sábado, 1 de julho de 2006

ternura

Passeavas junto ao rio, bamboleante no teu pelo raso em tons de bege, matizado de preto junto às ancas.
De soslaio, fui passeando a minha atenção por ti.
Talvez estivesses aguardando alguém que jantava ou bebia uma cerveja nas esplanadas esticadas ao longo do rio.
Talvez rondasses intrusos enquanto aguardavas que o teu parceiro acabasse o turno das dezoito às onze.
Talvez, simplesmente, tivesses deixado as ruas e a algazarra dos carros, vindo mirar a água lisa do rio alaranjado nesta hora de fim de tarde.
Passei por ti no caminho de sentidos opostos que fazíamos, e senti-te a olhada furtiva, incisiva, e o dar de anca, como um presente a que não fui indiferente. E já teu caminho se revertia no meu e o bafo morno do teu nariz me tocava. Ali ficamos entregues como dois velhos compinchas que se reencontram, partilhando viveres numa algaraviada de atropelos.
Olhei-te de perto e vi-te os olhos gaiatos, mas tristes, as ancas firmes, mas esquálidas, o peito ainda rijo, mas magro. No pescoço largo trazias um colar de cabedal vermelho, que dizia de conheceres mordomias.
E os meus talvez transitaram à certeza de que ninguém esperavas naquele fim de tarde.
Ali ficamos um par de minutos brincando de pega e larga, de corridinhas tontas e muitas festas na cabeça que entregavas às minhas mãos em dádiva.
Ternura e mágoa a cada reviravolta do nosso brincar no passeio largo.
Ficaste a olhar o meu afastar num porte elegante, sem pedinchices, sem mais que um abanar de cauda, suave.
(Parti e gostava de te ter trazido comigo.)
imagem Picasso's dog

13 comentários:

wind disse...

Ó escritora é que é mesmo uma ternurinha querida e muito bem escrita:)))))
beijos

augustoM disse...

Noa animais a ternura é nata, quando sentem a reciprocidade.
Um abraço. Augusto

Ilusões-Óptimas disse...

Todos os abandonos se parecem.

Gostei de ler.
AL.

legivel disse...

... é. Não haveria espaço disponível para todos aqueles para quem tenho uma palavra. Que é conhecida a minha doidice por conversar com tudo o que é cão e gato. Agora até dei em falar com melros...

zecadanau disse...

Olá rapariga Lacobrigense!
Só para deixar um @bração após o meu regresso de uma ausência mais ou menos breve.

Zeca da Nau

sotavento disse...

Agora dá-te para fazer chorar o pessoal?!...
Buaaaaaaaaaaaaaaa

legivel disse...

... bem tramado está o animalejo sempre com o mesmo osso!

lique disse...

Olha, eu sou mais de gatos! Mas pronto, também não resisto aos olhos gaiatos mas tristes... :))
Beijão

Isaac disse...

Ah... são os acasos tão sonhados da vida...

Encontros que marcam...

Lmatta disse...

lindo
gosto
beijocas

N. disse...

(na continuação do comentário acima)
esta por exemplo! Leve, solta, uma liberdade poética conseguida.

Anónimo disse...

best regards, nice info video editing programs

Anónimo disse...

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meu honroso quarto lugar

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein