Hoje, mais lhe apetecia. Hoje ele transportara o inferno na última corrida. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo. Hoje, tal e qual como vinha (como se lembrava bem!) no Catecismo da 3ª comunhão, ele transportara infernos assentados no banco detrás do seu Mercedes de aluguer. Por isso, e porque lhe era de costume, desejava tanto beber aquela amarelinha dos dias quentes. Sentou-se na mesa de que tanto gostava. Uma mesa solitária no fundo do café. A última mesa, bem por debaixo de uma desbotada Severa enquadrada a doirado de dimensões que cortavam o pé pendente do tocador.
Sentado sob um Malhoa que nunca apreciou mais do que o que via como concupiscência aveludada da pele desnudada do corpo. O corpo oferecido dela, sempre o fazia descer o olhar sobre o tampo rosa da mesa de imitação de mármore. Um desviar de não querer ver que nunca lhe acontecera com os calendários que dependurara no carro, noutros tempos. Deixara-se disso que a clientela de um modo geral, nunca se percebera bem porque razão, desapreciara. E que belos calendários ele tivera! Um para cada ano! mas escolhia-os de entre os que as lojas quase pediam que aceitasse e alguns clientes ofereciam num gesto de simpatia ou de mistura com uma daquelas mais picantes. Seleccionava. Confessa, hoje, ali sentado já a amarelinha ia a meio do copo e ele distendera ambas as pernas contorcidas debaixo das quatro da mesa de ferro imitado de cor verde tropa. Escolhia a dedo cada calendário e chegou a pedir, discreto, aquele que vira a um colega na praça ou na paragem mais prolongada num semáforo.
Bom fornecedor de sobras de qualidade, era o Rodrigues. Onde andaria?! Fechara a casita de concertos já ia para dez anos. Tanto?! espantou-se e reparou que nessa tarde se espantara várias vezes e com uma intensidade invulgar nele ou no que julgava conhecer de si. E ainda se sentia de incómodos com aquelas viagens e aqueles passageiros. O inferno no banco detrás por quatro corridas. Sempre o inferno ardendo lá atrás. Mas, lhe pedisse sequer a ele mesmo, quanto mais contar a outro, e ele não saberia dizer porque sentia que fora mesmo o inferno que transportara.
Desviou o sentir para os calendários e fixou-o nele, o Rodrigues Sapateiro. Bom moço! E perfeito no colocar capas, solas meias e inteiras, saltos...e ainda colocou muita brochas e biqueiras...aquelas coisitas que faziam o andar duro demais para soalhos de gente fina, mas poupavam meias solas e umas gáspeas. Bom moço o Rodrigues! A lojeca de arranjos decorava-a ele com os calendários. Sempre cuidadoso – todos calendários do mesmo ano. Entre os finais de Novembro e o dealbar do ano, como ele dizia “já estamos no dealbar de um novo ano!”, mudava, um a um, cada calendário.
Sorriu agarrando a amarelinha já apenas fundo de copo.
Ia colocar a moeda de pagar sobre o rosa da mesa, já o corpo se desdobrando-se do sentado para o levantar.
O ar parou. Ele acha que deve ter parado. Ele acha que parou tudo depois de ver aquela mão de dedos rechonchudos anelados a oiro se colocar sobre a dele, enquanto o cotovelo se esgueirava, duro e doloroso, no seu apessoado ventre vestido com a t.shirt que dizia o nome do seu clube.
Literalmente, como diria o Rodrigues Sapateiro, moço de boa fala, literalmente empurrado, voltara a esquentar o assento da cadeira com o rabo de calça agangada.
Levantou a cabeça e, claro!!! antes do que lhe dizem que aconteceu, ele teve a certeza! mas porque achou tão normal?! porra! é que nem percebia porque parecia que estava à espera deste que lhe estava em frente! era ele! o homem que levara desde o Roma até à Clínica Angel. Ainda o ouvia: “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”. E aquele som do se faz o obséquio ele juntou rápido ao que entreviu no retrovisor já rolava Almirante Reis abaixo. Quatro vezes a mesma voz e o mesmo pedido de quatro locais diferentes. Agora como explicar o que percebera?! que culpa tinha ele, Almerindo desde que seu pai assim entendera no “se for rapaz”? que culpa tinha ele de ter reparado nas meninas, duas de cada vez, de locais vários daquela capital, “para a Clínica Angel, Campo dos Mártires, se faz o obséquio”?!
Ele, Almerindo, sorrira para o espelho, mas jurava a si mesmo que fora pela puta da coincidência de ter ele passado quatro vezes nessa manhã por aquele homem em locais diferentes daquela cidade capital de país o que quer dizer enorme, apesar de não ser o caso. E sorrira porque se lembrara dos calendários e do Rodrigues.
O homem viu o riso. Olhou. Abriu uns olhos, supõe ele Almerindo que os tenha aberto, por debaixo daqueles óculos negríssimos de marca. E Almerindo ouviu apenas um rugir de “Encontramo-nos, meu!”
E encontraram-se! ali, por debaixo do quadro desbotado do Malhoa.
Ele, Almerindo, pensou estes aconteceres todos sobre o homem, já ele tinha-se deslargado nas calmas pela rua do Conde Redondo abaixo que era onde ficava o cafezito, e deixara a cara do Almerindo preparada para ir “ali até S. José” como dizia a Cremilde empregada de há anos no servir das amarelinhas, acrescentando “ eles tratam-te! mas porque seria que o cabrão te assentou tão percebido que eras tu?! que raio sabes tu, Almerindo?! porra, homem, a gente tá cá...arrima-te”. Desenfreada de língua a Cremilde.
E Almerindo a pensar, de dentro de sangues e socos e dentes pendurados, que aquela advertência-interrogação da Cremilde devia de se encaixar com o que o fez vir mais de repente a meio da tarde para sorver a amarelinha e que era ele sentir que hoje transportara o inferno. Hoje transportara infernos de muito fogo e muito castigo.
Adormeceu ou desmaiou, aos solavancos no 115?!
Dois riscos de amarelinha saía-lhe pelos lados da boca.
