domingo, 20 de março de 2005

pulsar

Image hosted by Photobucket.com

A foto ali especada. Especada tu olhando a foto.
As tuas palavras a desacertarem-se-te como naqueles dias. Lembras-te?
Lembras-te de como as palavras se te desapareciam para muito longe e ficavam apenas sons?! apenas vocábulos dispersos de sim não já vou...
E ficaste com esse olhar que era muito, mas muito mais comprido e muito, mas muito mais desarrumado do que o eram os corredores que conheceste! Um olhar que era o teu olhar de corredor atulhado em partida ou chegada.
Tantos corredores!
Olhaste todos eles naquele teu olhar a fotografia. Nem nunca tinhas sequer pensado que um corredor...muitos corredores...tinham sido parte essencial, parte marcante da vida que já viveste. Uma parte tão tanto escondida, ali desvendada no olhar uma foto de um corredor que nem sequer é nenhum dos aqueles que viste olhando a foto. Nenhum dos muitos tantos compridos desarrumados corredores. Quem pensaria fotografar um dos corredores onde as malas se acumulavam no entretanto de uma outra casa com um outro corredor?!
Alguns iriam ser corredores em outra terra. Longe.
As palavras deixavam de se tecer. Lembras-te?! Apenas te ficavam vocábulos designativos. Perdias, na desarrumação do corredor, a palavra das relações e do sentir. Ficavam atadas num local do teu ser... atadas como as peças que atulhavam o corredor.
Atulhados os corredores porque era preciso partir. Atulhada tu de sentires e de palavras porque partias...porque tinhas acabado de chegar. Chegada tu sem ter ainda deixado de estar lá de onde vieras. Um corredor atulhado lá, outro aqui.
E tu sem palavras e com aquele olhar comprido.
Parece-te até que o corredor tinha essa finalidade: de se assim encher, de tempos em tempos que daria uma frequência. Diria que se ouvia.
Um corredor. Uma geografia das casas. Um espaço que servia para que portas desembocassem no para dentro da casa. Um espaço de passar para os espaços de ser na casa.
Não se vivia no corredor. Passava-se nele...

Vivia-se nos corredores que recordas olhando essa foto?!
Ah! nos momentos de atulhamento...
... tu sempre te sentavas num recanto?!
Havia sempre um recanto em cada corredor de chegada e em cada corredor de partida?!
Havia sempre um canto em cada corredor...
Um canto que te aninhava... no corredor ...
Aninhada... antes...até que...
...devagarinho...
voltavas à palavra!





Obrigada Ognid pela foto que me deu estes ir lá onde andamos ou nem sabemos se apenas sonhamos...

sábado, 19 de março de 2005

Pai?!

Passo a passo
fazes-te ao terreno
arrojas-te à despedida
Começas por ti
Resolveste assim há muito
Dizias:
Partir é deixar-se para trás e renascer
Assim vais fazer
Despedes-te sobretudo de ti
os outros vão-te vendo partir
Sorris a uns...aconselhas a um outro
Recebes abraços ...abraças
Mas gostas e precisas de coisas
As coisas que te são tu
Aquele pedacito de areia junto ao rio
(que bem dormias nu depois do banho!)
O rio sombreado de um castanheiro
O banco verde sob a amoreira....
(lutos de outros em ti
dois soluços e uma cara lavada)
Andas nas despedidas
percebes

sabes
sentes
tens que ser rápido
tudo antes de pôr o sol
Baixando devagar
confunde-te essa luz
Achas graça
sorris
recordas
(um daquilo um daqueloutro)
A cidade que te acarinhou
abandonado aqui...tu...
Não entendes
Pedes ajuda
Choras

Fazes o teu luto
na enorme solidão de ti.





terça-feira, 15 de março de 2005

my darling, my blood PARTE II

O último post que aqui coloquei e que integro neste a seguir foi lido e comentado. Nada de mais! Mas ele era-me muito caro como as opiniões sobre o filme que lhe estavam na origem e sobre o que eu escrevera. Por isso volto a ele.
Esta MULHER leu o meu texto, comentou-o e escreveu aqui .
E eu, que pensava escrever ainda sobre este tema, acabei por fazer um daqueles comentários que passo a transcrever aqui (ela não se zanga)
minha linda! o bonito e rico é podermos ver a mesma coisa, neste caso um filme magnífico, por ópticas diversas! A minha (e te agradeço comovida a referência e o comentário) saíu como já disse assim brutal e quase (até a mim parece !) desligada do filme -não está e talvez ainda escreva sobre issso! A tua é uma ternura, uma suave visão do que está à vista e envolve toda a narrativa. Ternurenta. Mas ...e a violência?! e as mulheres no ring? e aquela "família"? e aquela filha daquelas cartas?! e o Deus dele? e o ar a chiar a chiar... o ar que a fazia rir?! o ar que fazia aquele lindo sorriso e aquela voz?! ai Lique onde anda a Vida? Eu coloquei-as a atirar...podiam ser murros (disseram que queria mutilar-me...pois!!! quem escreve sujeita-se!!!)e a amar-se e a querer não querer sair daquilo e a rir e...coloquei-as sozinhas...muito sozinhas...Eu vi outra história .... eu escrevi e depois vi ! Foi muito angustiante e sincera a pergunta o que é que este texto me quer dizer...e acho que o que ele ME quiz dizer, eu ainda não sei, mas ando a ler o que me escrevem e a pensar e já sei ao menos isto que acabei de escrever - que vi no filme as mulheres que lutavam...foi isso que me chocou no filme...isso e a solidão delas e de cada um dles!Um abração Mulher!
Publicado por: seila em março 15, 2005 10:55 PM


Faço isto, porque me parece que as questões que, em mim, o filme fez questões primeiras, estão ali descritas. Acrescento-vos apenas que a descoberta da resposta à questão que coloquei ainda não está respondida e não sei se o será...a vida é cheia de surpresas e recantos escondidos... Deixem que diga ainda que não vi relação com o filme (sentia, sabia, mas não percebia!) senão no acordar do dia seguinte. Acordei com uma espécie de "Ah! o que te chocou no filme, o que para ti foi mais importante, foi a relação que existia sem existir entre aquelas mulheres do ringue"

O post de dia 13

…my darling, my blood PARTE I

Escrevi este texto de jacto a pensar no filme que vi ontem Million Dollar Baby de e com Clint Eastwood.
O filme é belíssimo e perturbou-me muito! muito!! muito!! muito!.........
A foto que reproduzo está
neste site e é da atriz Hilary Swank na interpretação de Maggie Fitzgerald.

e eu não percebo o que o meu texto me quer dizer

Dá-me um tiro de raiva
Um tiro em cada perna
Abate-me
Não... não te imploro a morte
Apenas... tão só... que me deites abaixo
Atira porra! dispara essa merda!
Um tiro em cada uma das minhas...
Porra! claro que só tenho duas!
Eu sei que o cão tem quatro
Eu tenho duas pernas
Quero ficar parada porra!
Dispara!
Enfia essa merda no cano e díspara, caramba!
Um balázio na esquerda e outro na direita.
Rebenta um vaso... deixa lá o osso...
Quero sangue a correr e eu deitada
De borco tentando rastejar.
Dispara porra!
Ficas a olhar com essa cara de anjo...
És linda de morrer... ou melhor...
Linda tu não és! Mas tens uns olhos verdes
Adoro olhos que olham e se forem verdes...
Mas ias mesmo disparar?! Não acredito!
Claro!!!
nem tens arma!!
Eu sei que percebeste!!!
Estávamos ambas a brincar
Que se lixe se não acham isto brincadeira!
Eu queria que disparasses
Sentir o disparo a atravessar a polpa
Na outra perna o choque cru com o osso
A tíbia?! Não! Preferia o outro...
isso...o perónio.
Depois, eu caía.... e tu fugias.
Acabavas a ir ver-me com um ramo de flores
Rosas e gerberas amarelas
táaaá.... também podias levar malmequeres.
Todos os dias irias ver-me ao hospital.
Não! Nunca ninguém saberia.
A arma disparada por ti era imaginada
e cada uma das minhas pernas
estavam simplesmente.... cansadas.
Eu estava internada apenas por ser mulher.
Sangrava de outros sangues
E pedia que disparasses de uma loucura.
Essa loucura que tu entenderas tão bem...
Por isso... dispararas
a tua mão aparando sangue.
O sangue escorria entre as pernas.
Sentada... as flores no colo
sorrindo muito cara de anjo
Quando acordei estavas a meu lado
Dispara porra - gritei
Dipara essa merda!!
E rimos as duas... rimos muito!
Tu arrumavas as flores na jarra
eu tinha adormecido soluçando - dispara!

sábado, 12 de março de 2005

menino...homem



Sou pela primeira vez mãe de um homem de trinta anos!
E estou tão baralhada de sentires
choro e rio igualinho...


tal qual fiz... quando te pari de mim
foi a primeira vez que eu pari
quando nasceste tu de mim
Nasceste-me de um maravilhoso parto lindo
Era Primavera na Natureza
Primavera no nosso País
Foi Primavera na minha Vida

Estou baralhada nos sentires e choro e rio

Desejo que te leves pela mão sempre ao meu menino
Que não percas de ti o teu eu menino
Que ele te faça companhia
Que se saibam um ao outro dar carinho
Protege o teu menino tu de vendavais
Enfrenta com ele a vida
Sorrindo... brincando...chorando... rindo
Leva sempre contigo pela mão o teu eu menino

Ai tou tão baralhada que nem sei...

homem...menino...

(que é isto que sinto morno aqui na mão ?!
Uma lágrima atrevida que se descaiu
a deixar soltar-se o coração!)

sexta-feira, 11 de março de 2005

memória



há momentos ...tantos momentos!!!
em que não há...eu não as tenho...
palavras
guardo...tento...

silêncio...
sinto o coração desfazer-se

sangue
sempre sangue derramado ...
nesses...tantos momentos...

choro dos corações....tantos corações...
os ficados até ao sempre depois daquele...
tantos corações depois do momento...
sangrando
hoje...ainda...sangram corações
pingam

e as flores...
desfazem-se em seivas
as flores amarelas rosadas brancas
as flores são todas vermelhas
e sangram

quinta-feira, 10 de março de 2005

...vontade

Se eu fosse a derramar o sangue que me escorre em cada pequenina veia, em cada capilar...se eu derramasse assim de natural, então seria em sangue de vermelho cada lágrima de meu chorar. Loucura. Como se de um plano de cidade em teias de ruas e becos e avenidas de visão aérea feita. Assim meus sentires. Assim meus pensares. Assim se deles tornam causa de chorares em soluços que, se sentidos são e a alma desfalecem, são confusos como se a vista aérea estivesse desfocada e da cidade, entremeadas de becos e rotundas, jardins e pequenos nichos, apenas eu visse uma difusa rede de linhas inapercebidas e as até confundisse com vasos de meu sanguíneo sistema. Vejo-te ali sentado. A ti eu vejo nítido. Mas não és o tu que eu chamo e de quem me apelido. Aquele que se ali derrama vai não sendo. Eu sinto isso. E este que referido faço antes dito, devolve-me um de chorar que aborta no interior do peito e deixa uma pressão que mais um pouco medida em bar, atmosfera ou unidade de medida outra, sufoca. Sufoco dessa pressão do não chorar. Dizia eu acima, e continuo. Se me desse em rebentar as correntes que me fazem ser vivente, choraria eu de vermelho vivo e cada soluço operaria um diagrama aqui na face. Cada tentativa de conter o curso do choro seria um avermelhar de mão e braço e cotovelo. E isso porque ele se não ergue, não lhe pede a vontade que se vá dali em passeio de sol ou de chuva. É isto que eu sinto olhando a ele. Ele perde a vontade mas nem ele e nem eu sabemos como e para onde, para quem, porque caminhos se vai, se perde tal de importância de se ter que é igual e maior de se perder de cada um numa cidade assim ou de perder o tino. Mal maior é, assim me dá em sentir e crer, perder a vontade. E por esta perda que nele se está processando, a da vontade, se me estão em mim desfazendo as vias daquele um sistema lógico de circuitos alimentadores do ser na energia transportada em vermelho de plaquetas. Como se me desfazem? Não sei. Estas coisas eu sinto. Apenas sinto. Sinto eu apenas?! Loucura. E fico olhando em espanto porque se me escorrem transparentes as designadas lágrimas. Fico em soluço esfregando um de cada olho com estas mãos que se me voltam humedecidas, mornas, mas límpidas. E eu as esperava tintas de vermelho sangue.

sem ...

segunda-feira, 7 de março de 2005

degraus...

Image hosted by Photobucket.com



Era uma pedra enrugada. Teria, em muitos tempos idos, sido uma lisa placa de marmoreada pedra, arroseada de cor, com listes de cinza muito ténue. E, porque era um local de passar o pé para o de dentro da cozinha, talvez nunca fora bem um degrau. Talvez fora um degrau de mármore, apenas para um alguém que dele fez a sua vez primeira. Talvez tenha havido para alguém um dia inicial Dia, de um dia, parabentar. Dia de relembrar, passando que fosse o moço, envelhecido já, a comoção mostrando-se a ele no dobrar que a língua se lhe fazia como se fora uma peça estranha, ao dizer ao neto: “aquele foi o primeiro degrau que o avô assentou”. A gente sabe lá que pode estar de sentir ligado a uma pedra tão de pisar que nem já lhe chamam o nome, como o que esta tinha – degrau. Mas, para um assentador, um moço de robusto dorso e mãos ainda apenas a ajeitar-se ao virar do cabo da colher da massa para dar aquele final toque que fazia que o degrau estivesse agora ali, a crer nisto que é da imaginação que pode tudo se se deixar andar, podia ser aquele degrau, um degrau com história. Que mais não seja, a história de ser o primeiro degrau que colocou aquele moço na sua, e continuamos a supor, que seria longa carreira de os vir a assentar.
Hoje havia a pedra enrugada que descrevemos e supusemos e havia Marília. E entre os dois uma queda. Ainda não dissemos. Uma Marília que tropeçava na pedra enrugada. Uma Marília um dia, comprara aquela casa enorme rodeada de ervas. Comprara a casa por... devido a .... pelo gosto de... comprara por aquela corrosão estranha que sentira; um aquilo que nunca sabia, quando assim se dava de se lhe aconchegar, se era mesmo ela lá num seu de interior, se era um de outro ser de uma outra vida, como a avó dizia que seres nos entravam; assim mesmo dizia a avó de Marília – seres que nos possuíam. Era este mesmo o termo que empregava – possuíam.
Certo é que Marília comprara a casa pelo sobreiro que nunca outro daquele porte nunca vira. E, no dia primeiro que o viu dependurando rama sobre a chaminé da casa, tinha metade dele em cinzento grosso e a outra metade lisinha de um acastanhado que não sabia na ocasião, e também não encontramos nós agora designação para dar à cor, mas há cores que são assim...não se deixam chamar. E o sobreiro parecia gente acabada de sair de banho em meias vestes. Isto, apesar, Marília lembra bem, de ser de frio com sol, o dia aquele em que, nem sabe bem quem foi, se ela se outro incarnado ser em si, decidiu que a casa seria para ela viver dali até a uma sepultura ou, sabia ela lá como seria, o acabar da vida daquela Marília ali embevecida.
Marília comprou a casa, a erva, o sobreiro e... o degrau.
E hoje, agora que estamos a seguir a história, Marília estatelou-se de cima daquele minúsculo desnível de pedra...o degrau da cozinha. Foi como “o degrau da cozinha” que ficou sempre conhecida a pedra que, talvez, isso a gente não sabe, tenha sido a primeira assente por um rapaz que depois foi, terá sido, avô.
O que sabemos é que esse degrau estava agora muito rugoso, muito desgastado, muito sem aquela posição horizontal que, talvez, tenha sido resultado de um primeiro toque que passou a ser de mestre, dado com o cabo da colher de massa por um rapaz que se estreava na arte de colocar pedras que passariam a servir de para subir e para descer, para entrar e para sair e que, neste preciso descrito, também servia de local de queda.
O degrau, por desgaste ou descuido de vir a tal de Marília a correr, servia, neste momento, para alguém se estatelar.
E o alguém que caía, no degrau que fora pedra, presumível primeiro degrau assente por um moço futuro mestre de colocar degraus, que mostraria a um neto o local da sua obra primeira com a comoção a enrolar-se na língua, o alguém era Marília.
Marília. Uma mulher linda rondando a idade de ser uma avó. Marília que não era avó, nem seria, porque dela não brotara vida senão a que ela possuía em rodos que a faziam se alevantar de um pulo e prosseguir a corrida mesmo que depois de caída do degrau.
E, cheia dessa vida que não passara a outro alguém que de seu filho assim se chamaria, gritar de um vozearia que era uma das vantagens de a casa e o sobreiro ficarem no de longe de outras casas.
O grito de Marília, era um grito com nome de homem. O homem que corria de encontro ao apelo contido no grito de Marília, logo a seguir ao ela se estatelar no degrau da cozinha, sorria sempre que contava ter sido de seu ido avô a profissão fazer escadas de pedra. Escadas de pedra degrau a degrau.


Foto do querido Ognid que contém a imagem linda amalgamada com a sua enorme paciência para aturar aqui a Seila

sexta-feira, 4 de março de 2005

Pôr de luz



Brilho de incandescente feito
cada degrau reluzindo
branco
e a cor...todas as cores...
resguardada
colorida.... branquinha
a escada.
Encandeava o quem que a olhava.

Sentado no degrau do meio,
enroscado num degrau a meio,
o Homem.
Sombreava um tanto.
O brilho encurvava ali,
naquele de seu redondo Ser,
naquele degrau do meio.
No meio de uma escadaria
fazia sombra, fazia desluzir.
Acima e mais abaixo... a luz.
Ali... o Homem,
num redondo encolhido,
uma sombra em degrau
a meio da escadaria.
De verdes olhos olhava
de verdes olhos, o Homem via.
De um olhar de luz, o Homem
ergueu-se
do fundo de um Eu,
olhou de encandear,
olhou de se desensombrar.
A sombra deslassou acima e abaixo
O brilho sumiu devagarzinho
milímetro por milímetro de baixo a cima
até um só redondinho
um de brilho pequenininho
um nadinha de luz no cimo.
Depois desse redondinho,
escureceu.
Ensombreou de negro a escadaria.

No degrau do meio
devagarinho...a luz.
Brilho de encandescer
Um redondinho de brilho
Um brilho de verde olhar
Todo o brilho ali...
num degrau do meio da escadaria.

Rebrilhando de luz
o Homem descansou.

quinta-feira, 3 de março de 2005

Percursos


às vezes as palavras precisam saltar do coração
desatar de entre as duas que se olham e se dizem-ouvem
às vezes é preciso tirar as palavras todas para dá-las ao mundo
as palavras entremeadas de coração e olhos ficam ali quietinhas
assim ficaram aquelas ali
devagarzinho vou tirá-las uma a uma e ofertar a todos vós
olhem aqui
não! não é nada demais ...
são apenas umas simples palavrinhas...

então ela lhe deu os parabéns...
lhe disse de mansinho “ih! que de tempo passou!!!” você tá linda e eu...ai eu minina eu tou tão de coração sorrindo que lhe fiquei de amiga sua de tempos que nem dava no jeito de sentir que ia ser de assim sentida esta meiguice do jeito seu ...arredia que eu andava de encontar com gente...me conquistou...a conquistei ...aconchegada agora eu sei....posso ficar e se você necessitar ou só mesmo desejar, pode bater as vezes que quiser mas não vai precisar eu vou estar não precisa avisar...olha meu ombro aqui: que quer chorar, se rir?! ah! hoje foi dizer olá e ir! Minina, a gente sempre fica junto quando é de si gostar...


Diverti-mo-nos imenso! Não foi amigalhaço?

terça-feira, 1 de março de 2005

PARABÉNS ALICE

Mulher ali abeiradinha entre as 50 e as 60 Primaveras

ao Sul num Mar de Sol
sussurrando sob palmeiras bravas
os deuses Te abençoam
Mulher que no-la hoje
a trazes
Primavera!

domingo, 27 de fevereiro de 2005

foto

se as visses hoje
se olhasses o céu de chuva em fundo
se caminhasses rindo ali comigo
se me desses a mão amigo
se olhasses as flores de amendoeira
as flores já fugindo sob o verde
afagando-te o cabelo sujo e pardo
se estivesses aqui olhando as flores...
mas de ti ficou-me este desenho d’arte
foto em cinzento como o céu de esta tarde

Víamos-te, certo
na esquina da cidade grande
eras tu a gente sabia
mas nada de quem eras a gente percebia
Quem eras ?!
Ficaste naquele suspenso gesto do teu Ser,
mas quem serias Tu?!
Inventando escrevi sobre quem?
Sobre Ti?!
Pecado ou Amor que molda em um os muitos
semelhantes todos...naquele tu que vi?!
Enquanto te invento, a pergunta dolorosa fica:
quem eras Tu?
E, sincera, suplico a esse Alguém que ousei reinventar:
Perdoa que te tenha assim feito Ser
Foi por a muitos todos querer amar
Foi por te sentir um tu pleno de um Amor
que poderias dar!



texto sobre a foto aqui

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

travessias


Apetecia-me escrever-lhe. Dizer-lhe.
A perda das certezas. A perda das respostas. A perda do controlo dos aconteceres.
Queria escrever a ela.
Depois dessa perda, a serenidade. Depois, o amainar dos medos...Os corredores labirínticos a transformar-se em ruelas sossegadas. Algumas desembocando em recantos ajardinados. Outras, descendo até margens de regatos de águas transparentes. Os labirintos entrecruzados, cinzentos, húmidos que me faziam imagem de mim, não desexistiram. Eles lá estão. Apenas eu me passeio neles sem olhar receosa a minha sombra ou apressar o passo medrosa. Aprendi a percorrê-los para melhor os conhecer e não para lhes fugir. E até aprendi a gostar dos seus recantos mal iluminados, do cheiro acre de uma valeta sem sol.
Dizer-lhe a ela.
Um dia passei muitos dias em que os dias que vivia eram a soma de esperar. E eu não sabia que sabia fazer isso. Eu não sabia que podia viver apenas esperando algo que não estava na minha mão mudar. Eu não sabia que podia viver os dias sentindo as divisões de cada dia e em cada intervalo de cada parte o dia, nos bocados em que o dia era para ser, a boca amargava-me e eu desexistia.
Imagina!
Imagino eu agora que escrevo sobre o que foi viver dias que nem existiam nas partes em que era para existir, nem existiam nos intervalos dessas partes. E isto era assim, mesmo que eu estivesse no cinema ou sentada numa esplanada com amigos. E isto era assim mesmo que estivesse a ver o mar sentada deixando que as lágrimas enchessem aquela covinha de areia. E isto era assim, mesmo com o Natal a rebentar em alegorias de quadra de ofereceres ou a Primavera a rebentar em cascatas de flores e verdes e sol e luz e águas de Abril. E o isto que era assim era o dia, todos os dias, ser dividido em três partes que não eram a manhã, a tarde e a noite, mas eram outras partes de outro horário, marcado por outro fazer. Eram dias de esperar e dias de ver e dias de contar e dias de saber outras coisas diferentes daquilo que se queria e se desejara saber e nem sequer se importar se para saber isso se deixava de saber outras tantas...muitas coisas. E nesses dias aprendi a desesperar como uma forma de sossegar. Contraditório? Não. Tão apenas sentar o desespero frente a frente para o poder ter não como inimigo, mas como aliado. E os corredores do medo não encurtam nesses dias. E os corredores do desespero não se tornam menos húmidos e escusos. Apenas aprendo a percorrê-los sem receio. Apenas aprendo que vou ver o fundo, mesmo que não saiba quando. A dor é o percorrer desses corredores dos nossos medos. A nossa dor. A dor que sentimos por não poder apaziguar a dor do outro, essa dor apenas o saber esperar a colmata.
Um dia, eu vivi muitos dias divididos em partes que o sol não comandava.

Um dia, depois desses dias, percebi, aprendi que a serenidade advém da aceitação do que a Vida nos dá.
Um dia, depois de conviver com a dor do outro feita minha que mais dor é, um dia desses, depois dos outros, eu percebi a unidade do meu eu com os demais. Noutros, muitos outros, eu continuo vivendo muitos dias em que os dias são a soma de esperar. E muitos outros eus não sabem que sabem fazer isso...que podem viver apenas esperando algo que não está na sua mão transformar...que não sabem que podem viver os dias sentindo as divisões de cada dia e em cada intervalo de cada parte o dia, nos bocados em que o dia era para ser, a boca amarga e cada um dos muitos eus desexiste.

Eu gostava de lhe escrever
e dizer das noites sem manhã e das tardes sem pôr de sol.
Eu gostava de lhe escrever
e dizer que soluçar confunde-se
no cascatear da água na fonte
na chuva caindo no quintal.
Eu queria dizer-lhe
depois desses dias nunca mais aqueles dias
Mas eu gostava de dizer-lhe
do sorrir :
Um sorrir de uma outra Alegria!

Escrito depois de ler a Lique
Obrigada ao
Ognid pela foto carinhosamente ofertada

domingo, 20 de fevereiro de 2005

serenamente


A frescura da flor de amendoeira
a fragilidade e o fruto que a sua singeleza encerra
o sol a esconder-se em religiosa e silenciosa despedida
anuncia o raiar de um dia novo
é isto que deixo hoje
uma mensagem escondida e por isso inda pura


sábado, 19 de fevereiro de 2005

Longa espera


No fim da espera
quando acabar este silêncio
num ruído de alegria
ou num rugir de desesperança,
choverá!
Finalmente...
choverá!
Quando vires chover,
acredita:
é o milagre das lágrimas!
O sol chora,
finalmente!
De uma a outra Primavera,
soltam-se lágrimas!
É o nosso sol a poder libertá-las
num ruído de alegria
ou num rugir de desesperança...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

...que chova

Que a água se desfaça!
Que o suor rompa de cada poro!
Que o corpo escorra deslizando
o ventre em tuas mãos!

Quero engolir a dor e rir do choro
sufocar de odores de maresias
salgar dos limos entre as pedras
ficar ébria de um respirar de leve
entre teus joelhos firmes amarras
ficar perdida em sabor de branco sal
confundindo luz e escuridão
olhar de frente todos os sóis
e mais que ter-te doar-me em ti
solto livre companheiro
caminhante de serranias íngremes
pular todas as constelações
em nossos corpos seduzidos, meigos.

Voltar devagarzinho nos teus beijos...
aplanar a roupa com o riso
deixar correr areia grão a grão
soltar a gratidão no teu sorriso
amar-te serena mão na mão
sorver a chuva no teu rosto
e ficar a olhar, a olhar, a olhar...

a ver-te até ao infinito...

Quero a água da chuva na janela
e entre ela e nós
entre ela e nós... o prazer do corpo!

sábado, 12 de fevereiro de 2005

Zoom

O quente vermelho do sol brilha, indecoroso, dependurado de um céu entre o azul e o plúmbeo. Sopra brisa de norte. Uma frescura que não perpassa o rosto, osso embrulhado de pele ondulada.
Em volta, a terra perdeu há muito qualquer sinal de verde. Montículos de pedras confundem-se com a terra esboroada por pés desnudados num arrastar silencioso, lento.
As árvores são troncos acinzentados, caminhantes em fúnebre cortejo.
Uma sombra paira. O voo baixo de uma águia não refresca o escaldar do sol. A paisagem não se enobrece de vida. A águia poisa no ramo mais alto de uma árvore. Árvore sem copa, sem folhas, sem mais que tronco e raiz. A brisa é morna.
Numa escala diferente de visão, a mesma paisagem. Uma face recoberta de pele seca e pelos hirtos. Um granulado salpicado de montículos castanhos. Tudo seco. Tudo quente. Tudo pardo. Troncos mirrados, arrastam, doridos pés. Nas dobras de pele escorre uma seiva acastanhada.


Olho as fotos que tiramos. Ficaram belíssimas.
Recordo o ermo do local e o acaso de um velho.
Ou era um réptil em vias de ressurgir numa nova pele?
Selecciono as fotos a enviar para a exposição.


Lá fora chove intensamente.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

corpo

Feito de mar, sol
ar e areia,
nele perpassa o desejo
de extase
invade o tremor de cópula
e vagabundeia o pensamento
ao seu sabor.

Tenho-te no segredo de mim,
à espera de poder perder-te,
no sabor de outro corpo




escrito por uma amiga a quem abraço hoje
neste seu de muitos dias!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005

as amendoeiras reflorescem

Mesmo que lhe tivessem dito
Mesmo que tivesse visto
Mesmo que tivesse ouvido
Tendo ouvido o que disseram
Tendo visto e ouvido o que julgou ter visto e julgou ter ouvido
Mesmo assim, que ficou realmente a saber sobre o que se passou naquele fim-de-semana?
Mesmo assim, que ficou a saber sobre aquela pessoa?
Depois, passaram-se mais aconteceres
Depois, passaram anos sobre esse fim-de-semana
Passaram outros fins-de-semana e dias de semana e noites de dias de fim-de-semana e ditos úteis
E hoje que fica a saber juntando todos os pedaços vistos, contados, ouvidos?
Hoje, tantos anos depois daquela vez em que mesmo que lhe tivessem dito, mesmo que tivesse visto, mesmo que tivesse ouvido, ficaria, como hoje, sem saber nada sobre o que viu, ouviu, escutou e sobre o que se passou com aquela pessoa.
E hoje numa segunda-feira de um outro Carnaval, volta a tentar entender o que, repetido, presente, quase se diria tão natural como ser de jeito que é cada um diferente de cada qual, sente apesar de tudo e, sobretudo apesar do repetido, igual, constante. Hoje teoriza. Não se distancia. Não pode a dor a esse ponto permitir. Mas afasta-se, isso pode. Olha de um afastado de querer entender. E a teoria leva por estranhos meandros, carreiros do ser, azinhagas, cruzamentos, fluxos de sentir, emoções de.... Não. A teoria não conduz a mais do que um enorme e convulsivo ponto de interrogação empanturrado de porquês, de comos, de quando, de até quando.
Fica, outra segunda-feira de Carnaval, olhando aquele olhar de azul que olha numa dureza de olhar o vulgar e se alonja sereno e meigo em territórios...que territórios serão?!
Não. Ainda não é hoje que consegue. Hoje sabe dizer que não entendeu acontecido... e dizer a dor - não sabe contar... esta não na sabe...
As noites não foram as suas
Os medos não foram seus
Os delírios não os sentiu
Os olhares dos outros não os viu
Nada se passou consigo
Nada se passou a não ser o seu medo
A não ser a sua dor
Nem a dor da pessoa a sentiu
A dor dessa pessoa, se dor, era distante, era não sua
Então se souber um dia contar...
Se uma qualquer segunda-feira de um outro Carnaval souber dizer... será de si que dirá
Mas sabe que algo se passou
Mas sabe que nada nunca mais foi o que era antes
Antes de se ter apercebido
Porque, isso entende que seja assim, o algo seja o que for que se estatelou ali naquele olhar que se afundou num olhar outro de muitos olhares diferentes, esse algo era germe desde o sempre. Esse sempre do antes de aquilo se manifestar e que, se deixasse, lhe tolheria o seu ser de culpas porque nesse antes poderia ter havido um talvez que permitisse outro diferente depois... Recusava pensar assim, mas...como entender o que estava na génese? Como entender o cadinho propiciador da (quela) evolução?
Chora. Não um choro de lágrimas. Um outro.
As amendoeiras floriram.


As amendoeiras florescem no Carnaval.
Parecem iguais e são tão diferentes estas das outras flores dos anos anteriores.
As amendoeiras florescem.
As máscaras colocam-se e retiram-se.
As feridas saram.
A vida é este continuum de diferenças que teimamos em querer semelhantes.
Os ciclos ajudam a viver.
Mas os ciclos terão que ser reconstruidos quando se quebra a sua aparência de igualdade.
Aparência.
Realidade.
O ponto de interrogação carregado, empanturrado de comos e porquês.
A vida a fluir.
O tempo.
Os ciclos.
Amar o olhar que julgamos afundado.
mas...que olhar afinal se afundou?
É... andará cada um dos todos ou andarão todos os olhares afundados e há olhares que sobressaem, sobrenadam, diferentes, na igualdade dos olhares que jazem olhando todos os dias o mesmo de modo igual?!


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

encontro/s

Maria sentava-se de vez em quando naquele banco. Era um banco de jardim igual a tantos outros que se espalhavam há anos, tantos, pela pequena cidade. Aquele sobrara da renovação que fizera o município. Ficara como que esquecido naquele recanto. Sim que não fora decerto amor a algum romance ali passado! E, daí, quem sabe?! Quem sabe se, no plano de renovação, não teria alguém desafectado aquele, precisamente o banco que Maria costumava ocupar, por via de a esse alguém ser o banco motivo de recordar?! Quem sabe?
Maria estava sentada no banco. Mais uma vez, descera devagar a rua estreita que desaguava naquele larguinho frente ao rio. Ali como se o rio fizesse uma esquina e o banco ficasse resguardado de tudo. Ninguém o via. E dele via-se muito. Maria sabia. Sentada quase abraçando com o corpo o todo da madeira, estava mais deitada que sentada. Lânguida. Deslassada. Esticavam-se meio cruzadas as pernas recobertas de meias e descida a eito sobre elas a saia de lã comprida e rodada. O braço direito caía dependurado na parte do banco oposta ao rio. O braço todo, não. Apenas a mão e uma parte do pulso de onde balouçava uma corrente de ouro com uma cruz pendente. A cabeça de Maria estava a ser aconchegada pela mão esquerda, o cotovelo assente na leve curvatura que fazia a parte cimeira das costas do banco. A cabeleira loura levemente encanecida derramava caracóis desalinhados quase tapando a mão.
Seriam as cinco e meia duma tarde de Inverno. O rio corria sereno. Liso. Prateado? Não. Era um rosa amarelado. O sol devia andar tentando dormir ali bem perto. Um silêncio enrolado com o frio soprava nas folhas do ulmeiro espelhado no rio.
Um homem de samarra aproximou-se. Estacou. Ficou olhando. Desviou o olhar. Torneou o banco. Olhou para trás. Voltou. Cumprimentou Maria com um aceno tímido no transparente azul do olhar que a olhou. Sentou-se na ponta extrema que o corpo de Maria deixara vago no banco. Desencostado. As mãos unidas entre os joelhos muito ajustados um ao outro. Uma quase vergonha de se ali estarem sentados. Maria endireitou-se. Sussurrou um esteja à vontade; gosto deste recanto. O homem olhou-a de novo com aquela transparência de azul no olhar. Ficaram até que o sol já se dormia e a bruma do rio era só a luz que fazia no escuro da noite antecipada de um Inverno. Maria ficou a conhecer a história daquele banco.
Quando acordou, tinha frio. Ergueu a mão donde pendia a corrente. Eram as oito. Já noite. Espreguiçou-se. Sentia uma leveza boa como se alguma coisa tivesse de facto acontecido. Maria levantou-se. Olhou o banco e sem pensar disse com um tom meigo: Boa noite! Eu volto!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

o nosso mundo?!!!

Hoje sopra um vento norte frio. O sol brilha. Não chove. Nunca mais chove! Em Portugal vai haver eleições. Eleições antecipadas por via de tanta coisa e quase nada. Ontem houve eleições no Iraque com tanques estrangeiros nas ruas por razões tantas e nenhumas. No dia qualquer coisa deste mês fez anos que um campo de extermínio nazi foi descoberto pelos aliados por razões tantas e nenhumas aquilo tinha acontecido. Vocês percebem porque falamos de cada coisa destas separadamente em níveis diferentes? Sabem?! Eu suponho que a razão de ser de encontrar diferenças entre o terror, o medo, a injustiça, a farsa, a morte, a tortura, a fome, a doença...deve advir de ser muito difícil a gente, cada um de nós, aguentar com tudo no mesmo saco, na mesma data, com igual peso, ao mesmo tempo. E depois que seria da nossa vidinha certa, sisada, cumprida, cheia de devoções?! Que seria da nossa sanidade se nos pusessem em igual a injustiça, o medo, a tortura quer ela fosse de um na sua casa ou na nossa rua, ou de milhões deles ali num país ao lado ou noutra época, num passado?! Se compararmos os nazis com, para não ir mais longe, casos na Bosnia-Herzegovina ou, mais recente os torturados no Iraque em prisões guardadas por europeus...se .....não podemos?!!! porquê?! misturar tudo é nunca conseguir encontrar culpados, é dar a todo o acto o mesmo peso?! ahahahah! deixem-me rir que só com um riso louco se consegue afugentar a loucura maior, a real, que é a do que tem juízo segundo a norma! Pois vos digo eu que nada sei, mas sinto e muito, que nada de diferente existe entre a cara que eu volto para o lado perante o ....como lhe chamam mesmo?!!!...drogado e aquele que enviou multidões a morrer em Treblinka, Auschwitz...Dachau... ali nos corredores da António Maria Cardoso ou na fritadeira do Tarrafal no Sal. Não concordam?! Não se pode meter tudo no mesmo saco?! Que piada!!! O medo que nos acagaça de sair para certos bairros é diferente do medo que tinham os judeus?! é?! Então vos digo que medo é medo e ponto final e neste momento a gente anda com medo até do vizinho do lado...diferente?! ah! claro! Mais cómodo sentir diferente para a gente poder ir levando esta vidinha até que nos caia o telhado em cima! Não acreditam?! Pois então deixem que a gente vá cantando Esperança e chorando o passado e não olhe o presente e não faça nada...
e depois digam que os poetas são... premonitores...

Terá mais fome o filho do meu filho
procurando a destruição dessa pedra verde,
árvore ou lâmpada, rio de folhagem.
É fascinante a ferida embriagada.
Nos olhos anoitecem biliões de mundos:
só o homem solitário acredita nas estrelas
e quando as olha é duro como uma nogueira
ardendo no vento em fogueira de frutos.
Há no peito do Homem um cristal profundo
mas, no mais fundo do fundo, é um sino mudo
que herdou do frio a paz da borboleta.
Como criança que apedreja andorinha,
cada homem destruirá a sua pedra verde,
árvore ou lâmpada, rio de folhagem
e breve será a prata de um coração feliz.
Essa fome é maior e ao filho do meu filho
pergunto se estou morto, pergunto se estou vivo,
ele encherá talvez a boca com a fome
e sem palavras calará qualquer resposta.

Terá mais fome o filho do meu filho de Joaquim Pessoa



e, já agora...assim numa de ao acaso....
encontram diferenças
?!


More than half million Muslims were massacred,
thousands of Muslims were sent into concentration camps,
women were raped and children
were kidnapped by the Serbs during 1990s.

e há muitos sites com torturas bem actuais
que me recuso a colocar
pela dor que me causa a sua actualidade
eles podiam todos ser meus filhos, entendem?!




segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

Dildo

Nunca te arrependas de entrar numa simples brincadeira.
O Tim Bora** foi um querido, um mecinho cheio de estilo dizia ele que responder era o mais fácil, mas não havia a quem enviar e por isso...não respondeu... olha... fiquei sabendo que ele brinca sem ter brinquedo!
O meu amigo Zé Gomes*** mostrou-se bem educado, respondeu ao meu pedido mas não sabia como fazer o questionário...nem sabia onde ele andava! Deixa estar Zé a gente adivinha...tu deves ler poesia.
Mas a um não perdoo ao Badallo meu safado deste tampa às outras duas, mas a mim eu queria mesmo saber qual é o brinquedo! Deixa estar que logo pagas. ####

Mas fazer disto outro post?! Credo que mau gosto! Que nada! Sabem lá que bem me soube o coment da Riacho?!!! uma ternura! Ela colocou em post e eu não resisto a agradecer a lição que assim me deu e enviar a ela e à gente de Dildo um fortíssimo abração!



####
afinal o Badallo respondeu por e-mail aqui fica:


1 - ou é "brincadera" pegada ou não presta! os "toys" não são prá aqui
chamados...
2 - o futuro a deus pertence, já dizia a minha avó, que não usava
preservativo! mas Dildos? isso é alguma coisa que se "coma"?!
3 - atão não! estou como o outro: ou tens, ou já não te nasce...
4 - esse gajo, o "dildo", está em todas! porém, juro pela minha virgindade que
não conheço! mas não garanto que não tenha "comido": há "dildos" tão bem
disfarçados que qualquer um cai...
5 - receber?! ora essa!... eu não "recebo", expludo! (aqui nunca entrou nada,
apenas sai...)

** afinal o mecinho respondeu vejam aqui como pus no template
VÃO VER AS RESPOSTAS TOY SEX do Tim Bora JÁ!!"

*** e este tb diz que respondeu...onde?!!!!!!!!!!!rsss

domingo, 30 de janeiro de 2005

Brincadeiras inocentes

1. HAVE YOU EVER USED TOYS OR OTHER THINGS DURING SEX?
Deixem-se de merdas com brinquedos...brincadeira é aquilo tudo...na chega?!!!

2. WOULD YOU CONSIDER USING DILDOS OR OTHER SEXUAL TOYS IN THE FUTURE?
Boooom…agora brinquedos sexuais…assim… ná! ná!!! Mesmo...(oh! porra tá a dar um programa sobre Jigolôs.....ca gandas TOY’S!!)
3. WHAT IS YOUR KINKIEST FANTASY YOU HAVE YET TO REALIZE?
Outra vez?!!! Eu sei lá o que será o meu futuro...até pode ser que tenha que arranjar um brinquedo...sei lá...
4. WHO GAVE YOU THIS DILDO?
Se é um Dildo eu nem quero saber o que isso é! O que sei é que a seriedade em pessoa, aquela de quem menos esperava, vem desafir-me com esta! Tal qual! Adivinharam? Essa mesmo! A dona Lique num momento em que eu estava numa muito séria, enfia-me com este dildo que já tinha visto aqui local que é onde estas coisas tomam as devidas proporções dildescas e esta sonsa diz que não me mandou porque eu estava com gripe... mulherio...
5. WHO ARE THE ONES TO RECEIVE THIS DILDO FROM YOU?
Só homens
Ao Lobices Oh! Quim alinha lá na brincadeira, tá?!
Ao DomBadalo Manel anda lá daí da tua toca e faz esta merda aqui que eu depois passo!
Ao TimBora bora lá Tim quero saber como brincas na te negues carago senão nunca mais brinco contigo
Ei José Gomes conta lá à gente os teus toys senão não és tu que fazes o requium é a gente que te mata o blog!
Vá lá uma senhora
D.Cecília na te negues anda lá e faz a tua biografia, amiga... só a referente aos toys tá visto!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2005

chuva


A porta estava aberta. Desfez o gesto de tocar. Empurrou. Atravessou o átrio muito ainda a cheirar a tinta, muito espelhos de deixar ver espalhados entre a porta envidraçada de entrada e as portas amarelas dos elevadores. Os elevadores eram todos, agora eram todos assim, com um ar de quem nos quer levar a outra dimensão, engolir-nos naquela lentidão de abre porta, desliza porta e o gesto repetido depois de entrar. Fazia-o nesse instante - com a mão enluvada de verde carregava no décimo sexto. Tão alto, pensara o seu pensar que ela, ela mesmo olhava distraindo esse seu eu, olhando o espelho e fazendo esgares à boca encarnada de dentes brancos e certos, verdadeiros. Sorriu de si para a imagem. Sorrir que a traiu pois que ficou por ele dependente de si e do seu eu. Conversavam à sua revelia que ela só queria ver o batom se estava ou não esborratado, a curva suave das sobrancelhas, aquele cair torcido da camisola verde por debaixo do ponche de muitas cores e, apesar de não reflectida, a saia comprida cor de palha de uma lã fininha muito quente quase a rasar a pontas das botas castanhas rasas. Mas ficou a olhar para isto tudo enquanto o seu pensar desfilava a tramá-la com perguntas e recordações. A luz piscou no 14º. Era engano. Por ele, levou os dois últimos andares a fazer mesmo o que queria e dava jeito - arrumou os óculos no estojo de metal, meteu-os na carteira onde ajeitou o emaranhado de papéis que para lá jogara antes de sair de casa enquanto anunciava para alguém que estaria decerto ainda a ouvir, não janto! vou ao teatro e a casa da Beatriz. Respondera-lhe um silêncio. Parou o elevador. O ritual das portas e ei-la lesta atravessando uma nave iluminada e oca de gente. E, mais uma vez, a luva premindo uma campainha ao lado de uma porta branca e dourada como o botão e encimada por 16º F em algarismos escavados no mármore branco.
Abriu-se a porta. Um salão, muito bem decorado, vazio de gente. Ninguém. Acordes de violino atravessavam as paredes. Uns sapatos de silêncio azuis atravessaram a parte de soalho e desapareceram. Ficou um ligeiro ar de lugar comum no salão.
Sentou-se no sofá vermelho. Ficou olhando o rio lá longe. Cheirava a coisas doces. Cachimbo?! Recostou-se. A nuca sentiu o fresco do alinhado do tecido. Fazia um sol escondido sobe nuvens cinza que corriam para sul.
Ouviu o nome que reconhecia chamar-se. Ergueu-se debaixo da saia e do poncho. Dependurou pelo pescoço a mala num tiracolo a desfazer-se. Os sapatos de silêncio indicavam-lhe o caminho. E agora voltara o pensamento a querer dizer de si e ela que estivera esta meia hora apenas a ser ela sem pensamento e dirigindo o sentir para aquele rio e aquele fim de tarde que anunciava finalmente chuva. Pensava na Beatriz que a esperava com os bilhetes para comemorar ou comemorar, tinha dito. A sala era pequena e a luz coada pelo cortinado duplo de tecido azul-escuro. Sentiu o arrepio do costume fender-lhe ao mesmo tempo os dois pulsos. Sorriu ao moço sentado na secretária. Lindo rapaz, pensou. Podia ser meu filho. A mão dele engoliu-lhe a luva e ela sentiu que ia ser engolida por alguma outra coisa. Sentou-se. Mandou calar com fúria o pensamento que lhe obedeceu como quase sempre. Jogou de leve a saca para o tapete. Recostou-se. Encarou-o com um olhar que sabia firme. Ele sorriu-lhe. Muito, mas muito longe daquela sala, chegou-lhe um som. Tão longe estava a voz que era daquela pessoa ali sentada em sua frente sorrindo e mexendo os lábios e ela ouvindo a voz e, mais estranho, a voz chegava-lhe apenas fazendo ouvir num repetindo: negativo.
O pensamento não lhe obedeceu. Nada lhe obedeceu. Ela tropeçou na saia, no ponche, nos sofás, no tapete e ficou agarrada ao moço num abraço tão sem jeito que só mesmo ele estando também contente porque a deixou chorar desmanchada em soluços e risos e tolices que parecia que algo de errado acontecera. E tudo fora do ela ter ouvido aquele acorde vindo de um confim de sabia lá de onde – negativo.
...................
Na rua reparou num guarda chuva grande todo repleto de gotinhas e sorriu do pensamento que antes prendera, lhe segredar agora em tom gozado – são as tuas lágrimas de alegria a passear... caíram de lá do 16º andar!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

risco

um risco preto
arranhado
rasgado na folha
a vida
esventrada pelo risco
os rubros fétidos molengos
espraiando do risco
um risco fino
imperceptível forte
um traço de estilete...
pronto acabou-se

esvaziar o centro
abater o cenário
despedaçar os fatos
derreter as correntes
entrar nos bastidores
abraçar de vez a costureira
o electricista
o moço de recados
comer no vão da escada
rasgar o camarim
esborratar as tintas
queimar perucas e saiotes
subir aos escadotes
abraçar o rapaz das cortinas
cantar de sala vazia
olhar nos olhos
uns olhos na coxia...
sorrir-lhe
sair prá rua
em passos curtos
anichada nas paredes
sentir
no corpo e em tudo o resto
a chuva o sol a lua
a vida
para lá do risco...

terça-feira, 18 de janeiro de 2005

palavras doutrem

As minhas palavras fizeram hoje um novelo
estão ali acocoradas
Apertadas em si
recusam-se
obstinam-se em ficar sem mim
Compreendo-as
as palavras.... que julgo minhas
rezam como eu....oram a um deus qualquer
pensam nestas Mulheres e em outros muitos
preferem oferecer-lhes um toque de mãos
doando Esperança nas palavras de outro!

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

Amostra sem valor de António Gedeão

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

tempo/s


Tremia-lhe uma voz de espanto. Ou a voz seria, antes, um abafado choro?! Ou seria grito há muito calado?! De onde vinha aquele ruído de silêncio?! De onde aquelas cores espalhadas em seus olhos?!
Olhei as mãos nos ombros dele. As mãos não tocavam. As mãos espantavam-se e gritavam e choravam. As mãos num silêncio tão grande como os olhos. As mãos mais pedindo que dando ou pedindo e doando tal era o espanto!
Olhei-lhe os braços deslizados no corpo. Os braços afagando o peito dele. Os braços desnudados transparentes emanando luz de um de dentro. Os braços adormecidos em gesto que nem era abraço, nem afago, nem sequer um apoio, um encosto.
No silêncio recoberto de cores e luz, dois corpos. De dentro do silêncio esboroou um tremor.
Olhei os dois. Olhei os corpos deitados. Inerte ele. Tremor seria dela.
Olhei de ver. Cerradas, as mãos, antes abertas, eram dois punhos. Dois punhos de veias muito de azul sovando o peito dele. Dois punhos batendo. Tremia o corpo dela. A boca do grito calado que soara antes, abria e fechava. Os olhos que emanavam, há instantes, o que me parecia cor, abriam-se em espasmos e deles desciam transparências acumuladas em bagas. Os punhos socavam. Os braços, antes iluminados, eram, agora via, dois nervos tensos.
Saí de mansinho. Deixei de olhar. Continuei a ver.

Era um silêncio de antanho. Eram nunca ditos. Eram nunca chorados. Era a perda do nunca doado. Era a dádiva do não recebido. Era o grito calado de muito passado. Era o tremor/temor de já não haver tempo. Era silêncio do silêncio. Não eram lágrimas eram restos de não sonhados.


Afastei-me.
Na rua trovejava. Caía chuva.
A Natureza chorava e tremia em tempo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

Sala de espera

Estavam todas sentadas. Cadeiras em quadrado. Uma escapava a esta geometria. Uma estava encostada num recanto que deixava uma viga mal planeada. Eram mais de vinte. Trinta cadeiras em quadrado e uma delas escondida por detrás de uma viga. Todas as cadeiras ocupadas. Digo com isto que em cada cadeira estava sentada uma pessoa. Em todas não. Naquela desviada do quadrado que as outras faziam em redor da parede com umas quatro portas de permeio, nessa, estavam sentadas três pessoas. Três pessoas na mesma cadeira: aquela que estava desviada desalinhando o quadrado. As cadeiras com as pessoas sentadas estavam numa sala onde haviam quatro entradas e uma entrada e saída. Explico com mais preciso entendimento para quem não viu. A sala tinha uma porta de vidros que badalava para cá e para lá deixando entrar e sair. A sala tinha mais três portas de madeira pintada de amarelo com dedadas pretas na zona de alto abaixo de onde se fechavam. Essas três portas estavam fechadas. Eram portas de entrada. Há cerca de duas horas cada uma das trinta pessoas sentadas tinha visto abrir em intervalos de meia hora uma pessoa em cada uma das portas. Eram, assim, três portas de entrada do ponto de vista, sempre relativo, de cada uma das pessoas que estavam sentadas. Disse trinta. Eram trinta e duas. Numa das cadeiras estavam três pessoas na mesma cadeira. Assim eram trinta e duas pessoas sentadas em trinta cadeiras em volta de uma sala que tinha quatro portas. Uma porta de vidros que desde que elas estavam havia três horas ali sentadas tinha ficado, como as outras três, fechada. Por essa porta entrava a luz do dia. Uma luz coada que dito assim pode parecer poético. Não. A luz coada era-o pelo sujo dos vidros e mais era também pelo facto de haver em frente um muro alto. Por via de estar a sala assim iluminada pela luz do dia, tinha no tecto acesas duas lâmpadas grandes que produziam aquilo a que se chama uma luz crua. Na sala em que estavam aquelas pessoas havia outra coisa evidente para quem, saindo ou entrando, aparecesse. A sala estava ocupada por trinta cadeiras com trinta e duas pessoas e ainda ocupava-a em todos os recantos e mesmo nas paredes e mais ainda em cima do rosto de cada uma das trinta e duas pessoas, alguma coisa que não se via, mas estava, vos garanto, por todo o lado. Na sala havia silêncio. A cadeira atrás da viga que distorcia o quadrado da sala por lapso ou por plano concebido a preceito, tinha, como disse, sentadas três pessoas. Uma estava realmente com o corpo encostado na cadeira. Essa estava sentada na cadeira. Outra estava no colo tão encolhida que mais parecia ser parte integrante da sentada. A terceira pessoa daquela cadeira ocupava dela apenas um recanto. Estava meio encostada. Notavam-se duas pernas esticadas de um corpo que não teria ainda mais do que seis anos de saber o que era estar sentada ou encostada. Então, na sala, havia, mais precisamente, trinta adultos e duas crianças. Estavam todas sentadas ou ao colo, ou encostadas, há mais de duas horas. E estavam nesse tempo cobertos de um quase visível silêncio. Como já disse, o silêncio ocupava tudo e todos na sala.
A cara de alguns mostrava que eram gente grande e gente velha e gente jovem e gente vestida de gastas roupas e gente alguma com falta de dentes e gente com mãos de unhas roídas ou enegrecidas. Eram então pessoas de idades diversas e desapossadas de teres. Uma ou outra das pessoas tinha na mão um lenço, um papel escrito amarrotado, uma mão que tremia, um jeito de quem dói a posição de estar sentado. Havia uma com uma perna enorme avermelhada na canela. A pessoa que tinha a criança no colo, era mulher e nova e linda. Essa mulher, de quando em vez, quebrava baixinho aquele silêncio. Sussurrava ao ouvido do menino seu filho encostado que estivesse quietinho que o senhor doutor já vinha. De quando em vez era o silêncio quebrado por um espirro ou uma tosse, ambos recolhidos pela mão frente ao rosto quase a medo.
Nesta sala de repente ficaram vazias a maioria das cadeiras e uma fila de pessoas que estavam sentadas movia-se falando numa cadência que diria que cantavam dizendo não há direito não se admite. A mulher do canto segurou a mão do corpo que deixou de estar encostado. Na outra mão agarrou um saco e encostou ao seu o corpo que tinha ao colo. Olhou em frente. Os olhos grandes lindos. Levantou-se. O silêncio estalou como um estrondo. Duas pessoas tombaram numa só naquela zona da sala quadrada em que a viga escondia a cadeira em que estavam três pessoas.

PAZ



Alegria de viver! que Alegria a Vida!

terça-feira, 11 de janeiro de 2005

desejo hoje


nem forma nem movimento nem fala nem riso nem choro nem passo nem abraço nem beijo nem fome nem sede nem vivas nem lamúria nem busca nem indecisão nem aventura nem ficar nem partir nem forma nem dimensão nem ar nem água nem heresia nem deus nem ideologia nem crer nem desistir nem ódio nem passado nem presente nem futuro nem corpo nem alma nem lei nem juiz nem sim nem não nem porta fechada nem portão escancarado nem rio nem cascata nem sol poente nem lua cheia nem precipício nem prado nem duna nem ceara nem sueste nem nortada nem brisa nem ar nem vela nem escuridão nem pão nem farelo nem vinho nem sobriedade nem música nem sirene...
nem o resto que lembro mas não escrevo por mor do que comanda tudo e chamamos tempo....
Hoje apenas
Alegria Esperança Paz Amor em Silêncio!

(Hoje no dia do meu comemorar do passar do tempo)

Criança de Rembrandt

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

hoje fizeste anos Mãe



Tantos anos minha mãe!
Ai tantas Primaveras
Tantos Invernos e Verões!
Tantas tantas quimeras
Tantas desilusões!
Tantos dias labutando
Tantas noites de aflição!
Sempre sempre trabalhando
Para os filhos terem pão!
Tantos Invernos tão frios!
E Verões tão escaldantes!

Ai minha mãe tantos anos
De alegrias e ternuras
Misturando desenganos!

Quando tive entendimento
Comecei a conhecer-te!

Oh! minha mãe, minha mãe!
Como posso eu esquecer-te?!



Escrito pela minha mãe em 2/7/89


sábado, 8 de janeiro de 2005

Perdoem

Não sei nada. Nada do que sei interessa a ninguém. Sinto. Também não sei se o que sinto interessa a alguém. Não que queira, mas que devia (a mim mesma, claro!) uma reflexão, uma que fosse, sobre o nosso momento. Abro os jornais. Leio. Folheio. Fico pensando. Um desencanto cai-me ali e esborrata as letras. Tiro os óculos. Limpo-os distraída. Penso: “não, este desfocado, não é do sujo das lentes; tampouco de estarem desajustadas a esta vista cansada”. Apoio o queixo na palma da mão. Que raio se anda a passar?! Andarei eu confundida ou...deve ser! Eu ando sempre out, ando sempre a leste! Mas... a cada página deste jornal de sábado, encontro coisas confusas para a minha mente! Não! Necessariamente eu não tenho qualquer jeito para comentadora! Tá visto! Não vale a pena o esforço que estou fazendo.
A Ministra da Educação de que nem sei o nome (vergonha? Eu?! Porquê?! Esqueço-me, pronto!) mas...essa dama teve a desfaçatez de dizer o que disse?! E ainda teve defesa de um qualquer ministro?! Preciso foi o senhor açoriano do alto do seu magistério de segunda figura deste ex- império, tentar colocar alguma ponta de verniz naquela pouca vergonha. Sim porque as intervenções dos senhores da bancada deixaram também muito a desejar! Oh! Zé Magalhães! Oh! Homem, tem lá respeito pelos cabeleireiros que aí a gente lê a Holla ou lá que é e outras revistas cor-de-rosa, mas não telefona a dizer que não vai porque elas não merecem ou apenas porque não apetece. A gente arranja uma desculpa simpática nem que seja a proverbial dor de cabeça ou uma marcação para tratar dos dentes que esqueceu! Sinceramente, aquela outra do acidente e incidente vinda do lado mais à esquerda da bancada daquele rapaz com um ar sempre bem-educado...oh! Louçã! Depois do que disse a dama, na valia, digo eu que nada sei, na seria mais do jeito dessa ala, contribuir para deixar o resto louça partida em vez de pores a dar lição de vocabulário?!
Este país está de gatas, dizem alguns (muitos?!!!!) Mas atão na havia de estar?! Atão agora os senhores da banca ou empresários o diabo que os carregue e os (ai meu deus!!!) sindicatos fazem concertações assim em jeito de um beberete e os trabalhadores deste país que dão o coirão, nem sequer são convidados nem tidos nem chorados.

Podia eu dizer mais, mas como vejo e já sabia, na tenho veia para coisas de política. Mas enerva-me. Irrita-me. Fico encolhida na cadeira cheia de vergonha, até coro e sinto arrepios, como no circo ou no balet em pequenina (e ainda agora) quando os artistas davam um passo fora do tom. Isto quer esteja sentada em frente do pequeno ecrã ou na posição horizontal a ler um jornal...coro até à raiz dos cabelos!
Depois não percebi ainda, mas isto desde há muito tempo, porque raios querem os partidos (que nome haviam de ter estes conjuntos! E como assenta ele bem, neste momento, aos que cá temos!) dizia eu, para quê essa postura de fazer coligações?! E o nosso presidente (devia ter escrito com letra grande?! Na me apetece!) depois dos acontecimentos de um passado recente que remonta aí ao despontar da Primavera, entrou em delírios trémulos talvez seja por razões religiosas, a anuir com esta das coligações! Oh! Jorginho que a ti nunca em sítio de acaso te conheci, nem à tua Zézinha, mas custa-me! Que me parecias um rapaz atinado e andas assim a modos que uma ventoinha – roda-te a cabeça para todo o lado. E anda o teu mano, coitado, a escrever que se farta aqueles livritos e artigos de revista a defender a moçada e os professores e a escola e tu, homem, tira uma noite, uma semana, e vai jantar e ouvir-lhe uns conselhos! Não que eu partilhe de tudo o que ele diz, mas antes isso que andar assim de tensão baixa a tentar compor o puzzle em que está tornado este país!
Felizmente, ( pra mim, tá-se vendo!...) nestas eleições de parto prematuro, não nas há por razões se calhar obscuras...sei lá... Mas explico a minha: se cada partido defende uma linha de pensamento, uma ideologia (não?!!!!!!!!) e uma forma diferente de conduzir os destinos da nação (não?!!!!!!!) porque não vai cada um por si ver o que os votantes desejam e depois de contados quantos e quais tem mais riscos nos papelinhos (agora é no computador?!!! é?!!!) todos juntos serão a representação de quem votou, repito, de quem votou! De outro modo, uns destes dias estamos naquela negra fase que tão bem conheci de partido único (havia algum?!!!).
Entretanto...digo? na digo? Vá! Digo!... que este tipo de escrita na me dá, felizmente, todos os dias!
Dizia, eu, que entretanto a Mãe Natureza respirou forte e matou uma data de gente! Parece cru?! Não é! Um destes dias, pode acontecer o mesmo aqui à gente! Mas, respirando de um natural que a Terra tem de fazer, alagou países inteiros e deixou, vivas, sem abrigo, sem pão e sem família, muita, um ror de gente! Aqui d’el rei que a nossa TV nos dias primeiros apenas via que europeu podia, das suas ricas férias ter ido na cheia prás alminhas! Depois, lá acalmou, mas como eu me espanto de ver a dor estampada na cara das gentes (com razão pêra lá na façam confusão que eu inda sei o que estou a dizer!) anunciando, anunciando quantos mortos e as idades e mais ao pormenor não é que não há assim condições logísticas para fazer daquilo um furo jornalístico. E deram até em tentar encontrar alguém que sabia e não avisou que a onda gigante vinha lá!
E, pergunta a minha santa ingenuidade, quando não é a Terra que respira, quando o “fenómeno” que mata tanta gente todos os dias é devido a causas não da Natureza, mas antropogénicas (!) e as responsabilidades estão bem definidas em homens a que podemos apontar o dedo?! Ah! Aí a coisa tem uma dimensão cumulativa...é coisa costumeira de dia a dia... e por tal não é assim uma tragédia!!! Pois!... eu bem disse desde o princípio que não sei nada! Sinto! Mas e as guerras?! E os soldados e as populações não são mães, pais e filhos mortos?!!! E as cidades e aldeias destruídas e a fome?!!! São quê?!!! Ah! Acontecem todos os dias...a gente esquece?!!!
Pois... olha eu cá por mim até diria que se estas coisas do dia a dia não acontecessem, talvez, melhor, quase de certeza, que teria à tecnologia e à ciência sido permitido ter orçamento por aí pelos diversos continentes, para que os respirares da Terra fossem mais previstos e, sobretudo, tivessem aquelas gentes modos diferentes de casa para viver e os ressorts (que bonitos estes nomes! que eu também já estive neles, calma eu sou um deles tenho tanta culpa como toda a gente!) não estivessem entrados pelo mar fora como se fosse pecado deixar os areais parecerem um bocado com isso que já foram um regalo para os sentidos!
Misturei tudo! Pois bem! que seja!
Mas ainda digo mais: adorei ver na TV aquela festa de caridade (não?!!!) em que foi lá um senhor banqueiro muito humildemente fazer um donativo e ganhar palmas! Foi um gesto bonito quase que me vieram as lágrimas aos olhos! bondade pura apenas com a TV por mero acaso a buscar pressurosa mais um furo!
Assim, por mim sentida, vai a vida neste mundinho. A Terra respirando e a gente julgando que dura eternamente e pode a seu bel-prazer e fazer da Natureza, da Vida e dos Homens o que bem entende.
Esquecendo-se que o mais importante não é visível aos olhos! Ou será?!....

de onde?!! de quando?!!! estas imagens?!!!!!!!!!!!



leiam AQUI o post de 5.1.05 O mar enrola na areia

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

...às mãos


As mãos no colo.
As mãos debruçadas na janela.
As mãos labutando
Mãos suadas

Mãos afagando um rosto.
percorrendo as linhas
todos os recantos .
As mãos descendo tontas
rolando nos redondos
roçando agudos bicos.
As mãos entrelaçando outras.
Evolam dedos
peças soltas pesquisando corpo
desenham letras em cada interstício
desdobrados afagam nervuras
Enrola-se um fio de seda entre dois dedos
Desvelos de mãos
os dedos.
Um dedo vertical na boca
silêncio enrolado.
Quatro dedos debruçados
afastado um
Sobre o rosto
descanso...atenção...espanto.
Assentes na zona média do corpo
provocação.
Passeiam os dedos num afago
o cabelo da criança, o pelo do cão
presos por um fio ao coração.
As mãos juntas
verticais
pertinho do rosto
quase o tocam
oram
pedem a um deus ou louvam.
Abrindo aquele vertical em leque
fechando logo em união e força
aplaudem.
Aquela mão dobrada
dedo que não pertence à mão
descomandado
em riste num gatilho.
dedo malvado.
Dedos dobrados
todos juntos apertados
um punho dizem
gritando esperanças
lutas
porvires desejados
sovam se descontrolados...
As mãos percorrem interiores profundos
enrodilham-se lestas precisas sábias
em torno do ser que se avizinha.
As mãos lindas do corpo.
As mãos viradas
palmas das mãos
pedindo dando
Palmas de linhas mágicas
a vida toda ali adivinhada.
Brancas as palmas
em qualquer raça
imaculadas.


Mãos de ódio e amor
As nossas pobres mãos Senhor.


imagem :The hand of God - Rodin

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

segredo

Um olhar redondo. Letras pretas sobre a cal de um muro.
Dancei nua à luz da lua.
Alguém tinha dançado iluminada pela lua. Alguém tinha dançado nu. Uma mulher. Um olhar redondo no desenhado a preto sobre branco de cal. Dançou por amor, por loucura, por gostar da lua, por gostar de andar nua. O escrito sobre o branco – um acontecido ou um desejo. A frase de redondo olhado. Dançava a luz da lua no correr de nuvens. Sombras inclinavam agudos sobre o redondo da frase. Sentei-me. Encostada à parede por baixo do redondo da frase. Adormeci.
Dancei numa nuvem solta de um céu de duas luas. Cada lua em uma das mãos. As luas estavam negras. Em cada mão uma bola enorme fria. A lua morrera depois do dançar da mulher nua. Não havia luz da lua. Estranhei as duas luas. Não se pode estranhar dormindo.Acordei.
A lua brilhava alta. Muito redonda. Muito lua cheia. Por detrás do muro uma mulher surgiu dançando. Vestida de um longo e negro cabelo esvoaçante. Passou tão rente a mim que senti o cheiro a alfazema. Poisou as duas mãos por de cima da minha cabeça. Apoiada no branco, apagou uma a uma cada letra. Desapareceu dançando.
Olhei para cima. O muro todo branco. Dancei num passo tonto. Uma a uma retirei roupa. Fiquei nua. Dançava à luz da lua. Dançava por amor, por loucura, por gostar da lua, por gostar de andar nua.
Escrevi no muro a vermelho de um sangue que me escorreu: dancei nua à luz da lua. A frase cresceu. A frase pintou o muro de vermelho. O muro branco. O muro agora cor de sangue escondia um segredo. Eu dancei nua à luz da lua.

domingo, 2 de janeiro de 2005

Devagar

Os cavalos suados galgaram os prados
estacaram na beira do riacho
Inclinaram as crinas
a água fresca roçou-lhes as beiças
Beberam na corrente lenta da água

imagens ondulando
sósias ou clones

ou outros cavalos bebendo o céu
outros cavalos bebendo ...


As árvores agitavam ao sabor da brisa
Duas folhas verdes caíram

escorregaram na ida do riacho
Um cavalo abanou a crina

relinchou mostrando a dentuça alva
Uma fiada elegante de bolas castanhas

soltando-se do cavalo pardo
a cauda inconsciente formando um arco
Outros abanavam, vagarosos, cabeças esguias

torneavam...saciados

A luz do sol fazia uma renda no saibro

luz tecida nas folhagens dos arbustos

Do lado de lá do riacho um girassol

inclinado a poente...semicerrava
Um girassol solitário adormecendo
Um girassol observando o festim dos cavalos.


adaptado de anterior publicação em livro branco

sábado, 1 de janeiro de 2005

POEMA DA MINHA VIDA

Há um ano que as
nos chegam do SETE MARES
Um grande abraço de PARABÉNS com um poema da minha vida


ENIVREZ-VOUS*
Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront: «Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise!

*Cette oeuvre a été publiée pour la première fois en 1856. Il s'agit donc là d'un des premiers poèmes en prose composés par Baudelaire.

adoro estes espectáculos - este é no mercado de Valência

desafio dos escritores

desafio dos escritores
meu honroso quarto lugar

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein