam sempre padrões únicos.
Lindas tecelagens!

Arion disse...

É impressão minha, ou estás a despedir-te? Se sim, tenho pena. Mas cada um sabe de si...

TINTA PERMANENTE disse...

louvada seja pela agradável leitura...
abraço

Mateso disse...

Se é uma linha para tecer a palavra da despedida, desde já peço: parte-a.
Bj.

Gi disse...

Tu és um dos meus tapetes preferidos. Ontem li-te , não tinhas ainda comentários, quis ver se mais alguém tirava as mesmas conclusões que eu. Parece que sim.
Há alturas em que não me importo nada de estar errada nas minhas conclusões. Espero que esta seja uma delas.

Sou delicada com este tipo de tapetes sabes. Olho-os, aprecio-os e descalço-me sempre quando me vou sentar num deles. Maltratá-los era o mesmo que pisar os sonhos. E ninguém quer isso pois não?

Beijos

legivel disse...

... e vais voar por alguma companhia de tapetes persas ou pela AirArraiolos?. Não comas nada a bordo que quero-te cá sem problemas intestinais.

PS: apenas me foi possível vir aqui hoje porque cheguei ontem, noite adentro, de Damasco. E amanhã parto para Rainha Cláudia, uma simpática villa no sul de Itália...

wind disse...

Escritora descreveste o dia a dia bem real e nem penses em partir!
És a Escritora!
Beijos

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein