terça-feira, 6 de junho de 2006

Maria

Maria.
Se encontra uma porta entreaberta espreita para dentro. Ri.
Ri um riso antigo de menina.
Ademais disto, Maria deambula.
Desliza nas sombras estreitinhas ao pino do meio-dia. Sombreia nas paredes noite adentro.
Maria não sabe de casa, nem de família.
Come as frutas roladas nas ribeiras quando estas dão em encher. Dorme onde calha no seu andar desgovernado de sentido. Acantoa num celeiro mal fechado. Num vão de ruína ainda entelhada. A Primavera encontra-a estendida, em sonos leves, num milheiral ou nas ervas frescas das ribeiras. Raramente se afoita numa praia, suas dunas ou grutas. Esqueceu o porquê desses medos antigos. Prefere os campos. Esses, percorre-os dia após dia.
Às vezes sossega numa aldeia, numa pequena cidade. Fica sentada num banco de jardim ou percorre as ruas, acima, abaixo, sempre silenciosa, os olhos muito atentos num algum lugar. Pede de silêncio. As mãos em concha. A boca esticada em sorriso. Por ali fica no quente das gentes. Um dia ou dois, não mais.
De quando em quando, encontra um pássaro caído do ninho, uma cria de gato mal desmamada, mais raramente, um cão escanzelado. Então, passa sorrindo onde passar, embalando o animal nos braços.
Há dias em que chove. Nesses dias, Maria dança, cega dos grãos de água que lhe caem nos olhos.
Vive-lhe na recordação uma casa com gentes e uma praia enorme que, mal as pensa, se lhe desvanecem.
Maria.
Maria não tem idade.
Maria ri um riso antigo. Um riso de menina.

Modigliani

10 comentários:

wind disse...

Escritora, extraordinariamente bem escrito e mostras a liberdade de alguém que nem sabe já do seu passado, mas isso para ela que lhe interessa se continua com o seu sorriso de menina?:)
Muito bom!
beijos
PS: As telas que escolhes para ilustrar são uma maravilha:)

segurademim disse...

... que maria tão solta, leve, desprendida... gosto de ser relembrada que a vida pode ser rica, doce, suave... não tem que ser presa em angustias e conflitos

vendo bem, nem sequer precisamos de muito para vivermos e sermos felizes... um pássaro...

beijo

augustoM disse...

Quantas marias existem aí pelo mundo?
Um abraço. Augusto

legivel disse...

... este teu texto fez-me recordar a "Maria vida Fria" cantada pelo Paulo de Carvalho...

N. disse...

gostei muito disto, seila. Muito mesmo!
O meu lado crítico de estetismo bacoco diz-te que lhe faltou alguns pontos e vírgulas (pausas distintas e suaves, consonantes com a doçura do texto) em substituição da paragem brusca de alguns pontos. (eu sei, é teima!)

Humor Negro disse...

Olá!
Vive-se com gosto?
Já há algum tempo que andava a faltar à chamada aqui. Já devo ter chumbado por faltas e vou direitinho para o exame sem passar pela casa da partida. ;-)

Anónimo disse...

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Licínia Quitério disse...

Ai que medo e ao mesmo tempo que sedução de virmos a ser Maria. Se é que não somos já, de vez em quando. Um texto sentido, expressivo.
Beijos.
Licínia

N. disse...

eu achei estranho, mas não confirmei e fui levada. "Lhe faltou" - ao texto, portanto. Está certo! (de futuro vou passar a confirmar antes de me deixar levar; foi assim que um dia, já distante, fiquei sem tremoços. Isso não se faz!)

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desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein