sexta-feira, 21 de abril de 2006

o encontro

Há quanto tempo não nos víamos? Desde quando nos perderamos na rotação das vidas de cada um?
Foi esse distante espaço -tempo

– longínquos viveres dos dois –
que deu o tom estranho ao tu na voz ao telefone?!
Disseste
- Jaime gostava tanto de te ver.

quase mais nada
e eu nem me ative a que fiquei tão como se diz contente de saber que me lembravas
– ainda me lembravas – e me querias ver
e fui de imediato que é o mesmo que dizer que fui assim que a rotação da vida desse dia mo permitiu ir quase de imediato depois de te comprar aquela orquídea que nem sabia se ainda gostavas de flores em vaso e destas e nem sabia se te convidaria para jantar lá em casa ou num restaurante mas qual ia-me perguntando enquanto deslizava o topo de gama pela avenida já negra que o Inverno ia no auge e só me valia mesmo o ar condicionado e pensei que casa seria a tua que me disseras ser num sétimo aos Oivais e eu a pensar se com ar condicionado e sem acreditar que bem podia ser uma daquelas novas torres surgidas depois da Expo
e eu rolando
eu a sentir que não jantaria nem em casa nem num qualquer restaurante
a sentir que não e que não
e nem percebia o que me negava
nem percebia o que assim de repente eu negava
e não e não e mais não a tilintar na cabeça
e eu a ligar o CD e a subir o som e a conseguir que se afastasse tanto não
e já o topo de gama furava uma ruela antiga das velhas torres com Tejo muito lá ao fundo e alguma coisa em mim fez que sentisse desejo de te ver mas não ali mas não agora
e para que é que me telefonaste precisamente hoje dia 21 de Janeiro quando podia estar a jantar na sala enorme do apartamento remodelado do de meus avós ali a Campo de Ourique o telefone sem fios e outras novidades a dar-me o conforto acrescido do ar - do meu ar – condicionado e a companhia daquela médica encontrada há dois anos e que mal via e sempre dizia que me amava – eu?!- e ela sim que te amo e dizia tanto e eu nem percebia mas ela estaria na sala com as longas pernas com que nessa noite ainda mais me esperaria
ela - a minha?! - que nem de ti sabia que tu nem exististe nesta minha vida
E cheguei. E subi no elevador a cheirar a muitos suores olhados no espelho desluzido. E não toquei a campainha que mo disseras que deixavas no trinco e eu tomara por modo de estar da juventude a que permaneceras ligada. Abri devagar – mais assim um empurrar espreitando e fiquei parado no deslizar de meus olhos.
Fiquei sabendo porque se me enchera a cabeça de nãos.
Quase roxos vi teus lábios sentados na sala grande. A salamandra apagada - duas ou três brasas apenas para lá do vidro .
Passaste a mão na borda do meu pulso mal me chegara mal eu havia entrado e assim te vira.
Silêncio nas palavras.
Debruçado na ondulação do teu cabelo senti o frio que emanavas. Um frio que não entendi. Um frio que também não te perguntei. Sentei-me junto a ti esfregando tuas mãos nas minhas. O teu olhar parado para lá de mim numa imensidão numa profundidade ou num vazio. Com cuidado – desvelo?! - puxei-te as pernas para cima do sofá, coloquei uma almofada sob a cabeça e o cobertor a cobrir-te toda.
Encolheste as pernas em posição fetal.
Disseste
- dá-me chá quente.
Passei pé ante pé de junto a ti para a cozinha o telefone arrastado no fio falando baixo para que não ouvisses. Falando à médica do lado de lá da linha. Eu apressado
– sabia lá porque me apressava eu – aquecendo a água no púcaro e o fio do telefone muito esticado e eu dizendo que estavas gelada e olhavas longe e de lá da linha perguntavam onde eu estava e porque estava e se tinhas febre e eu apressado e a água ferveu e eu desliguei e entrei na sala sem telefone e com a chávena muito branca no pires encarnado e o tabuleirinho de laca equilibrando os dois como ao meu sorriso quando me olhaste de olhar distante enquanto beberricavas em goles mínimos e me fugiu o sorriso quando me olhaste um olhar de aflita seguido de um olhar de ida e ficaste da cor da chávena enquanto eu via a sala a rodar e te agarrava nos meus braços a salamandra ardendo subindo a chaminé numa labareda de ventos girando na sala onde eu não percebera nem perguntara o frio que te gelava na sala de onde agora evitava que visses que nada estava no seu lugar devido a tu estares ou não estares na sala.
Ficamos muito tempo enrolados tu olhando um infinito outro onde eu não estava e eu protegendo-te do meu finito desarranjado em que julgava que tu ainda estavas.

Só muito depois, agora, há muito tempo a seguir ao que disseram-me - morreu
- tu morta nos meus olhos alucinados de fogo e frio
só agora rememorando a sala incendiada e tu nos meus braços e as brasas aquecendo o frio que nos gelava
só agora entendo e me pergunto
- porque mo fizeste ver só naquele momento?!
ou me explicaste em momentos outros e eu nunca me deixei que percebesse...



13 comentários:

wind disse...

Caramba, este doeu! Todo o suspense descritivo que crias, a visualização do que se vê e sente é tremendo. Muito bom mesmo! Boa a escolha dos amantes para ilustrar o conto:) beijos

lique disse...

Sabes que mais? Esgotei as palavras para te comentar. Escreve, mulher, escreve, que nos matas a sede de ler textos bons e originais. E que nos intrigam, emocionam, impressionam. Mais? Não tenho, por hoje. :))
Beijão

Arion disse...

Só vim aqui hoje porque queria ler isto com a calma que merece! E fico sem palavras, quer perante a beleza do texto, quer perante a identificação com alguns dos momentos. Quantas perseguições destas resultam em mortes anunciadas sem que nos tivéssemos apercebido da sua iminência...

Dra.Daniela Mann disse...

Muito bom!
Gostaria de ter o seu link, mas no meu blog são as visitas que se linkam! Por isso e se for da sua vontade, vá até lá e clique no logotipo do "Páginas Amar-ela", o dos morangos para fazer o registo e adicionar o seu blog!
Um abraço amigo e bom feriado,
Daniela

zecadanau disse...

25 Abril de 2006

Um abração de solidariedade e fraternidade universal nesta data memorável.

Zeca da Nau

TMara disse...

excepcional conto este teu. Daquelas coisas k gostariamos ter escrito.
Bj fraterno, Abril 25

Nilson Barcelli disse...

Este teu conto é diferente do que eu li teu.
Mas igualmente bem escrito.
Aparentemente andas a ensaiar os diversos voos de que és capaz, qual passarinho saído do ninho a testar a manobrabilidade de que é capaz.
Só que, talvez não tenhas dado por isso ainda, as tuas assas são já de pássaro adulto, capaz de fazer acrobacias e piruetas sem cair ao chão.
É o que eu digo, a Química que se cuide...
Beijos.

legivel disse...

Gostei muito de ler o teu conto no dia do meu regresso à blogsfera.
Abraços e um bom dia!

Rui disse...

Da resposta tratamos nós.
Muito bom, como sempre.

menina graça disse...

Intrigante. Comevente. Arrepiante. Tantos adjectivos... :)

Armando disse...

Sei lá.... é assim....aqui perde-se muito tempo pois os teus textos são longos e são precisamente estes os que gosto de ler, muito mais sendo escritos por ti, com o teu toque "magico"!!mas´em relação a este além do belissimo texto intrigou-me tambem a imagem...deveras interessante!!! (Ainda não fui ver o tal mail....fa-lo-ei agorinha mesmo de seguida!!)

TCA disse...

olá menina, na se lê o mail? coisas bem temperadas por aqui. levei uma. obrigado. abraço.

augustoM disse...

Quando só se vê com os olhos e se esquece o coração, muita coisa fica por ver.
Gostei muito do conto.
Um abraço. Augusto

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

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meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

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meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

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ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein