segunda-feira, 18 de junho de 2007

papoilas de janeiro



Contam-nas letras soletradas.

Imagens pintadas uma a uma com verbos conjugados em tempo e em pessoa. E com advérbios, um ou outro adjectivo, frases e meias frases.
Contam-nas.
Nuas nas palavras.
Cada peça de roupa retirada: nem botões, nem molas, nem colchetes.
Nada mais que uma fita de nastro, ou seda fosse, deslaçada, atando as abas: duas frases, entre um travessão e um ponto.
Nada mais que duas frases sobre pele e alma.
E o silêncio das letras mal paradas: pontes de sílabas, hífenes, plurais e espantos.
E a seda da fita, ou que fosse nastro, uma ponta da outra desatando. Um cordão deslaçado, escorregando.
Destapada a alma sob os seios, o ventre, a pele de cada perna, as nádegas.
Contam-nas, em frases esfarrapadas.
Soltam-se chinelos e sapatos e soquetes e meias.
Caem pelo chão protecções de vulvas e saias e vestidos e roupinhas rendadas que afagam as mamas.
As moças, garridas e vaidosas, vêm dos bailes a horas. Esperam-nas em casa o pai, a mãe e os irmãos.
Não usam espartilho, nem saiote, nem combinações.
Virgens.
Sem mácula que aquela que lhes deixam as letras com que as contam: corroem como bicho em madeira.
Louras ou morenas, sabem que os olhos que deviam eram verdes: esses, os olhos dos deuses nas mulheres.
O sangue, se escorre, é de manso, num fio, fino, muito vermelho e quente. Na saia justa, acima do joelho, ou por baixo do vestido longo junto ao tornozelo.
Sangue escorrendo na coxa. Sangue que se esconde entre as nalgas, corre-lhes em segredos e há pássaros que voam, multicores, em céus de azul ou de cinzento e roxo.
Contam as palavras, desfeitas em letras e acentos, que no pino do Inverno nascem papoilas, campos delas: vermelho sobre o manto branco das serras.
E há frases que ecoam: as moçoilas esventram buracos, tocas de coelhos e outros, em busca da erva que desfaz o feito no canto mais sem luz do baile de há dois meses.
Buscam o sangue que lhes devolva os pássaros multicores e as papoilas de Janeiros.
Contam-nas as letras soletradas.
Os verbos conjugados em tempo e em pessoa.
Os advérbios, um ou outro adjectivo, frases e meias frases e traços e pontos. Muitos pontos.
Contam-nas.
Nuas nas palavras.

(Mais tarde das noites e dos bailes, contam-nas consoantes e vogais: não se cortam nem com facas pontudas ao esventrar uma galinha e nem na foice ao sol do meio-dia. Nem se picam com cardos ou picos de rosas.
Cortam-se com tesouras de prata rendando papéis de seda.
Picam-se nos bicos finos de agulhas costurando rendas ou entretecendo bordados em roupa de cama.
Senhoras.)

10 comentários:

augustoM disse...

Para as moçoilas as papoilas florescem todo o ano.
Um abraço. Augusto

legivel disse...

... o texto tem a tua marca registada. Logo, lê-se dum sopro. Daqueles que fazem estremecer as papoilas. Às moçoilas um sopro não chega, mas um beijo demorado sim. Então talvez estremeçam...

Um abraço para ti. Para não dizeres que sou unhas de fome...

legivel disse...

Desta vez não tirei fotografias por onde andei. Isto fica entre nós, mas desta vez fui* ao deserto. Da margem sul... A areia enchia um balde da praia, os beduinos eram às dezenas e os camelos... contavam-se pelos dedos. Nunca vi coisa assim.

* Fui e... fiquei.

Samartaime disse...

Papoilas de janeiro? Bem se vê que são conversas de deserto: veio um camelo e comeu-as!

De qualquer modo, protege bem as papoilas de qualquer mês: como isto vai, não me admiraria se tivessemos de voltar ao velho pão de papoilas para sossegar a fome!

wind disse...

Escritora, já não sei o que escrever. Juro!
Vou-me repetir:excelente prosa, com soberba utilização de palavras!
Beijos

CNS disse...

Agora sou eu quem pergunta:

Sabes que gosto destes textos, não sabes?

Bjs

Gi disse...

Deste lado também são incontáveis as vogais. Mas de espanto. Os "O's" e os "A,s" soltam-se a cada linha. Não paras de me surpreender.

Vou-me . No meio dos pássaros multicolores olhando para a paisagem salpicada de papoilas que se confundem com os lábios das raparigas apaixonadas. vermelho sangue, vermelho de paixão.

Um beijo repenicado.

Mateso disse...

As moçoilas de papoilas...os verbos e os advérbios... o silêncio das letras e o som das tuas palavras... O mundo rural de outrora magistralmente descrito num texto literário muito bom.
Parabéns.
Bj.

gato_escaldado disse...

Poema declinado no feminino.
Belo, portanto.

Beijos

Alba disse...

Este texto vai adquirindo uma densidade tão angustiante que dificulta a nossa respiração.
E, de súbito, sentimos o desespero das moças, pressentimo-las pelos campos, dedos na terra, procurando o resgate das sílabas alvas e da pele por descobrir. Impressionante!

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein